PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

No Rio, 'black blocs' retomam agenda de protestos em evento que terá Bill Clinton

Manifestantes adeptos da tática black bloc tentam retomar a onda de manifestações no Rio de Janeiro - Fernando Frazão/ABr
Manifestantes adeptos da tática black bloc tentam retomar a onda de manifestações no Rio de Janeiro Imagem: Fernando Frazão/ABr

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

06/12/2013 06h00

Depois de um período de pouco mais de um mês sem protestos no Rio de Janeiro --a última havia ocorrido no dia 31 de outubro, quando houve confronto entre manifestantes e a Força Nacional de Segurança durante o leilão do campo de Libra, na Barra da Tijuca, na zona oeste da cidade--, os adeptos da tática anarquista "black bloc" retomaram o calendário de protestos, e prometem grandes atos para a próxima semana. O mês de dezembro marca os seis meses do início da onda de manifestações pelo país.

O grupo deve protestar durante o Clinton Global Initiative, evento organizado pelo ex-presidente americano Bill Clinton, e que acontece na capital fluminense entre o próximo domingo (8) e terça-feira (10). Na quinta-feira (12), professores e black blocs marcaram uma passeata para a avenida Rio Branco, palco das grandes manifestações.

Na última segunda-feira (2), os black blocs deram o primeiro sinal de retorno, quando cerca de 60 pessoas participaram de um ato em frente ao hotel Copacabana Palace, em Copacabana, na zona sul do Rio. A Polícia Militar agiu para reprimir a manifestação, e quatro pessoas foram detidas.

De acordo com a página oficial dos black blocs no Rio, foram marcados sete protestos somente na primeira quinzena de dezembro, além de uma campanha natalina para arrecadação de brinquedos e alimentos, que serão distribuídos para moradores de rua da praça da Cinelândia, no centro. O ato solidário recebeu o nome de "Noel Bloc".

Entre as reivindicações estão a liberação dos dois manifestantes que continuam no sistema penitenciário --um deles, o morador de rua Rafael Braga Vieira, 26, foi condenado nesta semana a cinco anos de prisão--, a revogação dos cortes salariais dos professores da rede pública que participaram de uma greve que durou mais de dois meses, a desmilitarização da PM, entre outras pautas.

Nas redes sociais, mais protestos estão sendo marcados em razão do provável aumento da passagem de ônibus no Rio, que deve ocorrer no ano que vem. O mesmo havia sido revogado pelo prefeito Eduardo Paes (PMDB), em julho, no período em que a onda de manifestações atingiu o seu ápice. O reajuste ainda não tem data para acontecer.

ENTENDA O BLACK BLOC

O "black bloc" ("bloco negro") não é um grupo específico de manifestantes, mas sim uma tática adotada por manifestantes que se dizem anarquistas.

Nos últimos seis meses, o momento mais efervescente de insatisfação popular foi puxado pelo aumento da passagem do transporte coletivo em várias capitais do país. No Rio, o reajuste seria de R$ 2,75 para R$ 2,95. O slogan "Não é por centavos, e sim por direitos" tornou-se lema dos jovens que participavam das manifestações.

Período de reorganização

Na avaliação de Elisa Marques, a Sininho, que foi detida na manifestação do dia 15 outubro, no centro do Rio, a pausa no calendário de protestos serviu para que os movimentos sociais pudessem se reorganizar.

A jovem, que faz parte da FIP (Frente Independente Popular), afirmou ao UOL considerar "completamente natural" que "o movimento tenha seus altos e baixos". Para ela, outros dois fatores devem ser levados em consideração: as festas de fim de ano e o fato de que muitos manifestantes "abandonaram suas vidas" durante os últimos meses.

"Também tem a questão do final de ano, do Natal, Réveillon, férias. Muita gente do movimento meio que abandonou a vida. Eu fui uma dessas pessoas. Abandonei trabalho e vida pessoal. A gente está utilizando esse final de ano para se organizar. Vamos ter o aumento das passagens em janeiro, e isso vai ser um outro boom", disse ela.

Segundo Elisa, representantes de movimentos sociais vêm realizando várias assembleias desde o mês de outubro, com o objetivo de criar um "diálogo horizontal". Além disso, dos encontros surgem novas sugestões de manifestações.

"Foram muitas assembleias neste mês. A agenda só está aumentando. Na verdade, a gente tem um ato neste sábado na Maré, às 16h, relembrando os cinco anos da morte do Matheus, um menino de oito anos que levou um tiro na cabeça quando estava indo comprar pão. Ele morreu na frente de casa com uma moeda de um real na mão, e foi confundido com um traficante", declarou.

"No domingo, a gente tem dois atos em Ipanema pela questão dos arrastões e do ônibus, e depois todo mundo se junta no Copacabana Palace. A gente vai ter ato praticamente todo dia", completou.

Em relação a 2014, Sininho afirmou esperar que há "três grandes pontos que chamam a atenção": o aumento das passagens, em especial do metro e do ônibus, que pode ocorrer já em janeiro; a Copa do Mundo, realizada entre os meses de junho e julho; e as eleições, realizadas tradicionalmente no mês de outubro.

116 presos desde junho

Segundo balanço da Polícia Civil do Rio, pelo menos 116 pessoas foram presas e indiciadas por crimes supostamente cometidos durante manifestações desde o dia 10 de junho. No mesmo período, 20 menores foram apreendidos.

No ato do dia 15 de outubro, quando ocorreram 64 prisões, a Polícia Militar deteve a maioria com base na recente Lei Sobre Organizações Criminosas, que prevê penas de três a oito anos de prisão. Essa foi a primeira vez que a PM fez uso desse instrumento legal.

Na ocasião, foram utilizados vários ônibus da Polícia Militar para distribuir os jovens detidos por delegacias de diferentes bairros. Eles foram autuados por crimes como formação de quadrilha, dano ao patrimônio público, incêndio e corrupção de menores.

Para o advogado da ONG Justiça Global Eduardo Baker, que atuou nos protestos defendendo manifestantes que eram conduzidos ao distrito policial, a prisão em massa de pessoas que participavam do ato do dia 15 de outubro foi "arbitrária".

"Tivemos sorte que uma parte desses inquéritos caiu na mão de um juiz com mais sensibilidade, que mandou arquivar a maioria dos casos", disse Baker.

Cotidiano