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Réu confesso da morte de juíza se contradiz ao ser questionado sobre participação de outros PMs

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

29/01/2013 10h28

Condenado a 21 anos de prisão pela morte da juíza Patrícia Acioli, o cabo da Polícia Militar Sérgio Costa Júnior foi a primeira testemunha de acusação a ser interrogada no julgamento dos também PMs e réus Junior Cezar de Medeiros, Jéfferson de Araújo Miranda e Jovanis Falcão Júnior, nesta terça-feira (29), em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

O depoente reiterou afirmações feitas em seu julgamento, em dia 4 de dezembro do ano passado, mas se contradisse ao ser questionado pela promotoria a respeito da participação direta dos ex-colegas de 7º BPM (São Gonçalo).

Durante o curso processual, conforme mostrado pelo promotor Leandro Navega, Júnior afirmou que todos os integrantes do GAT (Grupamento de Ações Táticas), apontados como os responsáveis pela morte da magistrada, estavam presentes no momento em que a ideia foi sugerida pelo tenente Daniel Benitez Lopez, o suposto mentor intelectual do crime a mando do ex-comandante do batalhão, coronel Cláudio Oliveira.

Na manhã de hoje, porém, o policial militar disse mais de uma vez que "nem todos os integrantes estavam presentes" na suposta reunião na qual Lopez teria "trazido a ideia fixa de matar a juíza". "Desde o início eu disse isso", argumentou o réu confesso, cuja delação premiada --que garantiu a ele redução de pena-- foi fundamental para que a polícia elucidasse as circunstâncias do crime.

No entanto, o promotor mostrou para o policial militar as folhas processuais nas quais constam a versão apresentada por ele em seu julgamento, deixando-lhe nitidamente confuso. Navega chegou a insinuar que Sérgio Costa Júnior estaria mudando a sua versão para possivelmente beneficiar os colegas, uma vez que ele já está condenado e não teria nada a perder.

CASO PATRÍCIA ACIOLI EM NÚMEROS

  • 11

    PMs

    Foram denunciados pelo crime, dos quais dez por homicídio triplamente qualificado e formação de quadrilha.

  • 1

    PM

    Foi denunciado apenas por homicídio, já que, segundo o MP, ele atuou como informante do grupo, o que não configuraria formação de quadrilha.

  • 3

    PMs

    Serão julgados no dia 29 de janeiro de 2013. São eles: Junior Cezar de Medeiros, Jefferson de Araújo Miranda e Jovanis Falcão Junior.

  • 7

    PMs

    Ainda esperam resultados de recursos.

  • 21

    tiros

    Foram disparados contra a juíza Patrícia Acioli na noite do dia 11 de agosto de 2011.

    "Pessoa calma e prestativa"

    O advogado do réu Junior Cezar de Medeiros, Valmar de Jesus, fez apenas uma pergunta para a primeira testemunha, pedindo-lhe que confirmasse ou não o teor do primeiro depoimento prestado na fase inicial do interrogatório judicial.

    Júnior confirmou ter dito que Medeiros era uma pessoa de personalidade "calma e prestativa", e que, pelo que o depoente sabia, o réu não teria sido comunicado sobre o momento no qual os PMs operacionalizaram o plano de assassinar a juíza Patrícia Acioli, no dia 11 de agosto de 2011.

    De acordo com a versão lida pelo defensor, Júnior afirmou no interrogatório em questão que Medeiros "não sabia da intenção e do planejamento para matar a juíza, nem na primeira nem na segunda oportunidade", referindo-se às tentativas realizadas antes da noite do dia 11 de agosto.

    Uma delas ocorreu no dia anterior, quando Benitez e Costa Júnior desistiram de executar o plano porque consideraram que o atentada chamaria a atenção. Na primeira, o ato não foi consumado em função de um desencontro entre o policial militar Jéfferson de Araújo Miranda e os demais acusados.

    Entenda o caso

    De acordo com a investigação da Divisão de Homicídios, dois PMs foram responsáveis pelos 21 disparos que mataram Patrícia Acioli: o cabo Sérgio Costa Júnior e o tenente Daniel Santos Benitez Lopez, que seria o mentor intelectual do crime, a mando do tenente-coronel Cláudio Oliveira.

    Outros oito policiais militares teriam realizado funções operacionais no planejamento do assassinato e responderão por formação de quadrilha e homicídio. Apenas Handerson Lents Henriques da Silva, que seria o suposto informante do grupo, não foi denunciado por formação de quadrilha.

    O assassinato de Patrícia Acioli se deu por volta de 23h55 do dia 11 de agosto de 2011, quando ela se preparava para estacionar o carro na garagem de casa, situada na rua dos Corais, em Piratininga, na região oceânica de Niterói. Benitez e Costa Júnior utilizaram uma motocicleta para seguir o veículo da vítima.

    Algumas horas antes de morrer, a magistrada havia expedido três mandados de prisão contra os dois PMs, réus em um processo sobre a morte de um morador do Morro do Salgueiro, em São Gonçalo.

    A juíza era conhecida no município por adotar uma postura combativa contra maus policiais. Segundo a denúncia do MP, o grupo seria responsável por um esquema de corrupção no qual ele e os agentes do GAT recebiam dinheiro de traficantes de drogas das favelas de São Gonçalo.