Topo

Um adolescente é morto no mundo a cada sete minutos, diz Unicef

Ammar Safarjalani/Xinhua
Cidade da província de Homs, na Síria, após ação contra o Estado Islâmico. A região que engloba Oriente Médio e África do Norte é onde crianças e adolescentes mais morrem vítimas de conflitos armados Imagem: Ammar Safarjalani/Xinhua

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

31/10/2017 22h00

O número de homicídios de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos na América Latina e no Caribe é maior que o número de mortes do mesmo grupo de jovens resultantes de conflitos armados no Oriente Médio e no Norte da África. No mundo, uma criança ou adolescente de 10 a 19 anos é morto a cada 7 minutos.

Os dados fazem parte do relatório "Um Rosto Familiar: A violência nas vidas de crianças e adolescentes", lançado internacionalmente pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) nesta terça-feira (31).

O Unicef contabilizou os dados de mortalidade fornecidos por 183 países filiados à OMS (Organização Mundial da Saúde) com populações acima de 90 mil pessoas em 2015. Depois, sobre essa base, acrescentou novos dados e estabeleceu certos critérios. O estudo exclui casos de suicídio.

Na América Latina e Caribe, grupo com mais de 40 países ou territórios analisado conjuntamente, ao qual pertence o Brasil, foram registrados 24,5 mil homicídios de crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos em 2015.

No mesmo período, no Oriente Médio e no Norte da África, regiões com mais de 20 países estudadas em conjunto, foram mortos 22 mil jovens da mesma faixa etária por violência coletiva ou conflitos armados.

Isso significa que a violência indiscriminada na América Latina e Caribe já mata mais que conflitos formalmente deflagrados, como as guerras na Síria, Iraque e Afeganistão juntas, segundo o Unicef.

Rodrigo Abd/AP Photo
Bairro pobre de Caracas, na Venezuela. Desigualdade desencandeia violência, diz Unicef Imagem: Rodrigo Abd/AP Photo

Na América Latina e Caribe, a taxa de adolescentes mortos por grupo de 100 mil jovens da mesma faixa etária é de 22,1. As vítimas da violência latino-americana e caribenha foram majoritariamente adolescentes homens: taxa de 38,5 desses jovens assassinados por grupo de 100 mil da mesma idade, contra 5,1 das adolescentes mulheres.

Os conflitos no Oriente Médio e no Norte da África alcançaram o índice de 29,9 mortes de jovens por grupo de 100 mil e foram mortais tanto para meninos quanto para meninas: taxas de 35,6 mortes entre eles e de 23,9 entre elas.

Taxa de homicídios vem crescendo na América Latina e Caribe

Segundo o Unicef, o índice de homicídios na América Latina e Caribe é cinco vezes mais alto do que a média mundial, de 4,3 homicídios de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos por grupo de 100 mil jovens da mesma faixa etária.

No mundo, em 2015, 51,3 mil adolescentes foram vítimas de homicídio, quase metade (48%) na América Latina e Caribe. Isso, ressalta o Unicef, embora a região reúna pouco menos de 10% da população total de jovens entre 10 e 19 anos do planeta. Nas contas da entidade, são assassinados 70 jovens latino-americanos ou caribenhos por dia.

Vítimas letais de violência coletiva (guerras e repressões armadas) somaram 31 mil em 2015 (71% delas no Oriente Médio e Norte da África).

No mundo, portanto, foram 82,6 mil mortes de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos em 2015, na contabilidade do Unicef. Das mortes totais de jovens dessa faixa etária, 62% foram homicídios, o que equivale a dizer que dois de cada três desses jovens morreram assassinados.

O Unicef frisa que América Latina e Caribe é, comparativamente, a única região do mundo em que a taxa de homicídio vem subindo ano a ano, desde 2007.

 Yan Boechat/Folhapress
Refugiados de guerra, em Mossul (Iraque). Crianças são vítimas também Imagem: Yan Boechat/Folhapress

Outras violências contra adolescentes

O relatório "Um Rosto Familiar: A violência nas vidas de crianças e adolescentes" também traz dados internacionais de violência doméstica, sexual e na escola contra jovens.

São estes alguns deles:

Violência contra crianças em suas casas:

  • Três quartos das crianças de 2 a 4 anos do mundo -- cerca de 300 milhões -- sofrem agressão psicológica e/ou punição física por seus cuidadores em casa.
  • No planeta, uma em cada quatro crianças menores de cinco anos -- 177 milhões -- vivem com uma mãe vítima de violência doméstica.

Violência sexual contra meninas e meninos:

  • Em 38 países com renda baixa ou média, 17 milhões de mulheres adultas disseram ter sido vítimas de sexo forçado na infância.
  • Em todo o mundo, 15 milhões de adolescentes meninas, de 15 a 19 anos, foram vítimas de relações sexuais ou outros atos sexuais forçados em algum momento de sua vida.

Mortes violentas entre adolescentes:

  • Nos Estados Unidos, os negros de 10 a 19 anos são quase 19 vezes mais propensos a ser assassinados do que meninos brancos da mesma idade.
  • As adolescentes negras norte-americanas têm cinco vezes mais risco de ser assassinadas do que as adolescentes brancas.

Violência nas escolas:

  • 732 milhões de crianças em idade escolar (6 a 17 anos) -- metade do total -- vivem em países onde o castigo corporal na escola não está totalmente proibido.
  • No planeta, 130 milhões de estudantes entre 13 e 15 anos (um em cada três) foram vítimas de bullying.

Orlando Sierra/AFP Photo
Apreensão de munição em Tegucigalpa, Honduras. Livre circulação de armas alimenta criminalidade Imagem: Orlando Sierra/AFP Photo

"Situação preocupante em nível global"

"O relatório mostra uma situação preocupante em nível global. Todos os países necessitam envidar [realizar] esforços para prevenir e combater a violência, que é uma das metas do Desenvolvimento Sustentável", afirma Casemira Benge, coordenadora do programa de política à criança do Unicef Brasil.

Ela se refere aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e 169 metas para até 2030, lançados em setembro de 2015 pelos países-membros da ONU (Organização das Nações Unidas). Entre as metas assumidas, estão a de "reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade relacionada em todos os lugares" e "acabar com abuso, exploração, tráfico e todas as formas de violência e tortura contra crianças".

Segundo Benge, "é preciso combater a naturalização da violência, as práticas sociais que a perpetuam" no mundo de forma conjunta, unindo Estados e sociedade civil, uma vez que suas origens têm abrangência global, como a desigualdade social e econômica e o tráfico de armas e de drogas.

A coordenadora do Unicef Brasil também pede o aprimoramento dos sistemas de coleta de dados sobre violência nos países, hoje deficiente em grande parte do globo. "Assim daremos mais evidência e enfrentaremos o problema da violência de uma forma séria."