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Só no frio: moradores de rua explicam por que vão ou não aos abrigos de SP

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

17/06/2016 06h00

Há pessoas que preferem enfrentar as gélidas noites paulistanas na rua a buscar acolhimento nos abrigos municipais. As razões para tal atitude, mesmo em meio a uma onda de frio que assola São Paulo, são várias: de inadequação às regras dos albergues a condições supostamente insalubres de alguns desses locais. 

Mesmo quem busca uma vaga tem reclamações a fazer sobre os abrigos municipais: eles dizem que os banheiros e as roupas de cama estão em más condições e se queixam de tratamento desrespeitoso por parte de alguns funcionários.

Em meio a isso, cinco moradores de rua foram encontrados mortos nos últimos dias. Para a Pastoral do Povo de Rua, da Igreja Católica, há uma relação direta entre as mortes e a queda brusca de temperatura na capital paulista.

As ocorrências motivaram a abertura de uma investigação da Promotoria de Direitos Humanos, que apura se houve omissão por parte da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT). Estimularam também um aumento na demanda por uma cama nos abrigos municipais que acolhem pessoas em situação de rua, apesar da rejeição de alguns.

Nos últimos dois dias, o UOL ouviu moradores de rua em vários pontos da capital paulista. Eles explicam suas razões para buscar ou não um lugar nos abrigos paulistanos. (leia mais abaixo).

Procurada, a Prefeitura de São Paulo informou que os casos citados pela reportagem "serão apurados e se, constatada irregularidade, a secretaria tomará as devidas providências junto à entidade parceira".

A prefeitura afirma ainda que oferece 11.517 vagas de acolhimento em 79 centros de acolhida e 13 abrigos emergenciais. Nos últimos dias, foram abrigadas cerca de 11 mil pessoas; desde o dia 15 de maio, a soma supera os 250 mil acolhimentos. (Leia a nota na íntegra aqui)

POR QUE NÃO VOU AO ABRIGO MUNICIPAL

Chris "Priscila", 42 anos - "Parece um quartel"

Reinaldo Canato/UOL
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

"Não gosto de dormir em abrigo, é tudo muito certinho, parece um quartel. E tem outra coisa: aquelas camas tudo juntinhas uma da outra me incomoda bastante. Não gosto de dormir com gente estranha ao meu lado, a gente nunca sabe o que se passa na cabeça, se vão querer fazer alguma coisa. Como é que vou tomar banho com gente que não conheço perto de mim?

E tem a Menina Bonita, minha cachorra. Nem todo abrigo aceita que a gente leve. Teve um que aceitou, mas ficava perto da Cracolândia e eu não quero voltar para aquele ambiente.

Estou há tanto tempo na rua que não sei mais dizer quantos anos. Eu saí de casa aos 18 anos. Já me casei quatro vezes. Meu último marido foi assassinado a facadas aqui no centro. Ele me protegia, cuidava de mim. Outro dia, tive cinco convulsões em um dia só, tem menos de uma semana. Caí e machuquei a boca. Tenho dois filhos, mas não quero que eles vejam a situação que estou. Nesta semana que foi muito fria, roubaram uma das minha mantas. Se você vive na rua tem sempre que ficar de olho."

João Vitor Gomes, 19 - "Eles não respeitam as regras"

Reinaldo Canato/UOL
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

"Eu até iria, mas o problema é que não tem vaga. A gente liga para o pessoal dos abrigos, dizendo onde está, eles respondem dizendo que vão buscar e nunca aparecem. Fiquei em uma fila desde as 13h no abrigo Arsenal da Esperança (no bairro da Mooca), e eles me disseram que só tinha cinco senhas para gente que não era cadastrada. 

O maior problema nos abrigos é que eles colocam regras e eles mesmo não a respeitam. Os funcionários gostam de tirar uma de nós, gostam de tratar como se tudo fosse ladrão, vagabundo. Eu não sou.

Eu sou de Piracicaba, passei por Santos, e cheguei a São Paulo para trabalhar. Tenho uma filha pequena, e a mãe só vai deixar vê-la se eu ajudar com a pensão. Por isso que deixei de usar drogas, de beber. Não quero passar minha vida na cadeia igual ao meu pai. Não quero que minha filha tenha a infância que eu tive.

Então estou atrás de emprego, mas como vou conseguir se eu não tenho como deixar minhas coisas, minha mala? Os abrigos acolhem a gente por dois ou três dias, não nos ajudam a procurar emprego, e depois colocam a gente para fora." 

Érica Amorim, 20 - "Albergue fica longe"

Reinaldo Canato/UOL
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

"Nos albergues, eles obrigam a gente a levantar muito cedo. Eles nos acordam às 6h e mandam a gente embora. Às vezes, a gente não tem para onde ir porque o albergue fica longe. Não temos dinheiro para o ônibus.

Outra coisa que eu não gosto é que os funcionários nos tratam como se a gente fosse inferior. Não são todos, mas tem uns que não demonstram respeito pela gente, e eu não admito ser maltratada. Estou há seis anos na rua, desde que meu pai morreu. Não dá para conviver com minha mãe, no Capão Redondo. Ela é muito mandona, autoritária. Eu sei que ela fala para meu bem, mas eu prefiro minha liberdade.

Esta semana tem sido difícil de aguentar com todo esse frio, mas a gente vai se virando. Hoje mesmo apareceu umas pessoas para ajudar, me deram um cobertor. Eu sei que minha vida vai melhorar, que eu vou sair dessa. Eu sinto."

Gleimárcio Nunes da Silva, 33 - "Há panelinhas"

Reinaldo Canato/UOL
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

"No albergue é meio molhado. Você tem que se acertar com as panelinhas do pessoal mais antigo, às vezes eles pedem para levar drogas para dentro. Tem outros que jogam mandinga na gente, ou gostam de bater. Eu prefiro dormir na rua, aqui na Sé. Quando chega a meia-noite, eu durmo numa caixa perto da grade do metrô. Ninguém me incomoda. Prefiro ficar no frio.

Eu sou operador de máquina, preciso tirar um curso de qualificação, mas todo mundo pede comprovante de residência. Eu queria ter direito ao Bolsa Aluguel porque eu poderia alugar um quartinho e finalmente conseguir meu emprego. Eu não quero ficar na rua. Na rua, batem na gente, os policiais e os guardas nos maltratam, tomam nossa mercadoria. Eu mesmo vendia brinquedo, mas levaram, e agora eu vendo chocolate.

Quando dá para eu comer, eu como, gosto de comprar minha comida. O pessoal gosta de dar comida estragada para morador de rua."

"Quero que a sociedade me veja como um ser humano"

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