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Tradicional bairro boêmio do Rio, Lapa tem esgoto a céu aberto, lixo e insegurança

Marco Antônio Cavalcanti/UOL
Esgoto empoçado na avenida Mem de Sá, em frente ao n° 93, na Lapa, Rio de Janeiro. Além de provocarem mau cheiro, um limo verde é deixado nos pontos de vazamento Imagem: Marco Antônio Cavalcanti/UOL

Carolina Farias

Do UOL, no Rio

04/05/2013 06h00

"A Lapa é quase como minha mãe, minha pátria. Eu adoro aquele pedacinho de terra. Ali encontrei todo o meu apoio na vida". O mais lendário malandro do Rio de Janeiro, João Francisco dos Santos, o Madame Satã, viveu e imortalizou seus feitos no bairro boêmio da região central da capital.  Se vivesse atualmente por lá, o malandro se familiarizaria com os problemas encontrados hoje no tradicional bairro, típicos da primeira metade do século 20: esgoto a céu aberto, lixo, ratos e insegurança.

Por conta disso, moradores do lugar criaram o grupo Eles não Amam a Lapa para fazer uma junção dos problemas e buscar soluções junto ao poder público e à esfera privada. Algumas questões estão sendo resolvidas, mas outras, como o esgoto, esbarram em uma espécie de jogo de empurra em que a Lapa é quem perde. A aglomeração da Lapa atrai ladrões e traficantes, que se aproveitam para se "esconder" na multidão. Moradores e frequentadores reclamam da sensação de insegurança no bairro.

Apesar de ser o segundo bairro mais visitado por turistas no Rio - perde somente para Copacabana -, além de ser central, a Lapa é um "campo minado" de vazamentos de esgoto por ruas e calçadas.

Esse e outros problemas são alvo de uma página no Facebook do Eles não Amam a Lapa. No espaço, os moradores e frequentadores podem postar fotos e relatar problemas. Graças a essa ferramenta, o grupo já "mapeou", desde o início de abril, ao menos 16 pontos de vazamento de esgoto por tampas de galerias, bueiros ou buracos. A ideia é levar o relato, com fotos, para a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgoto) e cobrar providências.

"A princípio era apenas um desabafo e, com o tempo, ganhou eco no desconforto de muitos moradores, indignados com o estado de abandono, sujeira, lixo, esgoto, violência e miséria social. Era tão inacreditável o que acontecia por aqui que as pessoas se surpreendiam com as fotos postadas, como se não fossem do bairro onde moravam", disse a terapeuta Louise Tommasi, uma das integrantes do grupo.

Das situações com que se depara na Lapa, uma das piores é a quantidade de esgoto jorrando por ruas ou calçadas. Incomoda os olhos e o nariz. Um desses pontos fica ao lado dos Arcos, atração da Lapa. O líquido deixou um limo verde no chão.

Sobre essa situação, o presidente da Cedae, Wagner Victer, diz que a culpa pode ser atribuída a comerciantes que mantêm instalações irregulares.

Segundo ele, há aproximadamente quatro anos a companhia fez um levantamento da situação das instalações internas, caixas de gordura e demais ligações de aproximadamente 150 estabelecimentos, a pedido da prefeitura.

A Cedae encontrou irregularidades em 60% dos locais vistoriados. A maioria delas eram ligações clandestinas de esgoto na rede de águas pluviais e caixas de gordura [sistema que retém o óleo derramado nas pias] fora do padrão.

"Muitos desses imóveis eram residenciais, viraram comerciais e não se adaptaram. Eles tinham que fazer a correção do sistema de gordura. Quando essa gordura é lançada no sistema, ela se solidifica e, quando a caixa não funciona, isso obstrui a rede e o esgoto extravasa", explicou Victer.

Segundo ele, o que a Cedae pode fazer é autuar e multar o comerciante, mas não tem competência para lacrar o estabelecimento. Na época, alguns comerciantes corrigiram, outros não. A Cedae não soube informar se houve outra inspeção coletiva e quantos comerciantes estão regularizados. A Subprefeitura do Centro informou que cabe somente à Cedae fiscalizar instalações. 

Segurança

Moradores do bairro evitam falar da sensação de insegurança da Lapa. Como vivem na região, temem sofrer represália de traficantes e ladrões. A Polícia Militar faz policiamento na Lapa com o 5º batalhão. De acordo com o comandante, tenente-coronel Sidney Camargo, às sextas e sábados o policiamento é feito com 20 viaturas e 50 policiais, na operação Lapa Segura.

Porém, esse efetivo cai de domingo a sexta e passa a ser feito com quatro carros e 12 policiais.  "Há ainda um estudo sendo feito para melhoria dessa operação, que sugere também o uso de câmeras de monitoramento", disse o comandante.

Segundo ele, a dificuldade maior é nos dias de maior movimento, quando os criminosos se misturam à multidão. "Em alguns trechos de aglomeração, é mais difícil o policiamento. Os ambulantes também atrapalham, porque sempre tem aglomeração em volta. Com a abertura das ruas para o trânsito, melhorou", afirmou Camargo.

Ele explica que o maior alvo dos ladrões são os celulares e que os criminosos agem rápido para evitar o flagrante. "Eles são muito rápidos, fogem logo e passam para outro [o produto do furto] para fugir do flagrante. As pessoas devem evitar ficar com o celular na mão na Lapa", disse o comandante.

Barulho e lixo

Além dos problemas sanitários, os moradores fazem relatos de problemas que incomodam somente quem mora no bairro: barulho excessivo de casas noturnas e excesso de mesas e cadeiras na calçada, o que prejudica a passagem de pedestres. Em um dos posts, um frequentador da Lapa filmou uma "família" de ratazanas que se refestelavam em um monte de lixo na rua do Rezende.

Com a página, além de manifestações e abaixo-assinados, o grupo consegue aos poucos algumas conquistas.

"O morador não existia. A Lapa boêmia era dos frequentadores e dos acordos que permitiam que comerciantes fizessem o que bem quisessem na região. Até cimento colocaram nas árvores para ganharem espaço para suas cadeiras. A partir da primeira manifestação, o movimento ganhou respeito e adesões", conta Louise.

Segundo a moradora, o grupo já conseguiu parceria com a Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) e a Subprefeitura do Centro. Os moradores apontaram os locais onde se formavam pilhas de lixo e a empresa instalou lixeiras. Além disso, também conseguiram no início de abril um acordo, por meio do Ministério Público, para que fosse retirado o cimento dos canteiros aterrados.

"Estamos agora na luta para informar e educar as pessoas do bairro sobre os horários da coleta do lixo e a obrigação da contratação da coleta extraordinária pelos comerciantes. O lixo diminuiu, mas pedimos a coleta seletiva para tirar de uma vez por todas o lixo das ruas", afirmou a terapeuta.

O grupo também fará uma ação para distribuir porta bitucas de cigarro para o público que frequenta a noite do bairro e tentar diminuir a sujeira nas ruas. 

De acordo com a Comlurb, a Lapa tem coleta domiciliar todos os dias, a partir das 20h, e varrição, limpeza e remoção de entulho com dois caminhões basculantes. Na área gastronômica, a coleta é realizada a partir das 18h, todos os dias.

Além disso, um caminhão faz a retirada de lixo público a partir das 23h e outro às 6h. Já o lixo gerado durante a noite é recolhido pela manhã no caminhão das 6h, e 21 garis fazem varrição. O estabelecimento, que gera mais de 120 litros de lixo (como é quantificado o resíduo), deve contratar uma empresa para recolhê-lo, segundo a lei 3.273 de 2001.

Para o morador Bruno Sereno, 29, falta iniciativa de moradores e da Comlurb para resolver a sujeira das ruas da Lapa. "O morador já não tem cultura para os horários do lixo. A Comlurb também não tem trabalho de conscientização. Aí colocam o lixo na rua e vem os moradores de rua e rasgam para procurar material reciclável e deixam todo o resto espalhado", disse. A companhia de limpeza diz que faz ações de conscientização dos moradores do bairro.

De acordo com a Seop (Secretaria de Ordem Pública), da prefeitura, desde a reabertura das ruas do bairro, no dia 22 de março, até 19 de abril foram emitidas 50 notificações e nove autuações para bares que ocupavam irregularmente as calçadas com mesas e cadeiras e com atividades em desacordo com alvará.

Parte das rua Mem de Sá e Riachuelo foram fechadas ao trânsito de sexta a domingo desde o segundo semestre de 2010, mas a medida foi revista e as ruas voltaram a ser abertas ao trânsito no dia 22 de março. 

A Guarda Municipal informou que tem um efetivo de 411 agentes que fazem essa fiscalização --276 as sextas e sábados e 135 de domingo à quinta. Eles são responsáveis por fiscalizar a ocupação das ruas e atuação de ambulantes. 

Já a subprefeitura informou que em 2012 a Secretaria Municipal de Meio Ambiente realizou 282 vistorias referentes a denúncias de poluição sonora na Lapa e expediu 60 notificações (os nomes dos estabelecimentos não foram fornecidos).

A legislação determina que os estabelecimentos comerciais devem respeitar o horário entre 22h e 7h, sem emitirem  ruídos acima de 60 decibéis. No período diurno, o limite máximo é de 75 decibéis. As multas variam entre R$ 269,59 e R$ 2.635,00, de acordo com o limite ultrapassado.

Arrumando a bagunça

Também organizados, os comerciantes também tentam melhorar a situação do bairro e evitar a desordem. O Polo Rio Antigo reúne comerciantes de estabelecimentos de cultura, gastronomia, comércio e serviços da Lapa, Cinelândia, Rua do Lavradio, Praça Tiradentes, Largo de São Francisco e Rua da Carioca. Segundo Isnard Manso, presidente da associação, diz que apesar dos problemas, a situação da Lapa melhorou muito nos últimos 20 anos.

"A desordem sempre existiu. Nos anos 90 era suja, mal frequentada. Hoje a associação não pode responder por cada um dos comerciantes, mas fazemos um trabalho de conscientização para terem posturas corretas diante das leis. Entupimento e problemas com o esgoto não é só aqui, mas na cidade toda, que tem tubulação velha, que não é bem dimensionada", disse Manso.

Para ele, a Lapa atualmente tem mais moradores por causa das melhorias trazidas ao bairro graças ao crescimento do comércio e a frequência dos boêmios.

"Hoje a Lapa é mais residencial por causa dos empresários. Há 15 anos não era assim", diz o empresário.

"Herdeiro" do Arco Íris da Lapa, bar tradicional da rua Mem de Sá, Valter Lima Gabriel, 30, diz que "faz sua parte" como comerciante, mas diz nem sempre poder esperar o mesmo de instituições e órgãos públicos.

"A nossa parte nós fazemos. Limpamos sempre nossa caixa de gordura, quem recolhe nosso lixo é uma empresa particular, não a Comlurb. Mas, quando entope um bueiro nós chamamos a Cedae, que sempre demora. A Lapa cresceu muito sem estrutura, aí dá nisso. Mas, não é porque ganhamos dinheiro aqui que somos culpados pelos problemas, os moradores é que deixam o lixo na rua, por exemplo", disse Gabriel, que é filho do proprietário do bar.

De portas fechadas para a rua suja e barulhenta, mas sempre aberto desde 1910, o restaurante Nova Capela resiste ao tempo e às mudanças da Lapa. Francisco Soares, 78, proprietário do lugar diz que pelo fato de o estabelecimento ser fechado para a rua, sem fachada aberta com mesas e cadeiras na calçada, "protege" o lugar.

Com isso, Soares diz que os clientes ficam protegidos do eventual mau cheiro da calçada por causa de um bueiro em frente ao estabelecimento, além da sujeira da calçada. "É desagradável, às vezes tem mal cheiro, o canteiro aqui fica sujo e, às vezes, cheio de água", diz o comerciante.

A diversidade de bares, restaurantes e baladas é o que mais atrai o público à Lapa. Durante a semana, os bares ficam cheios de turistas e daqueles que trabalham no centro e gostam de um happy hour. Os engenheiros Vinicius Mota, 27, e Henrique Moro, 29, sempre estão em alguma mesinha de bar na Lapa, curtindo o fim do expediente. Apesar de gostarem do lugar, não deixam de observar os problemas.

"É bom para tomar cerveja, na hora do almoço, mas não moraria aqui, não tem estrutura. Um dia estava aqui e precisei de uma farmácia, na madrugada, e tive que ir até a Glória porque não tinha nenhuma aberta na Lapa", disse Moro.

Segundo Mota, o que mais o desagrada é o cenário que ele vê pela manhã, já que ele passa pelo bairro para chegar ao trabalho. "É gente dormindo na rua, lixo e um cheiro forte de xixi", disse.