Traficantes recebem ordem para esconder fuzis em casas de moradores no Rio

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

Traficantes do Complexo do São Carlos, na zona norte do Rio de Janeiro, receberam uma ordem de um dos chefes do crime organizado local para esconder fuzis em casas de moradores. A informação foi fornecida, segundo o subsecretário de Comando e Controle, Rodrigo Alves, por um dos 16 detidos na manhã desta sexta-feira (27) em operações de forças de segurança.

Homens da Polícia Civil, da Polícia Militar e das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) cercaram e fizeram buscas nas favelas São Carlos, Zinco, Querosene e Mineira, na região central da capital fluminense. Foram encontradas apenas quatro pistolas e um revólver, além de 111 munições, mas nenhum fuzil foi localizado.

Segundo Alves, a ordem para que os fuzis fossem ocultados foi dada por Leonardo Miranda da Silva, o Léo Empada, um dos gerentes das bocas de fumo do Complexo da São Carlos, que não foi preso. Ele é da facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), que é liderada pelo ex-chefe do tráfico na Rocinha (favela da zona sul carioca) Antônio Bonfim Lopes, o Nem, que atualmente está cumprindo pena no presídio federal de Rondônia.

Empada e outros traficantes leais a Nem participaram de uma tentativa de invasão à Rocinha, no mês passado, quando tentaram derrubar o grupo de Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, que assumiu o comando na região após a prisão do antecessor, em 2011.

Para o representante da Secretaria de Estado de Segurança Pública, o fato de as forças policiais não terem apreendido nesta manhã fuzil algum durante as incursões estaria diretamente relacionada à regra ditada pelo comando do tráfico. Isso porque, segundo ele, para entrar nas casas de moradores, é necessário requerer à Justiça mandados de busca e apreensão.

"Nós buscamos o trabalho em cima de uma polícia cidadã. Uma polícia que cumpra as leis e respeite as garantias individuais. E nós sabemos que cumprimos mandados de busca naqueles locais permitidos pela Justiça. A não apreensão de fuzis passa por isso. Passa pelo fato de haver uma estratégia da criminalidade em adotar esse tipo de conduta: esconder armas na casa de moradores sabendo que a polícia cumpre aqueles mandados que ela tem para cumprir", afirmou.

Alves sugeriu ainda que, a partir deste fato, seja feita uma ampla discussão a respeito da possibilidade de decretação de mandados de busca e apreensão coletivos. Com esse recurso, a polícia poderia vasculhar residências em determinadas áreas sem uma ordem judicial para um endereço específico. "O que a gente precisa avançar é uma discussão sobre se é necessário mandado de busca individual ou coletivo para determinadas regiões."

Críticos dessa proposta argumentam que ela poderia violar liberdades individuais e eventualmente gerar abusos.

Entre os presos na manhã desta sexta-feira estão quatro suspeitos capturados pela Dcod (Delegacia de Combate às Drogas) que, segundo investigações, teriam participado da tentativa de invasão à Rocinha --o episódio, que ocorreu em 17 de setembro, iniciou uma disputa entre os grupos rivais pelo controle do tráfico na comunidade, que se espalhou para outras favelas do Rio.

REGINALDO PIMENTA/RAW IMAGE/ESTADÃO CONTEÚDO
Fuzis apreendidos em favelas do Rio de Janeiro

Eles foram identificados como: Paulo Ricardo Mendes Nonato, Kelvin de Freitas Costa, Dener da Silva Freitas e Gabriel Teixeira Mendes. Todos confessaram fazer parte do chamado "Bonde do Mestre", grupo de criminosos leais a Nem.

Outros 12 suspeitos foram detidos durante as incursões pelo Complexo do São Carlos. No decorrer das ações, os policiais também seis veículos roubados.

Manga, o escolhido de Nem

Em entrevista para divulgar o balanço do cerco militar, Rodrigo Alves explicou que um outro foragido da polícia, Ramon Aleluia da Silva, o Manga, é o homem de confiança de Nem e apontado como segundo criminoso na hierarquia do "Bonde do Mestre".

"Se a tentativa de invasão tivesse dado certo, o Manga seria hoje o chefe da Rocinha. Ele foi escolhido pessoalmente pelo Nem", disse o subsecretário de Comando e Controle.

Um dos presos nas operações, Gabriel Teixeira Mendes, atuava como segurança de Manga, segundo apontam as investigações da Dcod. Ele e outros três suspeitos foram localizados em uma casa situada na divisa entre os morros do São Carlos e da Mineira, que fazem parte do mesmo complexo.

Segundo o CML (Comando Militar do Leste), 1.700 militares e dez carros blindados das Forças Armadas participaram do cerco às comunidades.

O papel das tropas fedeerais na operação é cercar as favelas e controlar os acessos --checando documentos e tentando impedir que suspeitos procurados saiam da região ou recebam reforços de outros criminosos de fora das favelas. Enquanto isso ocorre, os polícias do Estado (Civil e PM) entram na área para tentar realizar prisões e apreensões.

Os militares também fornecem informações de inteligência para apoiar os policiais.

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