Evangélicos da Marcha rejeitam lideranças religiosas na política e apoiam "respeito a gays", diz pesquisa

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • Leonardo Benassatto/Framephoto/Estadão Conteúdo

    Fieis participam da 25ª edição da Marcha Para Jesus, na avenida Tiradentes, em São Paulo (SP), nessa quinta (15)

    Fieis participam da 25ª edição da Marcha Para Jesus, na avenida Tiradentes, em São Paulo (SP), nessa quinta (15)

Uma massiva falta de identificação com a classe política, uma expressiva rejeição a lideranças evangélicas e às reformas que políticos dela própria são signatários e a defesa a que ambientes como a escola "deveriam ensinar a respeitar os gays". É isso o que pensa a maior parte dos evangélicos que participaram nessa quinta-feira (15) da 25ª edição da Marcha para Jesus no centro e região norte de São Paulo, segundo uma pesquisa qualitativa divulgada nesta sexta (16).

O levantamento foi coordenado pelos professores da área de Ciências Sociais Esther Solano, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Marcio Moretto Ribeiro e Pablo Ortellado, da USP (Universidade de São Paulo), com apoio da Fundação Friederich Ebert. Ao todo, foram entrevistados 484 participantes da Marcha, com margem de erro de 4.5%.

Suamy Beydoun/Agif/Estadão Conteúdo

A pesquisa levou em consideração as "identidades políticas, guerras culturais e posicionamento frente a debates atuais sobre política" dos entrevistados e ouviu maiores de 16 anos por toda a extensão da Marcha –que partiu da estação da Luz, no centro, e encerrou com apresentações musicais na praça Herois da FEB (Força Expedicionária Brasileira), na zona norte.

Entre os entrevistados, a maioria era composta por mulheres (55,6%) e por fiéis com ensino médio completo e superior completo (respectivamente, 39,3% e 30,8%) e renda familiar de três a cinco salários mínimos (28,7%), idades entre 16 e 24 e 34 a 44 anos (respectivamente, 26,7% e 26,4%) e de cor branca, parda e preta (respectivamente, 38,2%, 36,2% e 21,1%).

Na análise da identificação política, a maioria (66,5%) disse não se reconhecer nem de direita (10,1%), esquerda (6%), centro-direita (3,3%), centro-esquerda (1,9%) ou de centro (1,2%). Ao todo, 11% não souberem responder. Por outro lado, a maior parte dos entrevistados se considera "muito conservadora" (45,5%) e "nada antipetista" (39,9%, diante de 36,8% que se declararam "muito antipetista").

Da mesma maneira, uma maioria de 76,9% se mostrou não identificada a nenhum partido político –com legendas como PSC (1,2%) e PRB (0,4%), com nomes de liderança na bancada evangélica, por exemplo, com índices de confiança abaixo de partidos tradicionais e envolvidos em escândalos de corrupção como PSDB (7%) e PT (5,8%).

Para a coordenação da pesquisa, chamaram a atenção não só a pouca confiança em partidos da bancada, mas também uma maioria dizer que "não confia" em políticos historicamente mais ligados aos evangélicos, como o deputado Jair Bolsonaro, do PSC (57,4%), a ex-senadora Marina Silva, da Rede (57%), o pastor e deputado federal Marco Feliciano, do PSC (54,1%), e o pastor e prefeito do Rio Marcelo Crivella, do PRB (53,9%). O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), lideram o ranking dos menos confiáveis com, respectivamente, 83,7% e 61,4%.

Suamy Beydoun/Agif/Estadão Conteúdo

Opinião sobre debates políticos

A expressiva maioria dos entrevistados também rechaçou que, em momento de crise, "o governo precisa cortar gastos, inclusive em saúde e educação": 91,9% disseram não concordar com a afirmação, contra 6,8% que responderam que concordam. A base para a pergunta foi a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 241, ou PEC do Teto, aprovada em dezembro passado pelo Senado, sob protestos, e que limita o aumento dos gastos federais por até 20 anos.

Indagados se "quem começou a trabalhar cedo deve poder se aposentar cedo sem limite mínimo de idade?" –pergunta baseada na reforma da Previdência, proposta pelo governo de Michel Temer (PMDB) --, 86,6% afirmaram concordar, contra 10,7% que disseram discordar.

Os posicionamentos contrastam, por exemplo, com a opinião do apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Marcha para Jesus e da Igreja Renascer –à qual pertence, aliás, a maioria (59,9%) dos ouvidos na pesquisa. Em entrevista ao UOL ontem, durante a Marcha, Hernandes negou ser favorável ao impeachment ou à renúncia de Temer e, indagado sobre o que o público evangélico espera de um Congresso substancialmente envolvido em escândalos de corrupção, respondeu: "Que se votem projetos fundamentais à retomada da economia, como as reformas Trabalhista e Previdenciária", posicionou-se, na ocasião.

Janaina Garcia/UOL

"Marcha é o rosto da população brasileira", diz socióloga

Para a socióloga Esther Solano, uma das coordenadoras da pesquisa, a Marcha teve muito mais representatividade de diferentes segmentos sociais do que havia sido observado nas pesquisas em atos pró-impeachment ou "Fora, Temer".

"Nos atos contra Temer ou contra Dilma, a mobilização era muito mais polarizada, com muito mais gente da classe média, branca, muito escolarizada e declarada de ensino superior completo. Isso não representa o que é, majoritariamente, a população brasileira. O que vimos ontem [durante a Marcha] é o rosto da população, com muito mais pardos, pretos, renda muito menor e muito mais gente [a organização estimava 2 milhões de participantes ao longo do dia]", afirmou a pesquisadora.

Por outro lado, ela observou um descolamento entre o discurso das lideranças políticas evangélicas e a base de fiéis, já que partidos e políticos da bancada evangélica não foram exatamente bem avaliados.

"O nível de confiança da base em algumas das lideranças evangélicas mais representativas é muito baixo. Sobre casos como o dos pastores Marco Feliciano e Marcelo Crivella, ouvimos que a pessoa confia nessas figuras 'como pastor, não como político'. Isso demonstra um descolamento: são lideranças representantes dos evangélicos, mas não são reconhecidas por eles. Além disso, vários nomes da bancada evangélica se posicionam fortemente como antipetistas, mas, na pesquisa, vimos que o público da Marcha não segue essa tendência de polarização –tanto que a maioria se disse nada antipetista", constatou.

"Estudar os evangélicos é fundamental para compreender o Brasil –é um grupo que tem crescido muito em número e também em simbologia, à medida em que a igreja evangélica se configura como grande fator de sociabilidade, sobretudo, na periferia. Ela se transformou em uma instituição fundamental nas periferias brasileiras – e evidentemente, tem ganhado cada vez mais capital e poder político", justificou a socióloga sobre os fatores que motivaram a pesquisa.

Marivaldo Oliveira/Código 19/Estadão Conteúdo

"A escola deveria ensinar a respeitar os gays" x Lugar da mulher é em casa cuidando da família" 

Na abordagem sobre opiniões e narrativas presentes na sociedade, foram apresentadas três levas de colocações ao público entrevistado na Marcha, que se afirmara "muito conservador" (45,5%) e "pouco conservador" (34,5%).

Na primeira leva, houve altos índices de concordância com colocações como "A escola deveria ensinar a respeitar os gays" (77,1%), "Os valores religiosos deveriam orientar as leis" (75%), "Os direitos humanos atrapalham o combate ao crime" (65,9%), "A polícia é mais violenta com os negros do que com os brancos" (63,4%) e "A união de pessoas do mesmo sexo não constitui uma família" (59,3%). Nesse grupo, os maiores percentuais de discordância ficaram com frases como "Deveria ser permitido aos adultos fumar maconha" (82,9%) e "Fazer aborto deve ser um direito da mulher" (73,1%).

Em uma segunda leva, os maiores índices de concordância ficaram com "Menores de idade que cometem crimes devem ir para a cadeia" (83,7%), "Precisamos punir os criminosos com mais tempo de cadeia" (76%), "O bolsa família estimula as pessoas a não trabalhar" (74,2%) e "Cantar uma mulher na rua é ofensivo" (70,5%). As maiores discordâncias foram registradas para "O lugar da mulher é em casa cuidando da família" (90,7%) e "Dois homens devem poder se beijar na rua sem serem importunados" (59,1%).

Na terceira e última leva, as maiores concordâncias foram anotadas para colocações como "Os negros ainda sofrem preconceito no Brasil" (90,7%), "As escolas deveriam ensinar valores religiosos" (77,3%) e "A mulher deve ter o direito de usar roupa curta sem ser incomodada" (76,4%). As discordâncias mais substanciais foram a "Travestis devem poder usar o banheiro feminino" (67,4%) e "O cidadão de bem deve ter o direito de portar arma" (65,5%). Indagados se "Os conservadores são preconceituosos", 47,7% disseram concordar, e 41,5% discordaram.

"País tem viés punitivista"

"Concordar que a mulher deve ter o direito de usar roupa curta sem ser incomodada é algo bastante relevante do ponto de vista progressista a um público que se reconhece conservador –e ainda mais de uma maioria oriunda de uma igreja, como a Renascer, muito conservadora. Essa e outras opiniões –como a de se respeitar gays na escola –desfaz aquela ideia de que os evangélicos seriam os mais retrógrados", explicou a socióloga.

Concordância com colocações sobre porte de armas, prisão de criminosos menores de 18 anos e maior tempo de cadeia a quem pratica crimes, além de "a pena de morte deve ser aplicada para punir crimes graves" (47,9% concordam, 47,5% discordam) revela, na avaliação de Solano, algo que é inerente "não aos evangélicos, mas à sociedade brasileira, como um todo": "O país tem um viés punitivista, isso é praticamente um consenso. Mas se 90,7% dos entrevistados rejeitaram que 'O lugar da mulher é em casa cuidando da família', não tem como não considerar que há avanços", finalizou.

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