Campanha na zona sul do Rio pede "gritaria" contra quem dá esmola

Carolina Farias

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Reprodução/Alerta Ipanema/Facebook

    Campanha antiesmola pede em redes sociais que moradores evitem ajudar quem vive nas ruas

    Campanha antiesmola pede em redes sociais que moradores evitem ajudar quem vive nas ruas

Uma campanha criada por organizadores de páginas no Facebook de ao menos cinco bairros da zona sul do Rio de Janeiro pede que moradores não deem dinheiro ou comida a pessoas que vivem nas ruas da região. Posts nas páginas Alerta Ipanema, Leblon, Copacabana, Botafogo e Gávea --juntas, elas possuem mais de 83 mil seguidores-- incentivam aqueles que virem moradores dando esmolas a fazer "gritaria".

Entre os posts, publicados no domingo (10), o da página Alerta Ipanema era o que possuía mais interatividade dos usuários da rede. Até aproximadamente as 16h desta segunda-feira, a publicação tinha quase 700 compartilhamentos, 1.500 curtidas e cerca de 1.100 comentários --a maioria condenando a campanha.

Após a reportagem do UOL procurar a administração da página, o post de Ipanema foi retirado do ar. De acordo com a campanha, ajudar moradores de rua contribui para a permanência deles na zona sul carioca.

"Pessoal, a Subprefeitura da Zona Sul e a Guarda Municipal têm retirado essas pessoas e encaminhado aos abrigos, mas vocês percebem que eles sempre voltam? Não vão para Santa Cruz, nem para Nova Iguaçu, Campo Grande. Eles vêm para Ipanema. Por que será? Nascer ali eles não nasceram. Vêm porque tem algo de bom. Esse algo de bom são as pessoas que dão esmola e comida. Eu já faço, mas preciso da ajuda de vocês. Quando virem alguém dando comida ou esmola, chamem atenção. Façam gritaria, mostrem a todos que estiverem passando que aquela pessoa está contribuindo para que tenhamos mais mendigos no bairro. Só assim ficam constrangidas e param", diz a postagem.

As cinco páginas de Alerta são administradas por Pedro Fróes, que também idealizou a campanha. Elas funcionam como um espaço de anúncios comerciais que vão de quentinhas fit a semijoias, serviços de estabelecimentos locais e informes sobre ocorrências criminais, os chamados alertas.

"Esmoleiros de profissão", diz administrador de página

Fróes diz que nenhuma associação de moradores pediu a campanha e que as páginas não têm ligação com entidades que representam moradores desses bairros.

"Minhas páginas se legitimam por si. Essas pessoas que ficam na zona sul são 'esmoleiros' de profissão. Isso quando não estão na rua só para se drogar, cometer pequenos delitos, achacar moradores pedindo dinheiro de forma ostensiva ou até em forma de assalto, roubo. Furtam estabelecimentos de madrugada. Elas são removidas pela prefeitura e, no mesmo dia, querem sair para poder voltar com a vida de vadiagem. Não tem intenção de agarrar uma oportunidade", defende Fróes.

Entre os comentários atacando a campanha, usuários brincaram com uma possível ação coletiva de enviar comida aos moradores de rua do bairro, eternizado na música "Garota de Ipanema", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Outros inseriram o ícone do "vomitaço", emoji usado como forma de protesto nas redes sociais.

Poucos são os comentários de apoio à campanha. Fróes diz que está acostumado a críticas a alguns de seus posts.

"Essas pessoas que criticam não são moradoras do bairro. Fazem parte de grupos normalmente de esquerda. A maioria nem é do Rio. Já estou acostumado, as páginas têm dois anos. Eu não peço que acreditem em mim. Desafio qualquer pessoa ou grupo a ir a esses bairros e, em vez de dar comida ou esmola, ofereçam trabalho. As pessoas que criticam minha página criticam quem tenta fazer alguma coisa para mudar a realidade. Se essas pessoas se juntassem e fossem mudar a vida daquelas pessoas, alguma coisa poderia acontecer. Mas te garanto que essas pessoas de rua não querem", afirmou o criador das páginas.

Atualmente, cerca de 14.300 pessoas moram nas ruas do Rio. Esse número era de 5.000 em 2013, quase um terço do total dos dias de hoje.

Para o sociólogo e professor de Ciências Sociais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Dário Souza e Silva, não é correto ligar moradores de rua a incidência de crimes nas regiões em que habitam.

"Pesquiso essas pessoas desde 1999, em especial na zona sul. Não podemos dizer que não há isso [crimes] entre eles, mas não é a regra. Quem pratica esses crimes não vive na rua. É uma generalização perversa que tem como consequência a agressividade contra essa população. O medo cria situações graves. Não é eficiente esse tipo e agressividade contra população de rua", diz o sociólogo.

Segundo ele, a desorganização dos bairros e a sujeira também não devem ser atribuídas a moradores de rua e usadas como motivos para afastá-los.

"Indisciplina em horários de entrega [carga e descarga], invasão das calçadas, avanço das grades dos prédios, limpeza, a ordem urbana é obrigação de toda população e não de uma parte dela. Mas a população de rua não tem representatividade política", explica.

Em agosto deste ano, um edifício em Copacabana instalou esguichos de água em sua marquise para evitar que moradores de rua de dormirem no lugar. Os chamados "chuveirinho antimendigo" foram denunciados pela prefeitura ao Ministério Público. Na época, a reportagem do UOL fez um levantamento de lugares na zona sul onde foram tomadas "medidas" contra a presença de moradores de rua.

Prefeitura diz que não pode ir contra quem quer ajudar

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos informa que a política adotada para moradores de rua passa pela oferta de acolhimento durante as abordagens realizadas por equipes itinerantes 24 horas, pelos 14 Creas (Centros de Referência Especializados em Assistência Social) e mais dois centros com múltiplos profissionais (psicólogos, educadores, assistentes sociais) que trabalham para criar vínculos com essa população e promover o acesso a serviços como documentação, encaminhamento à rede de saúde, reintegração familiar, cursos de qualificação para ajudar na inclusão ao mercado de trabalho e acolhimento nos abrigos.

O órgão tem 62 abrigos e mais de 2.000 acolhidos. Para quem é de outra cidade, a secretaria oferece um programa que já proporcionou o retorno de 129 pessoas.

A secretaria afirma ainda que "não é contra a caridade e sempre foi aberta ao trabalho voluntariado nas suas unidades de acolhimento. A generosidade ao próximo passa também pela ajuda àquele em situação de rua; e o poder público não deve e não pode ir contra a liberdade das pessoas que desejam auxiliar a quem quer que seja", conclui o comunicado.

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