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Dois PMs são presos sob suspeita de matar turista na Rocinha

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Turista espanhola chegou a ser levada para o hospital Miguel Couto, mas não resistiu aos ferimentos
Imagem: AFP PHOTO / Mauro PIMENTEL

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

23/10/2017 19h45Atualizada em 23/10/2017 22h29

A Polícia Militar do Rio de Janeiro determinou a prisão em flagrante, nesta segunda-feira (23), dos dois PMs, um oficial e um soldado, envolvidos na ação que resultou na morte da turista espanhola Maria Esperanza Ruiz Jimenez, na favela da Rocinha, na zona sul carioca.

Maria Esperanza foi atingida por um tiro no pescoço quando deixava a comunidade, depois de um passeio turístico. Segundo a Polícia Civil, os disparos foram efetuados por policiais militares. A Divisão de Homicídios investiga as circunstâncias do fato.

Os dois militares foram encaminhados para a unidade prisional da PM, em Niterói, na região metropolitana do Estado. Os nomes deles não foram divulgados. "Após análise do fato, caberá ao Ministério Público Militar do Estado do Rio de Janeiro decidir os rumos da investigação", informou a corporação, em nota.

A Polícia Militar afirma também que, assim como das demais forças de segurança do país, segue os procedimentos estabelecidos no Manual de Abordagem. “O referido manual determina que, em casos como o que ocorreu nesta data, os policiais não devem efetuar disparos, mas sim perseguir o veículo que não obedeceu a ordem de parar e bloquear sua passagem assim que for possível. A razão pela qual o procedimento não foi cumprido é também objeto da investigação em curso.”

A turista foi atingida no pescoço, nesta manhã, em uma localidade conhecida como largo do Boiadeiro, no alto da comunidade. O disparo foi feito por um dos três policiais militares envolvidos na ação, de acordo com as informações da Polícia Civil. O autor do disparo já foi identificado, mas não teve seu nome ou cargo divulgado.

23.out.2017 - Carteira de identidade de María Esperanza  - Reprodução/Band - Reprodução/Band
Carteira de identidade de María Esperanza
Imagem: Reprodução/Band
María Esperanza veio ao Rio de Janeiro a turismo acompanhada de um irmão e uma cunhada. A mulher de 67 anos é natural de El Puerto de Santa María, na região de Cádiz, no sul da Espanha, segundo o jornal El Español.

A espanhola trabalhava em uma imobiliária em El Puerto de Santa María. A publicação espanhola afirma que ela era a única mulher entre quatro irmãos.

O delegado Fábio Cardoso, da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro, afirmou que o motorista do carro onde estava a turista, favela da zona sul carioca, não viu a "suposta blitz" que teria sido feita pela PM no momento em que a vítima foi alvejada.

"As investigações preliminares indicam que ele [o motorista] não viu essa suposta blitz. Na verdade, eles estariam passando perto do largo do Boiadeiro com essas turistas, ouviram o disparo e posteriormente viram que uma das turistas caiu dentro do carro, já atingida. Em princípio, ela tomou um tiro na região do pescoço. Não sabemos precisar ainda se foi pela frente ou pelas costas. Acredito que tenha sido pelas costas."

Segundo a polícia, cinco pessoas estavam no carro: três turistas, o motorista e uma mulher identificada como guia --possivelmente, moradora da comunidade. Cardoso afirmou que a irmã da vítima, que também estava no automóvel, também relatou não ter "visualizado nenhum tipo de blitz ou operação" no momento em que o disparo foi efetuado.

O delegado diz que ainda aguarda o resultado do exame de confronto balístico, mas a única linha de investigação até o momento indica que o tiro, de fato, saiu da arma de um dos PMs. Cardoso diz ter sido um disparo de "alta energia", possivelmente de um fuzil. As armas dos policiais, que ainda serão ouvidos pela Divisão de Homicídios, foram recolhidas para perícia.

Como aconteceu o caso

Por volta das 9h30 dessa segunda-feira (23), policiais militares do BPChq (Batalhão de Polícia de Choque) entraram em confronto com criminosos em duas localidade da Rocinha, no 199 e na rua 1. Dois policiais foram baleados e encaminhados ao Hospital Municipal Miguel Couto.

Uma pistola Glock com kit rajada (adaptada para aumentar a frequência dos disparos) foi apreendida nesse confronto. Um criminoso conhecido como Meteoro também foi socorrido no mesmo hospital.

Esta foi a primeira vez que policiais foram feridos, desde quando começou a disputa pelo comando do tráfico na Rocinha, no dia 17 de setembro. Na ocasião, criminosos ligados a Antonio Bonfim Lopes, o Nem, um dos cabeças da facção ADA (Amigos dos Amigos), teriam invadido a favela para tirar o controle do morro de Rogério 157, seu antigo aliado.

Uma hora após o tiroteio, por volta das 10h30, o veículo Fiat Fremont, onde estava a espanhola, rompeu o bloqueio policial no Largo do Boiadeiro, segundo informações da PM. Houve reação da guarnição, atingindo o veículo.

Durante a abordarem, informou a corporação por meio de nota, verificou-se que se tratava de um veículo para transporte de turistas. Ferida, a espanhola foi levada para o Miguel Couto, mas não resistiu. A Secretaria Municipal de Saúde confirmou que a vítima chegou à unidade de saúde sem vida.

Por meio de nota, a Secretaria de Estado de Segurança lamentou a morte da turista e disse acompanhar a apuração dos fatos junto à Corregedoria da Polícia Militar e à Divisão de Homicídios.

O Consulado da Espanha no Rio informou que uma equipe estava no começo da tarde no hospital Miguel Couto para apurar informações referentes ao caso. O crime repercute nos principais jornais da Espanha.

Os novos episódios de violência acontecem após um racha entre traficantes desencadear uma onda de violência na favela da Rocinha. Há um mês, em 22 de setembro, um tiroteio no principal acesso à comunidade, perto da autoestrada Lagoa-Barra, que liga as zonas sul e oeste da cidade, levou pânico a moradores. Naquela sexta-feira, o governo do Rio de Janeiro acionou as Forças Armadas, e militares fizeram um cerco por uma semana na Rocinha.

Agência deveria ter alertado, diz delegada

A agência de turismo contratada pela espanhola Maria Esperanza Ruiz Jimenez não alertou a estrangeira sobre a crise de violência na comunidade e o risco de confrontos armados, afirmou nesta segunda-feira a delegada Valéria Aragão.

"Foi dito tanto pelos turistas quanto pelo motorista que não houve um alerta em relação ao cenário", disse a delegada.

Por esse motivo, explicou a titular da Deat, a polícia vai apurar se há alguma possibilidade legal de responsabilizar a empresa de turismo. Nesse caso, os sócios da agência poderiam responder por homicídio culposo. "Vai ter que ser feito um estudo jurídico sobre essa possibilidade de imputação criminal. Existe também a possibilidade de imputação cível por parte dos familiares da vítima. Isso tudo vai ser estudado."

De acordo a delegada, a única informação que os espanhóis tinham é que se tratava de um passeio em uma comunidade. "Eles sabiam que era uma comunidade, mas desconheciam, pelo que foi dito por eles, que era uma área conflagrada. Eles entendiam que, como a comunidade é pacificada, que seria um cenário tranquilo, um território tranquilo para eles vasculharem."

Os depoimentos indicam, afirmou Valéria, que os turistas chegaram a se sentir mais seguros quando observaram a grande movimentação de policiais militares. "Eles viram muitos PMs circulando e se falando. Por isso eles até se sentiram mais seguros. Quando era exatamente o contrário."

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