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Alvo de disputa, parque Augusta é oásis preservado de mata atlântica em SP

Fabio Braga/Folhapress
Encravado no centro, terreno do parque Augusta tem 25 mil metros quadrados Imagem: Fabio Braga/Folhapress

Do UOL, em São Paulo

27/01/2015 13h00

Motivo de uma disputa que envolve prefeitura e construtoras, o terreno do parque Augusta é um oásis no centro de São Paulo. Trata-se de uma das poucas áreas verdes da região e conta com espécies nativas de mata atlântica que sobreviveram a séculos de expansão urbana.

Em 2004, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) decidiu pelo tombamento [preservação] das edificações do antigo colégio Des Oiseaux, que ocupou o terreno por 60 anos no século passado, e do conjunto de árvores do bosque, além de espécies espalhadas pelo terreno.

Em levantamento feito em 2013, o mestre em botânica pela USP Ricardo Cardim mapeou espécies nativas como cereja-do-rio-grande, cedro-rosa, embaúba, figueira, jacarandá, jeribá e pitangueira. O terreno também conta com árvores como macaúba, jambolão, abacateiro, goiabeira, jaqueira e jambeiro.

O bosque ocupa cerca de 40% do terreno de 25 mil metros quadrados. Sua preservação se deve em parte ao colégio Des Oiseaux, mantido pelas Cônegas de Santo Agostinho. A instituição ocupou o palacete Uchoa, construído no terreno pela família de mesmo nome em 1902.

O palacete, um projeto do arquiteto francês Victor Dubugras, foi ampliado, e o colégio ali funcionou de 1907 a 1967. Tratava-se de uma escola feminina. A ex-primeira dama Ruth Cardoso (1930-2008) e a senadora Marta Suplicy (PT-SP) foram alunas da instituição.

O fracasso de projetos elaborados nas décadas seguintes também contribuiu para que o local não passasse por grandes mudanças. Situado em uma das mais famosas ruas da cidade de São Paulo, a Augusta, na quadra entre a Caio Prado e a Marques de Paranaguá, o terreno atraiu nos últimos 45 anos vários interessados em erguer empreendimentos na região.

Na década de 1970, já sem o colégio, antigos donos encomendaram projetos para a construção de hotéis no terreno. Nenhum deles foi adiante.

Nos anos 80, o terreno virou o palco do Projeto SP, que promoveu shows de rock, mas debaixo de uma lona de circo ali erguida temporariamente. Outro projeto cultural chegou a ser cogitado para o terreno: ele poderia ter abrigado o Museu da Música Popular Brasileira.

Luta pelo parque

O ex-banqueiro Armando Conde comprou o terreno em 1996. Ele chegou a anunciar a construção de um hipermercado e, posteriormente, de três prédios comerciais, mas enfrentou a oposição da vizinhança. Em 2006, moradores do entorno fizeram um abaixo-assinado contra a construção do hipermercado e promoveram o “abraço” do terreno, cujo tombamento já estava em vigor.

Em 2008, a prefeitura decretou a utilidade pública do terreno, e o Conpresp aprovou a construção de dois prédios que ocupariam 20% do terreno. Mais uma vez, os projetos de edificação não tiveram êxito.

Cinco anos depois, teve início a fase atual de disputas. As construtoras Setin e Cyrela se uniram para comprar o terreno e elaborar um projeto de construção de edifícios de uso residencial e comercial na área. Ao mesmo tempo, o movimento popular em defesa do parque se fortaleceu, principalmente em virtude da escassez de áreas verdes no centro.

No fim de 2013, a prefeitura decretou a criação do parque, mas logo depois informou que não teria verbas para fazer a desapropriação -- o terreno valeria atualmente cerca de R$ 120 milhões.

Em maio do ano passado, Setin e Cyrela decidiram rever os planos de abrir à população 80% do terreno e construir duas torres com cem metros de altura na área restante. Em vez disso, diante de uma restrição imposta pelo tombamento, as construtoras passaram a prever que apenas 60% do parque seja aberto ao público e que três prédios com até 45 metros de altura sejam construídos no local.

Há dez dias, um novo capítulo da batalha teve início. O movimento que defende a criação do parque na totalidade do terreno ocupou a área, alegando que a escritura prevê a abertura de uma ligação entre o bosque e a rua. A passagem estava bloqueada desde o fim de 2013.

As construtoras recorreram à Justiça e conseguiram um mandado de reintegração de posse no ultimo dia 21, mas o terreno permanece ocupado por ativistas que são contra o projeto das empresas.