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Máquina de criptografar mensagens usada por nazistas na Segunda Guerra será mostrada no Brasil

Máquina de criptografar mensagens usada pelos nazistas está em exposição em Porto Alegre - Divulgação/UFRGS
Máquina de criptografar mensagens usada pelos nazistas está em exposição em Porto Alegre Imagem: Divulgação/UFRGS

Flávio Ilha

Do UOL, em Porto Alegre

10/01/2013 13h11

Uma relíquia da Segunda Guerra Mundial utilizada pelos nazistas começa a ser exibida nesta sexta-feira (11) pela primeira vez para o público brasileiro. A peça, batizada comercialmente de Enigma, faz parte da mostra “Alan Turing – Legados para a Computação e para a Humanidade”, que fica em cartaz até 22 de março no Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre.

A máquina de códigos, usada para disseminar mensagens cifradas em meio a bombardeios e ações armadas, é considerada uma das principais precursoras dos atuais computadores.

Uma demonstração do sistema cifrado utilizado pelos nazistas será feita às 10h de amanhã, para marcar a primeira apresentação pública da Enigma no Brasil. A máquina está há cerca de 20 dias na UFRGS, mas questões de segurança e de espaço de exibição impediram que fosse mostrada antes.

O equipamento, que se assemelha a uma máquina de escrever antiga, custou cerca de R$ 300 mil e foi adquirido junto a um colecionador norte-americano especializado em rastrear geradores de códigos mundo afora.

A Enigma era uma máquina comercial patenteada em 1918 na Polônia e que teve larga utilização no sistema bancário europeu ao criptografar mensagens e tornar as operações mais seguras. Os nazistas adaptaram o sistema para uso militar e passaram a usá-lo largamente nas operações bélicas, como forma de driblar as contraofensivas aliadas.

“A importância de Turing está justamente em desvendar o sistema de criptografia adotado pelos nazistas e praticamente mudar os rumos da guerra”, diz o curador da exposição e professor do Instituto de Informática da UFRGS, Dante Augusto Barone. A mostra, que ocupa todo o espaço do museu desde outubro de 2012, marca os cem anos de Turing, completados em 23 de junho do ano passado.

O professor da UFRGS explica que a Enigma funcionava por meio de uma tabela de códigos capaz de produzir milhões de combinações originais e que era alterada todos os dias. A semelhança com os computadores vem da sua capacidade de impedir automaticamente a repetição de um mesmo código por meio de programação prévia. “Quebrar essa variedade de códigos era uma tarefa praticamente impossível”, disse Barone.

Além de utilizar um sistema móvel de códigos, as mensagens também eram transmitidas por meio de telégrafo recodificadas em morse, o que dificultava ainda mais a tarefa de decifrar as orientações transmitidas pelos nazistas. Turing, matemático e estatístico, comandou uma equipe de 10 mil pessoas – a maioria delas mulheres – que se empenhou diariamente em desvendar os segredos militares de Hitler.

O centro comandado pelo matemático britânico ficava em Bletchley Park, a cerca de 50 quilômetros de Londres. A partir de meados de 1941, segundo Barone, os esforços de Turing e de sua equipe foram bem sucedidos e os segredos nazistas começaram a ser desvendados.

O curador da mostra explica que a grande contribuição acadêmica de Turing foi delimitar, na área da matemática, a existência de problemas computáveis e não-computáveis. A partir daí, o desenvolvimento de processos automáticos de decifração de códigos se tornou menos complexo.

“Turing sempre se empenhou em decriptografar mensagens, mas os nazistas souberam tornar essa tarefa muito mais difícil ao alterar os códigos diariamente”, diz. Segundo Barone, os alemães também melhoraram o equipamento ao transformá-lo numa peça eletromecânica a partir da combinação de um sinal luminoso ao processo de redação da mensagem.

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Com isso, era possível operar a máquina em situações bastante adversas – como um campo de batalha, por exemplo. “Mas isso, ao mesmo tempo, transformava a operação numa tarefa de alto risco”, disse o professor.

Segundo o curador, a máquina que estará em exposição no Brasil foi utilizada pela Aeronáutica de Hitler e, no fim do conflito, esteve a bordo de um dos iates do líder nazista. Barone diz que é uma das poucas máquinas desse tipo que continuam em operação no mundo – a Enigma A 22-00 adquirida pela UFRGS foi fabricada em 1942.

“Logo após a guerra, [Winston] Churchill mandou destruir todas as Enigma utilizadas pelos nazistas. Restaram pouco mais de 300 no mundo todo, a maioria delas fora de operação”, completa o pesquisador.

Quem foi Alan Turing

Considerado o pai da computação, o britânico Alain Turing era matemático, estatístico e foi um dos primeiros criptoanalistas do mundo científico mundial. Nasceu em Londres no dia 23 de junho de 1912.

Trabalhando em conjunto com uma organização inglesa, o matemático foi capaz de criar um sistema para traduzir os textos criptografados pelos alemães – o modelo foi chamado de “bombe”. A máquina captava e identificava quando o sinal estava protegido pelo mesmo padrão da Enigma utilizada pelos nazistas, para depois usar um padrão de lógica que ignorava informações que se contradiziam e gerar a mensagem verdadeira.

O título de pai da computação, entretanto, só seria possível depois da guerra, com o desenvolvimento de sua “máquina-automática” atualmente conhecida por máquina de Turing. Elaborada a partir de 1936 mas testada somente na década de 1950, a ideia do equipamento era bastante simples: o aparelho devia ser capaz de manipular símbolos binários (0 e 1) em uma fita de acordo com uma série de regras para guardar informações. O conceito é o mesmo dos atuais computadores.

Turing também aplicou seus conceitos matemáticos à biologia, o que pode ser considerado um estudo precursor às pesquisas envolvendo DNA. O cientista britânico se matou em 1954.

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