Após debate com "louca" e "atormentado", júri deve definir destino de Elize

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Band

As quatro mulheres e os três homens que decidirão o futuro de Elize Matsunaga, 35, se reuniram às 23h deste domingo (4) para analisar a sentença. Elize responde pelo assassinato e esquartejamento do marido, Marcos Matsunaga, em maio de 2012. A estimativa é que a sentença saia na madrugada desta segunda-feira (5). 

O julgamento começou hoje às 10h20 com o interrogatório da ré –que falou durante quatro horas e meia ao juiz, Adílson Paukoski Simoni, aos advogados e aos jurados. Foi o sétimo dia de júri no Fórum Criminal da Barra Funda (zona oeste de São Paulo).

A última fase do julgamento antes da decisão foi o debate entre acusação e defesa, marcado por trocas de ofensas --principalmente entre o promotor, José Carlos Cosenzo, e a advogada de Elize, Soglio.

Ao menos duas vezes, Cosenzo chamou Roselle de "louca". Ela, por sua vez, disse que ele é "atormentado" e que "não foi honesto durante a semana toda". "A senhora está passando dos limites", disse o promotor. "Eu vou pedir a sua interdição."

Quesitos que serão analisados pelos jurados

Os jurados terão sete quesitos da denúncia da homicídio triplamente qualificado para analisar:

  1. Se Elize provocou os ferimentos que provocaram a morte da vítima;
  2. Se a ré é autora do disparo;
  3. Se o júri absolve a acusada;
  4. Se ela agiu sob violenta emoção por injusta provocação da vítima;
  5. Se foi por motivo torpe (traição e interesse financeiro);
  6. Impossibilidade de defesa da vítima; e
  7. Se ela utilizou meio cruel (esquartejamento com a vítima ainda viva).

Elize ainda responde a outros três quesitos referentes ao crime de destruição e ocultação de cadáver:

  1. Se o cadáver foi destruído e ocultado;
  2. Se foi Elize quem fez isso;
  3. Se a ré deve ser absolvida por esse crime.

 

Estratégias

A acusação focou nos depoimentos de três peritos, segundo os quais Elize não apenas atirou à curta distância, sem oferecer chance de defesa ao marido, Marcos Matsunaga, como o teria esquartejado ainda vivo.

Já a defesa se valeu do laudo do legista e perito criminal Sami El Jundi, última testemunha ouvida no júri. Ao longo de dez horas de depoimento, Jundi, que trabalhou na exumação de Matsunaga para passar a limpo a perícia oficial, com base em laudos de laboratórios, defendeu que a vítima morreu não em decorrência de asfixia por esquartejamento –uma das agravantes do crime de homicídio respondido por Elize --, mas em função do tiro disparado por ela.

"O Marcos errou sim e errou feio", disse o promotor, referindo-se aos casos extraconjugais da vítima, que, segundo Elize, motivaram uma série de brigas do casal meses antes e instantes antes do crime. "Mas não tão feio quanto o perito, que confundiu [osso] temporal e frontal", completou Cosenzo, referindo-se ao legista contratado pela defesa. "Marcos não deveria ser perdoado dentro do que a lei estabelece? Não vivemos mais no período do Talião", afirmou.

Machista X chata

Cosenzo rebateu a declaração de Elize, durante o interrogatório, de que não gostaria que a filha dela e do marido crescesse sem o pai –como ela cresceu, no interior do Paraná, uma vez que seu próprio pai deixara a casa da família, após se separar, quando a ré tinha três anos. Hoje, a guarda provisória da filha de Elize e de Matsunaga está com os avós paternos.

"É evidente que ela ama a filha, mas não ama tanto assim a ponto de matar o pai", refutou o promotor, para quem o laudo de exumação apresentado pela defesa de Elize foi "o caso mais patético que vi de exumação". "Ele [El Jundi] montou uma versão de que, como cientista, tudo é possível", ironizou Cosenzo. "Ele fez um trabalho muito bonito, maravilhoso, mas por pouco não nos engana e não faz um passa-moleque em nós", completou.

Os comentários irritaram a advogada de Elize, que, ao tentar intervir, recebeu uma expressão jocosa de Cosenzo. "O senhor continua machista", disse Roselle. "E a senhora continua chata", respondeu o promotor. Ambos os xingamentos já haviam sido usados por ambos ao final do interrogatório de Elize.

'Concurso para porteiro'

As farpas entre as partes persistiriam no debate durante a apresentação da defesa. Ao defender que Matsunaga já estava morto ao ser esquartejado, o advogado Luciano Santoro foi rebatido pelo promotor. Santoro, que defende Elize desde a prisão dela, em junho de 2012, sugeriu a Cosenzo que assistisse às aulas de Direito dele. O promotor rebateu: alegou que, caso fosse aluno de Santoro,
não passaria sequer "em um concurso para porteiro".

A defesa ainda exibiu imagens de Elize e do marido quando eles ainda eram bebês, sublinhando a diferença social entre eles, e do casal, durante viagens pelo exterior e com a filha recém-nascida. Elize se curvou e chorou bastante nesse momento.

"Sem vingança, sem vendeta, aqui é o lugar para certeza [ao julgar]. É preciso plena convicção de que aquilo [o homicídio triplamente qualificado] ocorreu", pediu Santoro, para quem a perícia no corpo da vítima, que poderia confirmar –segundo a defesa– a distância real de tiro e se Matsunaga morreu já com o tiro "foi feita com base em um achismo do perito", não com análises laboratoriais. "Morte é morte encefálica", disse o advogado.

Sobre o motivo torpe alegado pela acusação –que Elize teria matado o marido como vingança pelas traições e pensando no dinheiro dele--, Santoro foi taxativo: "Ninguém nesta sala mataria a galinha dos ovos de ouro, nem por uma porcaria de seguro [de vida] de R$ 600 mil [do qual Elize era beneficiária]". "Nunca foi o dinheiro: ela reagiu por uma injusta provocação dele", completou.

Ao tentar ser interrompido pelo promotor, durante a explanação, o advogado afirmou: "Se o trabalho da Polícia Científica tivesse sido feito decentemente, não estávamos aqui há sete dias."

Entenda o crime que levou Elize Matsunaga a julgamento

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