Alvo de disputa, parque Augusta é oásis preservado de mata atlântica em SP

Do UOL, em São Paulo

  • Fabio Braga/Folhapress

    Encravado no centro, terreno do parque Augusta tem 25 mil metros quadrados

    Encravado no centro, terreno do parque Augusta tem 25 mil metros quadrados

Motivo de uma disputa que envolve prefeitura e construtoras, o terreno do parque Augusta é um oásis no centro de São Paulo. Trata-se de uma das poucas áreas verdes da região e conta com espécies nativas de mata atlântica que sobreviveram a séculos de expansão urbana.

Em 2004, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) decidiu pelo tombamento [preservação] das edificações do antigo colégio Des Oiseaux, que ocupou o terreno por 60 anos no século passado, e do conjunto de árvores do bosque, além de espécies espalhadas pelo terreno.

Em levantamento feito em 2013, o mestre em botânica pela USP Ricardo Cardim mapeou espécies nativas como cereja-do-rio-grande, cedro-rosa, embaúba, figueira, jacarandá, jeribá e pitangueira. O terreno também conta com árvores como macaúba, jambolão, abacateiro, goiabeira, jaqueira e jambeiro.

O bosque ocupa cerca de 40% do terreno de 25 mil metros quadrados. Sua preservação se deve em parte ao colégio Des Oiseaux, mantido pelas Cônegas de Santo Agostinho. A instituição ocupou o palacete Uchoa, construído no terreno pela família de mesmo nome em 1902.

O palacete, um projeto do arquiteto francês Victor Dubugras, foi ampliado, e o colégio ali funcionou de 1907 a 1967. Tratava-se de uma escola feminina. A ex-primeira dama Ruth Cardoso (1930-2008) e a senadora Marta Suplicy (PT-SP) foram alunas da instituição.

O fracasso de projetos elaborados nas décadas seguintes também contribuiu para que o local não passasse por grandes mudanças. Situado em uma das mais famosas ruas da cidade de São Paulo, a Augusta, na quadra entre a Caio Prado e a Marques de Paranaguá, o terreno atraiu nos últimos 45 anos vários interessados em erguer empreendimentos na região.

Na década de 1970, já sem o colégio, antigos donos encomendaram projetos para a construção de hotéis no terreno. Nenhum deles foi adiante.

Nos anos 80, o terreno virou o palco do Projeto SP, que promoveu shows de rock, mas debaixo de uma lona de circo ali erguida temporariamente. Outro projeto cultural chegou a ser cogitado para o terreno: ele poderia ter abrigado o Museu da Música Popular Brasileira.

Luta pelo parque

O ex-banqueiro Armando Conde comprou o terreno em 1996. Ele chegou a anunciar a construção de um hipermercado e, posteriormente, de três prédios comerciais, mas enfrentou a oposição da vizinhança. Em 2006, moradores do entorno fizeram um abaixo-assinado contra a construção do hipermercado e promoveram o "abraço" do terreno, cujo tombamento já estava em vigor.

Em 2008, a prefeitura decretou a utilidade pública do terreno, e o Conpresp aprovou a construção de dois prédios que ocupariam 20% do terreno. Mais uma vez, os projetos de edificação não tiveram êxito.

Cinco anos depois, teve início a fase atual de disputas. As construtoras Setin e Cyrela se uniram para comprar o terreno e elaborar um projeto de construção de edifícios de uso residencial e comercial na área. Ao mesmo tempo, o movimento popular em defesa do parque se fortaleceu, principalmente em virtude da escassez de áreas verdes no centro.

No fim de 2013, a prefeitura decretou a criação do parque, mas logo depois informou que não teria verbas para fazer a desapropriação -- o terreno valeria atualmente cerca de R$ 120 milhões.

Em maio do ano passado, Setin e Cyrela decidiram rever os planos de abrir à população 80% do terreno e construir duas torres com cem metros de altura na área restante. Em vez disso, diante de uma restrição imposta pelo tombamento, as construtoras passaram a prever que apenas 60% do parque seja aberto ao público e que três prédios com até 45 metros de altura sejam construídos no local.

Há dez dias, um novo capítulo da batalha teve início. O movimento que defende a criação do parque na totalidade do terreno ocupou a área, alegando que a escritura prevê a abertura de uma ligação entre o bosque e a rua. A passagem estava bloqueada desde o fim de 2013.

As construtoras recorreram à Justiça e conseguiram um mandado de reintegração de posse no ultimo dia 21, mas o terreno permanece ocupado por ativistas que são contra o projeto das empresas.

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