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Rolezinho é a ocupação de um templo de consumo, diz antropóloga

Arquivo Pessoal
Rosana Pinheiro-Machado é antropóloga e professora da Universidade de Oxford, na Inglaterra Imagem: Arquivo Pessoal

Marcelle Souza

Do UOL, em São Paulo

2014-01-18T05:49:00

18/01/2014 05h49

Para a antropóloga e professora da Universidade de Oxford, na Inglaterra, Rosana Pinheiro-Machado, fechar os shoppings para os “rolezinhos” é apartheid - ela faz referência ao regime de segregação racial adotado na África do Sul na segunda metade do século 20. “No fundo, o que se teme é ver o que antes não se via: a periferia negra, a pobreza e a desigualdade”, afirma.

Ela pesquisa, ao lado da também antropóloga Lucia Scalco, o consumo de jovens da periferia brasileira. “Nosso trabalho consiste em acompanhar a ida (extraordinária) aos shoppings e a vida (ordinária) no morro”, explica.

Leia a seguir a entrevista da pesquisadora sobre os "rolezinhos" em shoopings de São Paulo:

UOL - Na sua opinião, por que os shoppings foram escolhidos para os “rolezinhos”?
Rosana Pinheiro-Machado - É a ocupação de um templo do consumo. O objetivo é justamente o consumo. Tudo começou como distração e diversão: se arrumar, sair, se vestir bem. Existe toda uma relação com as marcas e com o consumo, num processo de afirmação social e apropriação de espaços urbanos. Ir ao shopping é se integrar, pertencer à sociedade de consumo.

UOL - Como você explicaria o medo entre lojistas, frequentadores e donos de shoppings?
Pinheiro-Machado -  Uma resposta simplista seria dizer que é o medo do assalto, embora não esteja ocorrendo, e a sensação de arrastão. Mas a verdade é que os lojistas e frequentadores se sentem ameaçados. O shopping sempre foi uma redoma, um lugar das elites e das camadas médias. De repente, essa paz e essa fronteira foram abaladas e no fundo se teme ver o que antes não se via: a periferia negra, a pobreza e a desigualdade.

UOL - A proibição dos rolezinhos estaria correta? O que a atitude dos administradores de shoppings representa?
Pinheiro-Machado - Completamente errada. Eles são potenciais consumidores? Como estabelecer critérios que não sejam preconceituosos? Não se pode negar o direito de ir e vir. Eu duvido que, se diversos jovens das elites brancas marcassem encontro, algum shopping ia proibir. Isso é apartheid.

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  • Bruno Poletti/Folhapress

UOL - O que você acha do posicionamento da PM?
Pinheiro-Machado - É um absurdo, como sempre. Não é correta quando usa a força policial e a violência para agir contra os mais fracos. É sempre assim. A única vez que a classe média tomou pau da polícia foi em junho de 2013. Pela primeira vez sentiu na pele o que sempre foi comum na periferia. Não se pode agir com brutalidade. Trata-se de um movimento social que deve ser tratado com cautela. De modo geral, existe um rancor não apenas da policia, mas de grande parte da sociedade brasileira, segundo tenho acompanhado em milhares de comentários, que pedem agressão contra esses jovens considerados vagabundos. É uma apologia à violência.

UOL - Os “rolezinhos” podem acabar em arrastões e violência?
Pinheiro-Machado - Não. Acredito no oposto: que esse rolezinhos estão se politizando por causa da reação e serão cada vez mais políticos como forma de protesto e ocupação de espaço.  E não assalto. Esses jovens da periferia sempre foram a shoppings e nunca assaltaram. Não tem por que fantasiar, isso é medo fantasioso. Os assaltos ocorrem noutros lugares.

UOL - Grupos de calouros e veteranos da FEA-USP fazem um ato no shopping Eldorado todos os anos como parte da recepção aos calouros. A senhora vê alguma semelhança entre os "rolezinhos" e esses trotes universitários? E quais são as principais diferenças?
Pinheiro-Machado - Acho que, de um lado, você tem as camadas médias que ninguém teme. E ninguém pensa em assalto e nem tanto na tal desordem. O rolezinho é outra coisa, é uma continuidade dos passeios de grupos juvenis da periferia que vão cantar e namorar no shopping. Coisa de meninada. Mas tomou uma grande dimensão. E, por isso, acaba se tornando outra coisa, um movimento mais politizado, um protesto contra a exclusão e o preconceito. São movimentos parecidos no sentido de que se trata de um agrupamento jovem e ritualístico -- de um lado, é admirado, e, no outro, temido.