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Indígena é espancado e tem o corpo queimado no Ceará

Maurício Alves Feitosa - Divulgação
Maurício Alves Feitosa Imagem: Divulgação

Aliny Gama

Colaboração pra o UOL, em Maceió

28/08/2017 20h00

Lideranças indígenas da etnia Pitaguary, de quatro aldeias no Ceará, dizem estar sofrendo constantes ameaças de morte por cobrarem a legalização e expulsão de posseiros de suas terras numa área de 1.635 hectares, localizada nos municípios de Maracanaú e Pacatuba (região metropolitana de Fortaleza). A vítima mais recente sofreu um atentado no fim de semana.

Na madrugada deste domingo (27), o índio Maurício Alves Feitosa, 45, conhecido como “Mazin”, foi espancado e teve o corpo queimado enquanto dormia no estábulo da aldeia central, denominada de Santo Antônio dos Pitaguary, em Maracanaú. Este é o segundo caso suspeito de ataque contra índios Pitaguary em 15 dias.

Até agora, a Polícia Federal não se pronunciou sobre as linhas de investigação do crime. Os Pitaguary acreditam que a motivação do atentado foi política porque o índio é irmão de uma das lideranças da aldeia, Ceiça Alves Feitosa, símbolo da luta dos Pitaguary na legalização das terras indígenas.

Feitosa foi atacado por dois homens não identificados que invadiram o imóvel e começaram espancá-lo. Depois, os agressores jogaram gasolina no corpo do índio e atearam fogo. Lideranças indígenas contaram ao UOL que, antes do atentado, os criminosos secaram as caixas de água da aldeia para que o índio não tivesse chance de apagar o fogo. O imóvel ficou completamente destruído.

Para tentar sobreviver, o índio retirou toda a roupa e correu para o posto de saúde que fica dentro da aldeia para pedir socorro. Ele foi transferido imediatamente por uma ambulância para o hospital IJF (Instituto José Frota), localizado em Fortaleza. O índio sofreu queimaduras de 3º grau e está com 60% do corpo queimado. Ele está internado no isolamento do hospital e seu estado de saúde é estável.

A família de Feitosa disse que tentou registrar um boletim de ocorrência na Delegacia Metropolitana de Fortaleza, neste domingo (27), mas não teria conseguido. Eles foram orientados a procurar a Polícia Federal.

Ainda no domingo, policiais federais estiveram na aldeia Santo Antônio para realizar perícia no imóvel incendiado e colher depoimentos de testemunhas. Um inquérito foi instaurado.

O Cimi (Conselho Indigenista Missionário) afirmou acreditar que o atentado contra o índio Pitaguary foi premeditado “por ele ter sido o único alvo” e ainda por ser da família de lideranças da aldeia, que lutam pela legalização da Terra Indígena. O Cimi destacou ainda que o índio é uma pessoa pacata, não tem histórico de rixas na aldeia e nem fora da área indígena.

O Observatório Socioambiental, que é uma organização não governamental que registra casos de violência e atua na causa indígena no Ceará, afirma que os Pitaguary enfrentam problemas por ainda não terem as terras demarcadas. Segundo a integrante do Observatório Socioambiental, Janete Melo, “por se tratar de um crime dentro de uma aldeia, a causa mais provável é que esteja relacionado às demarcações ou a ódio contra índios”, diz.

Local onde índio Pitaguary sofreu atentado - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Ameaças constantes

A violência e as ameaças de morte contra os Pitaguary seriam constantes, segundo as lideranças do povo Pitaguary. As terras indígenas são cercadas de pedreiras e os índios vêm lutando há décadas para legalização da reserva. As terras dos índios também sofrem com a ação de posseiros que tentam invadir as terras e abrir um balneário existente no meio das aldeias para visitação turística.

A terra indígena nos índios Pitaguary está distribuída em quatro aldeias - Horto, Olho d’Água, Santo Antônio e Mabuga – localizadas nos municípios de Maracanaú e Pacatuba. O povo Pitaguary tem 4.620 índios. A área da reserva indígena dos Pitaguary foi demarcada, mas falta ser homologada pela União.

No último dia 11, o pai da líder Ceiça, João Victor Ferreira, 71, foi encontrado pela família desorientado após supostamente levar uma pancada na cabeça. Ele foi socorrido e levado para um hospital, onde se submeteu a uma cirurgia para pinçamento de um coágulo do cérebro. Na última sexta-feira (25), ele recebeu alta e se recupera na casa de familiares.

“Depois do que aconteceu com o meu irmão estamos juntando as peças e suspeitamos que meu pai sofreu um atentado também. Pois, os médicos que o atenderam no hospital afirmaram que o edema que se formou no cérebro dele foi causado por uma pancada.

Como ele não lembra do que se passou não sabemos ao certo o que aconteceu”, conta Ceiça Feitosa.

No dia 19 de março de 2016, Ceiça sofreu uma tentativa de assassinato ao ser espancada e ferida a golpes de facão por um posseiro da reserva indígena. Ela sofreu lesões nos braços e na cabeça. O agressor está preso.

As lideranças do povo Pitaguary reclamam de uma suposta falta de ação da Funai para combater a ação de posseiros na terra indígena. Cerca de 200 não índios morariam na reserva ilegalmente.

“A Funai está sendo omissa porque sabe que tem pessoas vendendo terra e não índios ocupando a terra. São pessoas perigosas, envolvidas em diversos crimes e a Funai não tem tomado nenhuma providência”, denuncia índia Ana Clecia Sousa do Nascimento, outra liderança do povo Pitaguary.

A Polícia Federal informou que enviou equipe no domingo para realizar perícia no imóvel incendiado e colher depoimentos de índios da aldeia Santo Antônio. Entretanto, a polícia não informou as linhas de investigação para elucidação do crime.

No final da tarde de hoje, a Funai informou  ao UOL que a Coordenação Regional Nordeste II, localizada em Fortaleza, está acompanhando o ocorrido e acionou a Polícia Federal para investigar o caso. O órgão não se pronunciou sobre as denúncias de omissão feitas pelos índios sobre o combate de posseiros na área indígena.

Medo de novos ataques

Após o atentado o clima é de medo e insegurança nas aldeias. As lideranças relataram ao UOL que estão se reversando na segurança das casas para que não ocorram novos ataques.

“Estamos recolhidos nas nossas casas e as lideranças estão se reversando para observar o movimento durante toda a noite. Ficamos acordados um tempo e quando fomos dormir um outro grupo ficou vigiando. Não temos polícia por perto e quando acionamos temos uma certa dificuldade”, disse Ceiça.

As lideranças do povo Pitaguary estiveram reunidas nesta segunda-feira pela manhã na superintendência da Polícia Federal com delegados que investigam o caso, integrantes da Funai e do Cimi. Durante a reunião, os índios cobraram celeridade na homologação da terra indígena, expulsão dos posseiros e elucidação no atentado contra o índio Maurício Feitosa.

“Recebemos ameaças de vários lados, de posseiros e de pessoas externas que são impedidas de entrar na reserva indígena. Essas ameaças são feitas pessoalmente quando nos deparamos com pessoas estranhas em nossas terras ou por meio de recados. Eles ameaçam atirar na gente e matar quando estivermos pela cidade”, conta Ceiça.

Os Pitaguary denunciam que existe um grupo de pessoas que atua contra o movimento indígena e quer vender a terra, mas as lideranças não permitem. Segundo as lideranças dos Pitaguary, a reserva indígena possui um balneário e esse grupo quer explorar a terra indígena com o turismo.

“O clima está bastante tenso e com sentimento de revolta porque não é o primeiro crime que acontece dentro da aldeia. Estamos muito apreensivos porque novos atentados podem ocorrer. Temos certeza que a motivação é uma retaliação pela Ceiça ser uma liderança na aldeia e cobrar nossos direitos a legalização da terra indígena”, afirmou Ana Clécia.

Na aldeia, Maurício é conhecido por ser um homem trabalhador, pacato e tímido. Segundo lideranças dos Pitaguary, ele nunca se envolveu com brigas na aldeia ou fora e também não tem envolvimento com drogas.

“Esse crime é represália pela luta da Ceiça para garantirmos nossos direitos. Vieram aqui para atentar contra a vida de algum Pitaguary e como Mazin estava sozinho no imóvel ele foi a vítima mais fácil para os criminosos. Não sabemos mais o que fazer porque denunciar ameaças e invasões às nossas terras já fizemos. Agora estamos indefesos e não queremos agir com as próprias mãos”, reclama Ana Clécia, da liderança indígena.

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