Bebê morre após aguardar 15h por transferência; ambulâncias não tinham combustível

Eduardo Carneiro

Colaboração para o UOL

  • Reprodução/Facebook

A Polícia Civil de Mafra, região norte de Santa Catarina, investiga a morte de uma menina de apenas um ano e 20 dias cuja transferência para um hospital de Joinville levou cerca de 15 horas. Duas ambulâncias ficaram sem combustível, prejudicando o atendimento da bebê.

Heloísa Mathias Lisboa foi internada no último dia 7 no Hospital São Vicente de Paulo, em Mafra, com suspeita de pneumonia. Como o quadro dela se agravou, foi solicitada na manhã do dia seguinte a sua transferência para o Hospital Infantil de Joinville, já que este conta com uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) infantil.

A vaga no hospital foi aprovada, mas a transferência se tornou uma agonia para os familiares da menina. Tudo porque as ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) de Mafra estavam sem combustível.

Embora toda equipe médica do hospital da cidade e os próprios pais da menina (Alexandro Lisboa e Edilaine Mathias) tenham se prontificado a pagar pelo combustível, o pedido foi recusado - o Samu alegou, segundo o boletim de ocorrência registrado pelos pais, que as ambulâncias não poderiam ser abastecidas por terceiros.

Outras tentativas de transferência acabaram mal sucedidas. Primeiro, uma ambulância de Rio Negrinho, cidade vizinha, não pôde realizar o deslocamento porque não estava com seu quadro médico completo. Outra opção, um helicóptero da Polícia Militar de Joinville não seguiu para Mafra por causa de más condições climáticas.

Uma ambulância de Canoinhas, outra cidade da região, acabou fazendo o transporte - no entanto, apenas até Rio Negrinho, pelo mesmo problema de falta de combustível que afeta municípios do Estado. Foi outra ambulância, de Jaraguá do Sul, que concluiu a transferência de Heloísa para Jonville, já na madrugada de sexta-feira.

A família diz que entre o pedido e a transferência passaram-se 15 horas. Ao meio-dia de sábado, Heloísa sofreu uma terceira parada cardíaca e não resistiu.

"Que valor tem a vida para estas pessoas que negaram o abastecimento destes carros", desabafou o tio da menina, Alexandre Lisboa, em um vídeo no Facebook que já conta com quase 15 mil compartilhamentos.

Caso é investigado

Os pais da menina registraram boletim de ocorrência no início desta semana na Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI) de Mafra - o documento levou a tipificação provisória de homícidio culposo contra menor. Uma das linhas de investigação é se de fato a ambulância do SAMU não poderia ser abastecida por terceiros.

"Não podemos afirmar ainda se existe crime e qual crime. O crime, se é que vai existir, vai ser definido a partir de investigação. Estamos colhendo depoimentos, documentos, e devemos ter novidades na próxima semana", afirmou Nelson Vidal, delegado que acompanha o caso, ao UOL.

"Estamos averiguando se existe uma regulamentação que proíba este abastecimento de viatura, alegando-se questões legais. Buscando na internet, vemos que em outros Estados foram feitas vaquinhas para abastecer. Por que em Mafra não poderia? Era coisa de 40 ou 50 reais", completou.

Para Nelson Vidal, se a investigação confirmar que o atraso foi uma causa direta e decisiva para a morte de Heloísa e que o abastecimento da ambulância poderia ser feito por terceiros, o caso pode se tornar de homicídio doloso. "Mas temos que ter calma e prudência com os fatos", concluiu.

Para Ossimar Carlos Friedrich Filho, coordenador de enfermagem do Hospital São Vicente de Paulo, um transporte mais rápido poderia ter aumentado as chances de a menina sobreviver.

"Obviamente você transferir um paciente fora de condição de urgência, de emergência, num quadro mais estável, fica muito mais fácil do que transferir um paciente que esteja em condição de entubação, com medicação para controlar as condições vitais", afirmou ele à RBS.

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