Em 4 anos, teleférico do Alemão fracassa para o turismo e para o transporte

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

O teleférico do Complexo do Alemão, que possui seis estações entre a comunidade da Fazendinha, em Inhaúma, e o bairro de Bonsucesso, na zona norte do Rio de Janeiro, completará quatro anos de sua inauguração na próxima terça-feira (7). O sistema foi concebido como um ícone do projeto das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) nas favelas cariocas. Hoje, porém, é visto com desinteresse pela empresa que o opera, a Supervia, e pela população local.

Na última terça-feira (30 de junho), a reportagem do UOL percorreu as seis estações e observou que, embora o serviço não esteja sucateado, existe um visível processo de desmobilização. Há poucos funcionários, exceto pela estação-base de Bonsucesso --a única em que ainda há cobrança de tarifa. A liberação das catracas foi determinada pelo governo do Estado como incentivo ao uso do sistema. Mas a medida não fez o teleférico decolar. Até maio de 2014, cerca de 12 mil pessoas utilizavam o serviço diariamente. Neste ano, a média é de aproximadamente 9.000.

Além disso, o turismo na região também não emplacou após a tomada do território por parte das forças policiais --operação que ocorreu com o apoio de tanques do Exército e militares das Forças Armadas, em 2010. Apesar das UPPs e da criação de uma delegacia específica para o conjunto de favelas, traficantes de drogas continuam controlando bocas de fumo e travando confrontos. Os tiroteios são constantes, relatam moradores. Dois casos foram emblemáticos: as mortes do capitão Uanderson Manoel da Silva, ex-comandante da UPP Nova Brasília, e do menino Eduardo de Jesus Ferreira, 10.

"A gente criou uma expectativa que não se concretizou. Quem se sente seguro, hoje, para vir andar de teleférico no Alemão? Vai que uma bala acerta lá em cima e você fica pendurado. O turista certamente pensa nisso", afirmou um ativista cultural, que preferiu não se identificar. "A sensação era de que o interesse pela favela ia crescer depois da novela [referência a "Salve Jorge", da "TV Globo"] e de todo o alarde feito pelo governo", afirmou o comerciante José Gomes. "Pois é, estamos esperando até hoje", ironizou.

Desmobilização

O processo de desmobilização do teleférico do Alemão ocorre porque o contrato com a Supervia está próximo do fim. Com isso, o sistema parou de funcionar aos domingos e chegou a operar em horário reduzido: de segunda a sexta, de 6h a 21h, para 8h a 20h, e aos sábados, de 9h a 18h, para 10h a 18h. A mudança prejudicava não só os trabalhadores que saem cedo de casa, mas também as agências de turismo que, mesmo com o cenário adverso, tentam promover a divulgação das favelas do Complexo do Alemão.

Após dois meses de críticas e reclamações, representantes da empresa e da Secretaria de Estado de Transportes fizeram uma reunião, na qual foi acertada a renovação pontual do contrato entre as partes. Com isso, o horário normal de funcionamento foi retomado na última segunda-feira (29). Aos domingos, no entanto, o teleférico continua parado. A tarifa custa R$ 1 para quem utiliza RioCard, Bilhete Único, Vale-Transporte ou Cartão Expresso. Já quem compra a passagem diretamente na bilheteria paga R$ 5.

Licitação: quatro anos, um edital e nenhuma definição

Sem licitação, a Supervia foi contratada, em 2011, para operar o teleférico do Alemão, obra que consumiu mais de R$ 200 milhões dos cofres do governo federal e foi objeto de muita propaganda. Na ocasião, tratava-se de um acordo em caráter experimental, o que motivou a dispensa do certame. A escolha se deu porque a empresa detém a concessão do transporte ferroviário no Estado, o que facilitaria, em tese, um modelo de integração --a estação-base do teleférico, em Bonsucesso, também é uma estação de trem.

Em quatro anos, período no qual o governo do Estado não conseguiu concluir o processo de licitação para conferir ao sistema uma gestão definitiva, houve cinco prorrogações de contrato com a Supervia. O último se encerraria na terça-feira, mas foi renovado por mais dois meses. A condição era de que o horário normal de funcionamento fosse retomado.

"A Supervia está no fim de um ciclo. Conseguimos voltar ao horário de 6h e ajustamos o horário de sábado, o que era muito importante. Mas o teleférico não está funcionando aos domingos por conta dessa fase de desmobilização. Nós temos hoje um contrato tampão de dois meses", explicou o secretário de Estado de Transportes, Carlos Roberto Osório.

Até maio do ano passado, a empresa havia obtido lucro de 13,27 milhões em quatro anos de serviço. Os custos operacionais e de manutenção dos equipamentos são repassados pelo Estado, que gastou, no mesmo período, cerca de R$ 113,7 milhões para cobrir essas despesas --o ressarcimento é feito de forma integral.

A crise financeira vivida pelo Estado também contribui para a falta de interesse da empresa, que informou não ter a intenção de participar da licitação, prevista para ocorrer, enfim, no dia 21 de julho. Segundo Osório, o governo estadual tem débitos com a Supervia no repasse dos meses de dezembro de 2015 e abril deste ano. Há um acordo entre as partes para que os pagamentos sejam feitos em seis parcelas.

O UOL solicitou entrevista com os diretores da Supervia, mas o pedido foi negado. Dessa forma, a reportagem encaminhou por e-mail mais de dez perguntas sobre o tema. A empresa, porém, pronunciou-se apenas por meio de nota oficial enviada por sua assessoria, sem responder aos questionamentos da reportagem.

A Supervia informou que "seguirá com o cumprimento de suas atividades até o fim do contrato" e que, "durante estes quatro anos, manteve a eficiência operacional do sistema em 99%, o que contribuiu para que o teleférico se tornasse referência de logística em transporte no Rio de Janeiro e no Brasil, colaborando para a inserção e transformação social do Complexo do Alemão".

Transporte deficitário

Osório disse ainda que o teleférico é "altamente deficitário", pois os custos de operação e manutenção são muito maiores do que o seu potencial de receita. "A arrecadação é muito pequena, principalmente pela modelagem definida pelo Estado: o morador tem direito a duas passagens gratuitas. (...) É um meio de transporte altissimamente subsidiado pelo Estado", explicou ele.

O secretário declarou acreditar que o teleférico "tem um valor importante por ser um grande investimento social e de mobilidade", mas que nunca houve ilusão de que haveria sustentabilidade econômica a partir de suas receitas. "Se a gente fosse pensar em lucro de bilheteria, precisaria ocorrer uma mudança estrutural no modelo. (...) Eu diria que a receita do teleférico cobre apenas 10% de seu custo total", afirmou.

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