Sem obras, açudes cheios da transposição servem de praia, mas não abastecem PE

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Sertânia e em Pedra (PE)

  • Beto Macário/UOL

    Açude do Barro Branco, em Sertânia, onde haverá captação de água pelo Ramal do Agreste, serve de lazer e banho

    Açude do Barro Branco, em Sertânia, onde haverá captação de água pelo Ramal do Agreste, serve de lazer e banho

A agricultora Ivaneide Amélia, 44, acorda todos os dias antes de o sol nascer para cuidar dos animais que cria nos fundos de casa. Moradora da comunidade do Prateado, no município da Pedra (a 264 km do Recife), ela e o marido não sabem o que é água encanada desde fevereiro de 2014 e precisam carregar 12 baldes por dia de água de um chafariz para sua residência. 

Apesar de a cidade estar na lista de beneficiadas pelo eixo leste da transposição do rio São Francisco --inaugurado no último dia 10--, a chegada da água à cidade e a outras dezenas de municípios de Pernambuco ainda está distante. Hoje, os açudes já cheios em Sertânia (onde haverá captação da água) estão à espera das obras e servem apenas de praia para os sertanejos, que se divertem às margens do canal, apesar dos riscos de afogamento.

Mesmo com o São Francisco cortando o Estado por um canal até a Paraíba, as obras complementares que deveriam levar água às comunidades ainda estão no papel ou em início de execução. A mais importante delas é o Ramal do Agreste. 

Beto Macário/UOL
A agricultora Ivaneide Amélia, 44, enche 12 baldes de água por dia no chafariz da prefeitura
O edital do projeto foi lançado há três anos, e o ramal deveria ser entregue neste semestre. Mas o processo foi suspenso pelo Ministério da Integração Nacional, após questionamentos do TCU (Tribunal de Contas da União). Um ano depois, a licitação voltou a ser parada e, desde o segundo semestre do ano passado, foi colocada em Regime Diferenciado de Contratação. Segundo o ministério, a construtora responsável terá até três meses para concluir os serviços do projeto executivo, e o início das obras está previsto para o segundo semestre deste ano.

O projeto teve seu anúncio de início feito durante a visita do presidente Michel Temer, em janeiro. Foram assinadas ali duas ordens de serviço no valor de R$ 40,4 milhões para o começo do projeto, que custará R$ 1,3 bilhão e vai atender 72 cidades pernambucanas. A obra --se não houver atrasos ou imprevistos-- ficará pronta em 2020. O governo pernambucano, por sua vez, trabalha com o prazo de receber a obra federal apenas em 2022.

O ramal é uma transposição da transposição, que cortará o sertão pernambucano por 70,8 km de extensão, com novos canais, túneis, aquedutos, estação de bombeamento e barragens. A obra vai captar a água no reservatório de Barro Branco, em Sertânia, até o açude de Ipojuca, em Arcoverde, onde outra obra atrasada --a Adutora do Agreste-- vai captar água para distribuir entre cidades em emergência.

Enquanto o ramal não chega, o açude do Barro Branco serve apenas para lazer e banho proibido dos moradores, como a família de Elizabete da Silva, 50. No último domingo (19), ela e mais oito pessoas levaram comida e passaram o dia na "praia". "Dos meninos aqui, três nunca viram o mar e estão vendo água assim pela primeira vez. Bom demais."

A obra da Adutora do Agreste, segundo o Ministério da Integração Nacional, ainda está na primeira etapa, com "37% de conclusão das obras físicas e 62% dos tubos assentados". Possui 571 km de extensão, que incluem adutoras, reservatórios e estação de tratamento de água.

"Desde o início do governo Temer, houve aumento de 139,1% nos repasses federais; a Adutora do Agreste está orçada em R$ 1,4 bilhão, sendo R$ 1,2 bilhão da União e o restante em contrapartida do governo estadual. Quando concluída, esta fase inicial fornecerá água a mais de 1,3 milhão de pessoas em 23 municípios pernambucanos", informou a pasta.

Com transposição atrasada, PE busca meios alternativos

Beto Macário/UOL
Boi morto em frente a placa que indica as obras da Adutora do Agreste, que ainda não saiu do papel
Com a demora no Ramal do Agreste, e entrando no sétimo ano de seca, a Compesa (Companhia de Saneamento de Pernambuco) decidiu iniciar uma série de estudos para arrumar meios alternativos de utilizar a água da transposição e abastecer cidades em colapso. Para isso, planeja uma série de obras mais simples, mas que ainda estão sendo executadas ou mesmo em fase de projeto. Segundo a empresa, cerca de 90 municípios serão beneficiados pela transposição. 

Segundo a Compesa, existem hoje em Pernambuco 36 municípios em colapso de abastecimento, ou seja, sem água encanada. Alguns, como Alagoinha, desde 2012. Outros 38 estão em pré-colapso.

Entre as obras emergenciais, está uma série de adutoras, com previsão de entregar no segundo semestre. O maior investimento será a partir reservatório do Moxotó, em Sertânia, onde estão projetadas duas adutoras: a primeira vai abastecer Arcoverde, Pesqueira, Alagoinha e Belo Jardim (a primeira em pré-colapso, e as três últimas em colapso de abastecimento), com previsão de entrega até dezembro de 2017, ao custo de R$ 100 milhões.

Já a outra adutora, de 19 km, vai até a cidade de Custódia e deve custar R$ 30 milhões, mas ainda está em "fase de captação de recursos". Quando iniciada, a obra vai levar um ano para ser concluída. 

Outras obras vão retirar água de outros locais, como a adutora que vai levar água de Catende, na Zona da Mata Sul, para a Barragem do Prata, abastecendo uma das regiões econômicas mais importantes do Estado: o polo da moda, que inclui as cidades de Toritama, Santa Cruz do Capibaribe e Caruaru.

A adutora de Serro Azul ainda será licitada e vai levar água de Palmares, também na Mata Sul, para a Adutora do Agreste, ajudando o abastecimento de dez municípios.

"Só resta esperar, mas não tenho muita fé"

Beto Macário/UOL
O agricultor Edson da Silva não tem esperança na chegada da água a seu município
Enquanto isso, na cidade de Pedra, a população sofre com doenças típicas da seca. "A intermitência no abastecimento força as pessoas a armazenarem água de forma inadequada, o que favorece o surgimento do mosquito Aedes aegypti [transmissor da dengue e da zika]. Além disso, as gastroenterites surgem devido à manipulação inadequada da água. Isso ocorre em toda região", explica Sérgio Andrade, coordenador da Vigilância Sanitária da Pedra.

Edson da Silva, agricultor de 49 anos que mora em Pedra, conta que nem vibrou com a chegada das águas do Velho Chico no canal do eixo leste. Disse que "há muito tempo" ouviu a promessa de que a transposição iria ser usada para abastecer a cidade, mas acredita que o assunto "morreu". 

"O pessoal disse que vai chegar, mas ninguém diz quando, ninguém sabe nada, não vemos obra ou anúncio. Só resta esperar, mas não tenho muita fé, não. Melhor esperar a chuva", diz.

Para o município de Pedra e outros seis da região, a solução apontada pela Compesa é um sistema com 20 poços de 300 metros de profundidade cada um que vão jogar água na Adutora do Agreste. 

"Serão investidos R$ 54 milhões na obra, recursos do Ministério da Integração Nacional. A previsão é iniciar a obra no mês de abril e colocar o sistema para operar no prazo de 12 meses", informou.

Ou seja, por pelo menos mais um ano, Edsons e Ivaneides vão seguir carregando latas com água na cabeça, mesmo com a água do Velho Chico passando ao lado.

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