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Morre aos 77 anos o escritor Ivan Lessa, em Londres

Ivan Lessa na redação da BBC Brasil, em Londres - BBC
Ivan Lessa na redação da BBC Brasil, em Londres Imagem: BBC

Do UOL, em São Paulo

09/06/2012 13h17Atualizada em 09/06/2012 18h12

Escritor e jornalista, Ivan Lessa morreu na sexta-feira (8) de um enfisema pulmonar. Lessa, 77, que morava em Londres desde 1978, era conhecido pelo texto bem-humorado de suas crônicas para a BBC, onde  ele escrevia três vezes por semana.

Segundo o canal "Globonews", a mulher de Lessa, Elizabeth, o encontrou morto em seu escritório, ao chegar em casa à noite. Ao canal, ela disse que Lessa tinha dificuldades para sair de casa devido à doença, mas se recusava a ser internado.

Além dos textos para a empresa britânica, Lessa também colaborava com publicações brasileiras, como as revistas "Playboy "e "Piauí".  Foi um dos fundadores do extinto jornal "O Pasquim", célebre por sua resistência no período da ditadura militar. Ali, com o amigo e cartunista Jaguar, criaram o rato Sig, brincadeira com o psicanalista Sigmund Freud a partir da anedota "Deus criou o sexo, e Freud, a sacanagem". O ratinho virou um dos símbolos do Pasquim.

Filho do também escritor Orígenes Lessa, Ivan foi autor de quatro livros: "Garotos da Fuzarca" (1986), de contos; "Ivan Vê o Mundo" (1999), coletânea de crônicas suas para a BBC; "O Luar e a Rainha" (2005), também de crônicas; "Eles foram para Petrópolis" (2009), que reuniu os e-mails trocados publicamente entre Lessa e o jornalista Mário Sérgio Conti na coluna Correspondência, do UOL.

Lessa voltou para o Rio de Janeiro apenas uma vez desde 1978 -- em 2006, ele foi convidado a escrever um texto para a primeira edição da revista "Piauí". O escritor vinha sofrendo há alguns anos com dificuldades respiratórias decorrentes de um enfisema pulmonar, que o impedia de frequentar diariamente a redação da BBC Brasil em Londres.

Última coluna zombava da morte

Em suas crônicas, Lessa costumava fazer piada de si próprio e da doença que o matou. "Um amigo erudito, que ocasionalmente vem visitar meu enfisema..." era o começo de um texto seu de 21 de maio.

Na última crônica para a BBC, inclusive, o escritor ironizava a própria morte. A inspiração, segundo o texto de Lessa, partiu do trabalho de um frasista francês. Confira algumas frases imaginadas por ele sobre sua própria morte:

"- Mas não se mata cavalos e malfeitores?
- Pelo menos eu driblaria o câncer.
- Milênio algum jamais me assustará.
- Apanhei-te horóscopo! Pura enganação!
- Levo comigo a reputação de meu terapeuta.
- Pronto, agora não voto mais mesmo! Chegou!
- Aí está: uma cura definitiva para a calvície.
- Enfim, ano bissexto nunca mais. Esses ficam para o Jaguar. O resto pro Ziraldo.
- Só quero ver quanta gente vai sincera no meu funeral.
- Pronto! Inaugurei estilo novo: Arte Morta.
- Custou, mas estou acima de qualquer lei que vocês bolarem aí.
- Levou tempo, mas cortei enfim meu cordão umbilical.
- Que desperdício nunca ter fumado em minha vida!
- Maioria silenciosa? Essa agora é comigo.
- Na verdade, nunca me senti à vontade nessa posição incômoda de cidadão do mundo.
- Agora é conferir se, do outro lado, sobraram tantas virgens assim."

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