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Sem ônibus, mulheres pegam carona com supervisor para trabalhar no Rio

Miriã Costa (esquerda) e Shirley Fernandes da Silva ficaram uma hora e meia esperando ônibus na Central do Brasil, no centro do Rio - Gustavo Maia/UOL
Miriã Costa (esquerda) e Shirley Fernandes da Silva ficaram uma hora e meia esperando ônibus na Central do Brasil, no centro do Rio Imagem: Gustavo Maia/UOL

Carolina Mazzi, Gustavo Maia e Maria Luísa

Do UOL, no Rio

28/05/2014 08h37Atualizada em 28/05/2014 10h09

Sem dificuldades para encontrar ônibus ao saírem de casa na madrugada desta quarta-feira (28), em Marcílio Pires e na Mangueira, na zona norte do Rio de Janeiro, quando os motoristas e cobradores de ônibus da cidade fazem uma paralisação de 24 horas, as auxiliares de serviços gerais Miriã Costa, 30, e Shirley Fernandes da Silva, 41, chegaram como de costume às 5h na Central do Brasil, de onde pegariam outro coletivo para a empresa em que ambas trabalham, no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste da cidade.

Após uma hora de espera sem sinal dos ônibus das linhas 314 e 315, únicos que serviriam a elas, Miriã ligou para o supervisor informando que as duas não tinham como chegar ao trabalho. Ele disse iria buscá-las de carro e se comprometeu também a levá-las para casa, ao fim do expediente.

“Só não estou vendo passar os nossos ônibus. Os outros estão até com menor frequência, mas estão passando”, afirmou Shirley. “Nas paralisações das últimas semanas, eu perdi três dias de trabalho porque não consegui pegar ônibus. Eles tiveram que entender. Em um desses dias, tinha uma van cobrando R$ 40, mas eu não tenho condições de pagar isso pra ir trabalhar”, lembrou Miriã. Até as 6h30, quando chegou a carona, os ônibus não haviam passado.

Às 6h50, o operador técnico em automação Pedro Gomes, 37, já esperava um ônibus para voltar para casa, em Ricardo de Albuquerque, na zona norte da capital fluminense, havia 50 minutos. “Eu trabalho das 18h às 6h, aqui no Centro. Quando eu fui pro trabalho ontem (terça-feira), não sabia que ia ter essa greve. Agora eu estou cansado, doido pra voltar pra casa e não tem meu ônibus”, declarou Pedro.

Segundo ele, a estação de trem situada no bairro fica muito longe da sua casa, por isso ele prefere esperar ônibus. “Com essa chuva, fica complicado andar da estação pra casa, mas se não aparecer ônibus, vai ser o jeito”, disse.

Para a vendedora Suzyanne dos Santos, 21, que trabalha no terminal de ônibus da Central, na avenida Presidente Vargas, o fluxo de ônibus nesta quarta é muito maior que o das últimas paralisações. “Só vi que não estão passando algumas poucas linhas. A situação está até tranquila pra um dia de greve”, comentou.

Zona oeste

Em Campo Grande, na zona oeste, apesar da maior movimentação de ônibus se comparado às outras duas paralisações, o tempo de espera para as linhas que levam até o centro da cidade chega a uma hora e meia, três vezes mais do que o normal. Com medo de represálias, motoristas, cobradores e fiscais trabalham sem uniforme. A linha 398 foi uma das mais prejudicadas. Já os ônibus do BRT Transoeste funcionam normalmente na Rodoviária de Campo Grande.

"Com os motoristas em menor número, não tem jeito. O passageiro tem que esperar mesmo. E não tem van direto para o centro”, explicou um fiscal da empresa Pégaso. “Nem todo mundo tá disposto a desembolsar duas passagens, porque van não aceita Bilhete Único." 

Auxiliar administrativa, Rafaela de Carvalho, 27, reclama que o trajeto até o centro fica ainda mais cansativo em dia de paralisação. “Imagina esperar mais de uma hora até um ônibus aparecer? Ninguém merece, mas pelo menos dessa vez tem alguns ônibus na rua. Nas outras três paralisações eu não tive como trabalhar”, contou. “O jeito é esperar.” 

Sem uniforme, o rodoviário Henrique da Silva, 44, diz que não houve casos de pedradas nos veículos que foram para as ruas durante a paralisação, diferentemente das anteriores.

“Estamos sem uniforme por medo, claro. Mas até agora nenhum ônibus da redondeza foi apedrejado. Apesar de concordar com as reivindicações, preferi trabalhar para não ser descontado”, afirmou.

Zona norte

A circulação de ônibus era normal no bairro de São Cristóvão, um dos mais movimentados da zona norte. Por volta das 7h, quem saía da estação de trem e de metrô enfrentava espera de cerca de meia hora para conseguir pegar os ônibus, o que é considerado pelos passageiros como normal para o horário. 

“Está tudo normal, precário como sempre. O trem está lotado e atrasado, a linha do 463, que eu pego todo dia, sempre demora. Hoje tá um pouquinho mais, mas é sempre essa fila aí”, reclamou a atendente Lia Braga, em um dos pontos em que chegam as linhas em direção ao centro e à zona sul da cidade, onde trabalha. “Tem dias que está até maior.” 

De acordo com uma fiscal que trabalha no mesmo ponto, apenas seis veículos funcionavam na linha do 463 (o normal é 15) e dois faziam o trajeto do 462 (o normal são 14). Ainda assim, os passageiros que esperavam as conduções não notaram quaisquer diferenças. “Saí de Japeri e estou esperando o ônibus para o Humaitá. Até pensei em sair de casa antes, mas desisti. Vou chegar no horário de sempre”, afirmou a atendente Michelle Cristina. “Estou até achando o ponto mais vazio.” 

A movimentação de ônibus em direção a outros bairros da zona norte também estava com fluxo normal, de acordo com os passageiros. A recepcionista Nayara Esteves não precisou esperar nem cinco minutos para que o seu ônibus, da linha 460, chegasse. “É assim todo dia, ele vem de cinco em cinco minutos, no máximo. Hoje está igual o de sempre”, comentou.

Sob forte chuva, ônibus, trens e metrôs estavam lotados, mas os passageiros diziam que essa é a rotina diária. “É assim o ano todo, com ou sem greve”, reclamava a babá Rosemary Bráz, enquanto aguardava ônibus para a Lagoa, na zona sul.

Pouca adesão

A paralisação teve baixa adesão nesta quinta-feira. Segundo estimativa do secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, cerca de 80% dos ônibus circulam pela capital fluminense.

Em São Cristóvão, na zona norte, quem saía da estação de trem e de metrô  enfrentava espera de cerca de meia hora, por volta das 7h, para conseguir pegar os ônibus, o que é considerado pelos passageiros como normal para o horário.

O Rio Ônibus, sindicato que representa as empresas de ônibus na cidade, também estima que os ônibus circulam em "grande quantidade" nesta manhã, mas não forneceu um número exato. Não houve registro de depredações ou conflitos com os grevistas.

Os rodoviários decidiram parar pela terceira vez em menos de um mês após audiência no TRT (Tribunal Regional do Trabalho), na qual não entraram em acordo com as empresas de ônibus. Eles reivindicam aumento salarial de 40% (e não os 10% acordados entre o sindicato da categoria e as empresas de ônibus), o fim da dupla função e reajuste no valor da cesta básica –de R$ 150 para R$ 400.

Em comunicado ainda antes da decisão, o Sintraturb Rio (Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus do Rio de Janeiro) se posicionou contra o movimento, que ocorre à revelia dos líderes sindicais. De acordo com o documento, a movimentação "mostra somente o desespero e a falta de sensibilidade dos dissidentes que tiveram sua proposta de 40% de reajuste rejeitada".

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