Monitoramento, emboscada e tiros no rosto: como o PCC matou psicóloga de prisão federal

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Depen

    A psicóloga Melissa de Almeida Araújo foi assassinada no último dia 25 de maio

    A psicóloga Melissa de Almeida Araújo foi assassinada no último dia 25 de maio

Houve um momento de dúvida entre os assassinos quando finalizavam os preparativos para a morte de Melissa de Almeida Araújo, 37. Era realmente necessário matar a mãe de um filho de dez meses? Na discussão prevaleceu a ordem do PCC (Primeiro Comando da Capital): sim, a psicóloga do presídio de segurança máxima de Catanduvas (PR) seria a terceira vítima da facção no sistema penitenciário federal.

O planejamento e execução do homicídio que aconteceu em maio seguiu uma rígida divisão de tarefas, apurou o UOL com fontes ligadas à investigação do caso.

Três meses antes do assassinato, uma "equipe de levantamento de informações" chegou à região de Cascavel (PR). Com uma população estimada em mais de 316 mil habitantes pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a cidade se caracteriza por ser um polo do agronegócio baseado na cultura da soja.

Melissa morava com o marido, o policial civil Rogério Ferrarezzi, em um condomínio de classe média de Cascavel --distante 55 km de Catanduvas.

Agente Melissa Almeida foi morta em maio

"Em um dos celulares dos criminosos apreendidos pela polícia, foram encontradas fotos de várias casas e carros de agentes que trabalhavam na prisão de Catanduvas", diz, sob a condição de sigilo, um dos agentes que trabalham na unidade prisional. Ele próprio foi um dos monitorados pelo grupo criminoso.

"Eles chegaram a ter audácia de bater nas portas de algumas residências para verificar os endereços dos agentes", acrescenta.

PCC quer intimidar e desestabilizar

UOL revelou no último dia 30 de junho que a maior facção criminosa do país, de acordo com a PF, cometeu os homicídios com o objetivo de "intimidar e desestabilizar" os servidores que trabalham nas quatro unidades federais do país: Catanduvas (PR), Campo Grande (MS), Mossoró (RN) e Porto Velho (RO).

De acordo com parecer do MPF (Ministério Público Federal), o regime aplicado nestas penitenciárias é considerado "opressor" pelo PCC, pois os agentes costumam barrar o acesso dos presos dessas unidades a "regalias ilícitas", como a posse de telefones celulares dentro das celas.

Antes de Melissa, dois servidores do sistema prisional foram mortos a tiros em ações da facção, de acordo com as autoridades:

Por que matar Melissa?

Nas investigações sobre os três casos ficou comprovado que não havia um caráter pessoal na escolha daqueles que seriam assassinados. "Eles não visam as pessoas, e sim o Estado. Os agentes são representantes do poder público. Eles querem abalar o sistema penitenciário federal como um todo", afirma um membro do MPF que atua em um dos casos.

Melissa foi escolhida como a terceira vítima, depois de ter sua rotina monitorada por pelo menos 40 dias, por uma razão específica: ela não andava armada. Mesmo com a contrariedade de alguns dos assassinos "por matar uma mulher", o destino da psicóloga foi decidido por ela ser considerada um alvo de "fácil alcance", afirma um dos investigadores da PF que trabalha no caso. 

PF desarticula plano para matar agentes federais

"Quando a morte dela foi anunciada na penitenciária, os próprios presos ficaram surpresos. Ela era vista com simpatia por eles, por trabalhar sempre de acordo com os padrões estabelecidos, ajudando-os inclusive dentro da legalidade", diz outro agente ouvido pela reportagem.

Melissa trabalhava no sistema penitenciário federal desde o ano de 2009. Ela era responsável por fazer o acompanhamento psicológico dos presos de Catanduvas e voltara da licença-maternidade havia poucos meses.

Morte dentro de casa

No meio da tarde de 25 de maio, Melissa saiu do presídio de Catanduvas. Pegou o marido de carro na delegacia em que ele trabalhava e os dois seguiram à creche para buscar o filho de dez meses.

Por volta das 18h, o carro dela chegou ao condomínio onde morava. Ela não tinha notado, mas havia sido seguida desde o começo da manhã por homens distribuídos em três carros roubados.

Melissa passou pelo portão do condomínio e ao menos um dos carros conseguiu entrar logo depois. Acionou o botão da garagem de sua casa e, enquanto ela manobrava o carro, dois homens armados com pistolas 9 milímetros saíram do carro onde estavam e começaram a disparar contra ela.

Rogério Ferrarezzi sacou sua arma e revidou os tiros. O policial foi atingido pelo menos oito vezes. Melissa saiu do carro e correu para dentro de casa, mas os atiradores conseguiram alcançá-la. Ela recebeu dois tiros no rosto. O filho saiu ileso. Um dos atiradores morreu no tiroteio com o policial. Outro, saiu ferido, conseguiu escapar, mas foi morto horas depois em outro tiroteio com as forças policiais.

Reprodução/CGN
O policial civil Rogério Ferrarezzi (na maca) sobreviveu após levar oito tiros
"É o padrão do PCC para execução agora. Eles usam pistola Glock de calibre 9 milímetros, com modificação para rajada e carregador de 30 munições", diz um investigador da PF. A arma de uso exclusivo da PF e das Forças Armadas também foi utilizada na morte do agente Alex Belarmino, em setembro de 2016.

Logo após o atentado, uma operação envolvendo várias forças policiais fechou as saídas da cidade e conseguiu prender quatro envolvidos no crime. Pelo menos metade deles tem ligação com o PCC, apurou a reportagem.

Procurado pelo UOL, o delegado federal Marco Smith afirmou que o inquérito ainda está em andamento e que a investigação é sigilosa. "O que podemos dizer neste momento é que as provas colhidas até aqui apontam para a participação de membros de uma facção criminosa fundada em São Paulo", disse.

Protesto de agentes

Desde o dia 29 de maio, quatro dias após o assassinato de Melissa, o Depen (Departamento Penitenciário Nacional), órgão do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, suspendeu nas unidades federais as visitas íntimas e sociais, quando há contato físico entre os presos e seus visitantes.

Divulgação
Agentes protestam contra mortes de colegas em presídio federal de Catanduvas (PR)
Na última quinta-feira (20), agentes penitenciários federais homenagearam os colegas mortos em protestos realizados nos quatros presídios federais do país e em Brasília, onde fica a sede do Depen. Eles defendem que as visitas íntimas sejam proibidas de maneira permanente, pois líderes das facções estariam passando ordens por meio desse contato.

A medida de suspensão das visitas íntimas e sociais vale até o dia 28 de julho. Na manhã de sexta-feira (21), mulheres e filhos de presos protestaram em Catanduvas pelo direito às visitas íntimas e sociais.

"Estamos lutando uma guerra assimétrica. As facções estão agindo de maneira semelhante às organizações terroristas", disse o presidente do sindicato dos agentes penitenciários federais no Paraná, Carlos Augusto Machado.

Vídeo do Depen homenageia agente Melissa Almeida

Um dos objetivos da criação de presídios federais é o de isolar líderes das facções criminosas e diminuir seu poder de influência nos sistemas penitenciários de origem. Dados do Depen revelam que, atualmente, 570 pessoas estão presas nas quatro penitenciárias federais que oferecem um total de 832 vagas.

Com 161 integrantes detidos nestas unidades prisionais, o PCC é a facção criminosa com mais presos no sistema penitenciário federal. O número corresponde a 28,24% do total de detidos. Em seguida, aparece o Comando Vermelho, com 105 integrantes presos (18,42%), e, em terceiro lugar, está a FDN (Família do Norte), com 40 integrantes presos (7%).

O corpo de Melissa foi enterrado em Bauru (SP), sua cidade natal. Após sobreviver ao tiroteio, o policial Rogério Ferrarezzi deixou Cascavel (PR) com o filho. Eles recebem proteção policial.

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