Inalação de fumaça eleva nº de vítimas de ataque a creche em MG; o que pode acontecer com elas?

Luís Adorno e Luis Kawaguti

Do UOL, em São Paulo

O número de vítimas do ataque incendiário à creche Gente Inocente, em Janaúba, no norte de Minas Gerais, aumentou para 52 (nove mortos e 43 feridos) nesta sexta-feira (6). Além das crianças e educadores queimados no incêndio da manhã de quinta-feira, mais vítimas começaram a ser encaminhadas a hospitais por terem inalado fumaça e estarem com dificuldade de respirar.

Segundo especialistas ouvidos pelo UOL, a inalação de fumaça, gases tóxicos e partículas durante o incêndio pode tanto colocar em risco pessoas que nem tiveram contato direto com as chamas, como agravar o quadro de saúde de vítimas queimadas.

"Algumas pessoas se apresentaram por volta de meia-noite (de quinta-feira) com sintomas de problemas relacionados a inalação de fumaça", afirmou o tenente do Corpo de Bombeiros Pedro Aihara. O número atual de vítimas é 52, das quais nove morreram. No fim da tarde de quinta-feira, o número total era menor: 28.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, os mortos são dois adultos (o segurança responsável pelo crime e uma professora que lutou contra ele), e seis crianças de 4 anos de idade. Outras 44 pessoas seguem internadas.

Vigia da creche tinha problemas psicológicos

A experiência de socorro a vítimas em um incêndio que chocou o país anos antes, na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, alertou autoridades de Minas Gerais sobre a necessidade de fornecer atendimento médico a todos que tiveram contato com a fumaça do incêndio em Janaúba, mesmo que não apresentassem sintomas imediatos.

O incêndio em Santa Maria matou 242 pessoas em janeiro de 2013. Muitas delas não sofreram queimaduras, mas morreram por inalar o monóxido de carbono da fumaça e gases tóxicos produzidos pela queima do isolamento acústico da boate. 

"Na boate Kiss houve casos de pessoas que entravam conversando em táxis e ambulâncias para serem levadas ao hospital e chegavam mortas", disse o major Claudio Azevedo, médico do Exército que coordenou equipes médicas que atuaram em um hospital em Santa Maria. O grupo salvou muitas vidas na ocasião ao adotar o procedimento de fornecer oxigênio e entubar todas as vítimas que inalaram fumaça mesmo que não apresentassem sintomas aparentes.

Ele explicou que, pelas informações iniciais, o incêndio de Janaúba pode não ter tido o fator agravante dos gases tóxicos, que em Santa Maria foram liberados pela queima do isolamento acústico da boate. Mas, em teoria, só a inalação da fumaça também pode ser muito perigosa.

"Os pacientes que inalam fumaça evoluem mal inicialmente porque componentes da fumaça se ligam à hemoglobina do sangue e isso dificulta a absorção de oxigênio", disse. Ele afirmou que casos mais graves podem acabar em parada cardíaca.

Esses componentes da fumaça podem ser tanto gases tóxicos como partículas sólidas.

Mas não é só isso. "Esses pacientes também podem ter edemas nas vias respiratórias por ter inalado ar quente", afirmou Azevedo.

Ele afirmou que o tratamento inicial para essas vítimas tem que ser o fornecimento de oxigênio e a entubação para o uso de respiração artificial.

Recuperação

David Souza Gomez, cirurgião plástico coordenador do serviço de queimados do Hospital das Clínicas de São Paulo disse que a inalação de gases tóxicos e partículas sólidas também podem lesar o pulmão e provocar problemas respiratórios, como pneumonia.

Isso não só afeta quem teve contato só com a fumaça, como prejudica a recuperação de pacientes que sofreram queimaduras, segundo o cirurgião.

Ele também contou como é o tratamento de pacientes que sofreram queimaduras graves, como as registradas no caso da creche de Janaúba.

"A queimadura extensa é grave, principalmente se ela for profunda. O paciente acaba tendo que ser operado. Enxertamos pele saudável do próprio paciente no local da queimadura. Mas quando a lesão é muito extensa, pode não ser possível usar pele do próprio paciente e temos que usar pele (tratada) de cadáveres."

"É uma recuperação prolongada, trabalhosa e difícil. Estamos falando de meses ou talvez até mais de um ano, depende do caso".

Fora isso, há a questão estética, pois essas queimaduras deixam marcas e os enxertos de pele ficam mais escuros que o resto da pele.

Crianças sobreviventes podem ter estresse pós-traumático

Deborah Moss é neuropsicóloga da USP (Universidade de São Paulo) e especialista em desenvolvimento infantil. Segundo ela, as crianças podem ter estresse pós-traumático.

"Entre 3 e 6 anos, são crianças que já estão numa fase que a gente fala que é simbólica, ou seja, ela consegue ter o entendimento de uma situação, porque um bebê viveria só a dor do acontecimento, a queimadura. Mas, a criança maiorzinha já tem condição de relembrar".

Segundo a especialista, a desordem de estresse pós-traumático deve ocorrer nas crianças vítimas porque a ação do segurança aconteceu de forma repentina, sem aviso prévio. "Ela (criança) pode reviver o que houve, e como ela vai entender isso? Nem adulto consegue entender como um cara fez isso".

"Se ela estava brincando com determinada coisa (na hora do ataque) e voltar a brincar daquilo, pode se lembrar de tudo, por exemplo".

"Às vezes, há um bloqueio de memória. E a situação só vai aparecer depois. É difícil diferenciar o que é realidade e o imaginário de algo que ela não conseguiu ver como um adulto. Por isso, pode ocorrer que a criança tenha um medo intenso".

A vítima também pode tentar evitar pensamentos ou conversas, para se esquivar do que viveu. "Temos que respeitar. Ao nos encontrarmos com a criança, já não (devemos) ir falando sobre o assunto, (devemos) dar um tempo. As crianças têm dificuldade de expressar um sentimento como a angústia, então ela pode ficar com mais raiva e pode ter prejuízo, inclusive na educação", disse.

"Mas só guardar (os sentimentos para si) também pode não ser uma coisa boa. Esse estresse tem um tempo de duração, mas as autoridades devem dar suporte psicológico para as famílias e para as crianças, para que essa angústia não os acompanhe pela vida inteira", disse.

A prefeitura de Janaúba afirmou por meio de sua assessoria de imprensa que desde as primeiras horas após o ataque equipes de psicólogos e assistentes sociais foram mobilizados e passara a dar suporte a familiares de vítimas e sobreviventes do incêndio.

Adultos podem ter depressão; ajuda psicológica é essencial

Yuri Busin, diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental e Equilíbrio de São Paulo, afirmou à reportagem que "qualquer situação grandiosa como essa pode causar grandes traumas, tanto a quem estava lá, quanto a outras pessoas, como as mães e os amigos".

"(As pessoas) ficam com mais medo e isso pode dar uma sensação de insegurança muito grande. Nos adultos, é uma sensação difícil porque você quer descontar sua raiva. 'Não mereço isso', ficar agressivo, enfim. Faz parte, mas não leva a nada", afirmou.

A situação acaba "criando um grande medo de qualquer situação. A pessoa fica cada vez mais enclausurada, fechada. Isso pode gerar síndrome do pânico, depressão e sofrimento a partir desse evento que teve da creche", disse.

"No caso dos pais, a coisa mais importante é ir buscar um suporte psicológico. Não sei se eles têm, se alguém está oferecendo esse serviço, mas é uma das partes mais importantes para passar por esse sofrimento traumático. Lidar com a morte já é difícil, com a dos filhos, o trauma é ainda maior", disse.

Vídeo mostra pessoas tentando conter fogo em creche

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos