Único hospital psiquiátrico do Amazonas está prestes a fechar; internos não têm para onde ir

Luana Lourenço
Enviada Especial da Agência Brasil

Em Manaus

O único hospital psiquiátrico do Amazonas está com os dias contados. O Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro foi construído em 1894, transferido para a atual sede na década de 80 e, em breve, deverá ser transformado em hospital de clínicas. Os 45 moradores finalmente deixarão o hospital para morar em residências terapêuticas, como prevê a Lei da Reforma Psiquiátrica, sancionada há quase dez anos.

Com boa parte do prédio já desativada, o Eduardo Ribeiro tem ares de elefante branco. Na parte mais antiga do prédio, corredores longos, muitas portas fechadas, pátios internos rodeados de muros, paredes descascadas e um forte cheiro de hospital. O cenário, de acordo com a diretora da instituição, Maria Ivone de Oliveira, já foi bem pior. “Quando cheguei aqui, fiquei assustada com o que vi. Era uma situação de prisão, de porão de navio, de Auschwitz [campos de concentração nazistas na Polônia], era um terror de Holocausto”, lembra.

Em 2006, 60 leitos do hospital foram fechados, seguindo as diretrizes da nova política nacional de saúde mental. Para Maria Ivone, que trabalha há mais de 20 anos no Eduardo Ribeiro, a mudança foi “precipitada”. “O argumento usado é que [o fechamento de leitos no hospital psiquiátrico] foi ousado para provocar a abertura de leitos em hospitais gerais. Mas foi precipitado, porque colocaram o carro na frente dos bois. Os pacientes que utilizavam esse serviço ficaram a ver navios”, critica.

Funcionários e pacientes vivem atualmente a expectativa da mudança para as residências terapêuticas, mas a transferência ainda é um impasse. A prefeitura quer oferecer casas em um projeto habitacional em um bairro distante do hospital, proposta criticada por médicos e psicólogos. Uma alternativa seria a transformação de parte do atual prédio em uma espécie de vila para os internos, sem grades e com portas para a rua.

Maria Ivone diz que “oficialmente” nada está definido, mas pondera que a saída dos pacientes talvez não seja a melhor solução. “Aqui é o melhor lugar do mundo para eles. Tem médico 24 horas por dia, remédio, comida, clínico-geral, psiquiatra, cama, televisão, a referência entre eles. As residências exigem cuidadores, não basta ter a casa, com a cortininha e o vasinho de flor”, argumenta.

Já a psicóloga Ana Maria Marques é categórica na defesa do fim da internação dos 45 moradores do Eduardo Ribeiro. “É uma dívida que toda a sociedade tem com esses pacientes. O que nos motivou inicialmente nesse trabalho foi justamente a ideia de tirá-los do hospital. É penoso ver aquelas pessoas envelhecerem e serem destruídas pela instituição manicomial. Cada morte dá uma sensação de frustração e de impotência”, afirma a psicóloga, uma das fundadoras do Instituto Silvério de Almeida Tundis (Isat), organização não governamental que desenvolve projetos de inserção social no hospital.

Fora da área de internação, a situação do hospital também não é saudável. O Serviço de Pronto Atendimento ainda tem 20 leitos para pacientes que chegam ao hospital em surto. O prazo máximo para internação breve deveria ser de duas semanas, mas há pacientes que chegaram há mais de um ano. O ambulatório também está sobrecarregado. “Tem 2 milhões de pacientes cadastrados e em 2009 realizaram 68 mil atendimentos”, contabiliza Ana Maria, do Isat.

Em meio aos problemas, há espaço para iniciativas de humanização do tratamento e reinserção dos usuários de serviços mentais, como a oficina de terapia ocupacional.

“A maioria chega aqui sem vontade de nada, numa apatia total. Com o tempo, percebemos a evolução, as pessoas voltam a fazer planos. O objetivo é que as atividades aprendidas aqui se tornem projetos de geração de renda”, explica a terapeuta ocupacional Márcia Souza, rodeada pelo artesanato feito pelos pacientes e que tem dado um pouco de cor ao hospital cinzento.

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