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Florianópolis tomba campo de aviação para criar parque inspirado em Exupéry

Renan Antunes de Oliveira

Do UOL, em Florianópolis

2014-11-29T06:00:00

29/11/2014 06h00

A Prefeitura de Florianópolis tombou um antigo campo de aviação na praia do Campeche, em Santa Catarina, para construir um parque inspirado no escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro “O Pequeno Príncipe”. Na década de 1930, como um dos pioneiros da aviação e antes da fama literária, ele fez escalas várias vezes na praia, onde se tornou conhecido pelos pescadores como “Zé Perri”.

A área equivale a 20 campos de futebol. Fica a 500 metros de um mar superlimpo, num dos pontos mais valorizados da capital catarinense, cercada por condomínios de luxo e pela antiga vila de pescadores.

O terreno foi comprado em 1927 pela companhia aérea francesa Latécoère, onde foi construído gramado com mudas trazidas da França. A pista servia de escala para voos dos correios na rota da Europa para Buenos Aires. Exupéry era um dos pilotos da companhia. 

A passagem de Exupéry é cultuada pelos moradores. O velho casarão que abrigou a administração da Latécoère foi preservado. Hoje, abriga a subprefeitura, um lava-carros e um clube de idosos. Uma placa na parede indica o quarto onde o escritor teria dormido durante suas paradas no aeroporto. O velho hangar foi demolido e virou uma escola municipal.

Toda a mística do local gira em torno das visitas de Exupéry. Não há fotos dele no Campeche, apenas relatos de pescadores.  A biografia oficial do francês não registra suas passagens por Santa Catarina naqueles anos 1930. Exupéry só alcançou fama universal nos anos 1940, depois da publicação do "Pequeno Príncipe": é o terceiro livro mais vendido do mundo, com 146 milhões de cópias em 250 idiomas.

O pessoal da Latécoère escolheu mal o lugar. Os ventos fortes tornavam difíceis os voos na região. O aeroporto foi encampado pela União em 1943 e transferido para onde hoje está o Hercílio Luz. A Latécoère virou Aéropostale e agora é a Air France.

O guardião da memória de Exupéry no local é o tenente reformado da Aeronáutica Getúlio Manoel Inácio, 63, filho do lendário Deca, pescador que teria sido amigo do escritor.

O pai contava que pescava corvinas com ele, nos costões do sul da ilha de Santa Catarina. Celebrizado pela amizade, Deca deixou registrado que “nós comemos muita corvina ensopada,  com biju” --uma rosca de farinha de mandioca feita no engenho da família.

O escritor teve tempo de participar do casamento de Deca com dona Chica e até assistir ao nascimento de alguns dos filhos do pescador -- foram 21, que lhe renderam 103 netos e 68 bisnetos, conta feita pela revista "Veja" em março de 1991. De lá para cá, a família parou de contar os descendentes.

Exupéry desapareceu no mar durante uma missão de reconhecimento sobre o Atlântico, em 1944, quase ao final da Segunda Guerra.  O avião, sem o corpo, foi encontrado em 2004. Já Deca morreu de causas naturais, aos 83 anos, em 1994.

Foi Deca quem transformou Exupéry em “Zé Perri”. Uma sobrinha-neta do francês visitou Florianópolis depois da morte de Deca e as duas famílias trocaram homenagens. 

Inácio tem um armário cheio lembranças daqueles tempos, entre fotos, documentos e até peças de um motor de avião. Entre elas, um disco em vinil com a voz do escritor.

Exupéry nunca escreveu sobre a capital catarinense. Suas obras "Correio do Sul" e "Voo Noturno" relatam experiências como piloto na África. "O Pequeno Príncipe" é dedicado a um amigo francês.

Os moradores querem dedicar seu novo parque a Exupéry, embora a prefeitura, nos ofícios, chame o lugar de Pacuca, sigla derivada de Parque Cultural do Campeche.

Getúlio Inácio reclama que a área tombada “poderia ser maior, porque o local tem 300 mil, conseguiram dar uma encurtada nele”. O espaço atual tem 114 mil m². As bordas do parque foram invadidas, os córregos drenados, mas os moradores sempre mantiveram vigília sobre o velho aeroporto, até o tombamento.

A grama dos franceses se revelou ótima para futebol. Por décadas, o lugar foi um "point" de peladeiros de final de semana. Durante a ditadura militar (1964-1985), os sentinelas da Aeronáutica costumavam expulsar os jogadores, provocando algumas brigas.

A cessão definitiva do terreno à prefeitura foi feita na semana passada em acordo na Vara Ambiental de Florianópolis, entre Ministério Público Federal, Secretaria de Patrimônio da União e prefeitura, com a condição de destinação exclusiva para parque público.

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