Um adolescente é morto no mundo a cada sete minutos, diz Unicef

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Ammar Safarjalani/Xinhua

    Cidade da província de Homs, na Síria, após ação contra o Estado Islâmico. A região que engloba Oriente Médio e África do Norte é onde crianças e adolescentes mais morrem vítimas de conflitos armados

    Cidade da província de Homs, na Síria, após ação contra o Estado Islâmico. A região que engloba Oriente Médio e África do Norte é onde crianças e adolescentes mais morrem vítimas de conflitos armados

O número de homicídios de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos na América Latina e no Caribe é maior que o número de mortes do mesmo grupo de jovens resultantes de conflitos armados no Oriente Médio e no Norte da África. No mundo, uma criança ou adolescente de 10 a 19 anos é morto a cada 7 minutos.

Os dados fazem parte do relatório "Um Rosto Familiar: A violência nas vidas de crianças e adolescentes", lançado internacionalmente pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) nesta terça-feira (31).

O Unicef contabilizou os dados de mortalidade fornecidos por 183 países filiados à OMS (Organização Mundial da Saúde) com populações acima de 90 mil pessoas em 2015. Depois, sobre essa base, acrescentou novos dados e estabeleceu certos critérios. O estudo exclui casos de suicídio.

Na América Latina e Caribe, grupo com mais de 40 países ou territórios analisado conjuntamente, ao qual pertence o Brasil, foram registrados 24,5 mil homicídios de crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos em 2015.

No mesmo período, no Oriente Médio e no Norte da África, regiões com mais de 20 países estudadas em conjunto, foram mortos 22 mil jovens da mesma faixa etária por violência coletiva ou conflitos armados.

Isso significa que a violência indiscriminada na América Latina e Caribe já mata mais que conflitos formalmente deflagrados, como as guerras na Síria, Iraque e Afeganistão juntas, segundo o Unicef.

Rodrigo Abd/AP Photo
Bairro pobre de Caracas, na Venezuela. Desigualdade desencandeia violência, diz Unicef

Na América Latina e Caribe, a taxa de adolescentes mortos por grupo de 100 mil jovens da mesma faixa etária é de 22,1. As vítimas da violência latino-americana e caribenha foram majoritariamente adolescentes homens: taxa de 38,5 desses jovens assassinados por grupo de 100 mil da mesma idade, contra 5,1 das adolescentes mulheres.

Os conflitos no Oriente Médio e no Norte da África alcançaram o índice de 29,9 mortes de jovens por grupo de 100 mil e foram mortais tanto para meninos quanto para meninas: taxas de 35,6 mortes entre eles e de 23,9 entre elas.

Taxa de homicídios vem crescendo na América Latina e Caribe

Segundo o Unicef, o índice de homicídios na América Latina e Caribe é cinco vezes mais alto do que a média mundial, de 4,3 homicídios de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos por grupo de 100 mil jovens da mesma faixa etária.

No mundo, em 2015, 51,3 mil adolescentes foram vítimas de homicídio, quase metade (48%) na América Latina e Caribe. Isso, ressalta o Unicef, embora a região reúna pouco menos de 10% da população total de jovens entre 10 e 19 anos do planeta. Nas contas da entidade, são assassinados 70 jovens latino-americanos ou caribenhos por dia.

Vítimas letais de violência coletiva (guerras e repressões armadas) somaram 31 mil em 2015 (71% delas no Oriente Médio e Norte da África).

No mundo, portanto, foram 82,6 mil mortes de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos em 2015, na contabilidade do Unicef. Das mortes totais de jovens dessa faixa etária, 62% foram homicídios, o que equivale a dizer que dois de cada três desses jovens morreram assassinados.

O Unicef frisa que América Latina e Caribe é, comparativamente, a única região do mundo em que a taxa de homicídio vem subindo ano a ano, desde 2007.

Yan Boechat/Folhapress
Refugiados de guerra, em Mossul (Iraque). Crianças são vítimas também

Outras violências contra adolescentes

O relatório "Um Rosto Familiar: A violência nas vidas de crianças e adolescentes" também traz dados internacionais de violência doméstica, sexual e na escola contra jovens.

São estes alguns deles:

Violência contra crianças em suas casas:

  • Três quartos das crianças de 2 a 4 anos do mundo -- cerca de 300 milhões -- sofrem agressão psicológica e/ou punição física por seus cuidadores em casa.
  • No planeta, uma em cada quatro crianças menores de cinco anos -- 177 milhões -- vivem com uma mãe vítima de violência doméstica.

Violência sexual contra meninas e meninos:

  • Em 38 países com renda baixa ou média, 17 milhões de mulheres adultas disseram ter sido vítimas de sexo forçado na infância.
  • Em todo o mundo, 15 milhões de adolescentes meninas, de 15 a 19 anos, foram vítimas de relações sexuais ou outros atos sexuais forçados em algum momento de sua vida.

Mortes violentas entre adolescentes:

  • Nos Estados Unidos, os negros de 10 a 19 anos são quase 19 vezes mais propensos a ser assassinados do que meninos brancos da mesma idade.
  • As adolescentes negras norte-americanas têm cinco vezes mais risco de ser assassinadas do que as adolescentes brancas.

Violência nas escolas:

  • 732 milhões de crianças em idade escolar (6 a 17 anos) -- metade do total -- vivem em países onde o castigo corporal na escola não está totalmente proibido.
  • No planeta, 130 milhões de estudantes entre 13 e 15 anos (um em cada três) foram vítimas de bullying.

Orlando Sierra/AFP Photo
Apreensão de munição em Tegucigalpa, Honduras. Livre circulação de armas alimenta criminalidade

"Situação preocupante em nível global"

"O relatório mostra uma situação preocupante em nível global. Todos os países necessitam envidar [realizar] esforços para prevenir e combater a violência, que é uma das metas do Desenvolvimento Sustentável", afirma Casemira Benge, coordenadora do programa de política à criança do Unicef Brasil.

Ela se refere aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e 169 metas para até 2030, lançados em setembro de 2015 pelos países-membros da ONU (Organização das Nações Unidas). Entre as metas assumidas, estão a de "reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade relacionada em todos os lugares" e "acabar com abuso, exploração, tráfico e todas as formas de violência e tortura contra crianças".

Segundo Benge, "é preciso combater a naturalização da violência, as práticas sociais que a perpetuam" no mundo de forma conjunta, unindo Estados e sociedade civil, uma vez que suas origens têm abrangência global, como a desigualdade social e econômica e o tráfico de armas e de drogas.

A coordenadora do Unicef Brasil também pede o aprimoramento dos sistemas de coleta de dados sobre violência nos países, hoje deficiente em grande parte do globo. "Assim daremos mais evidência e enfrentaremos o problema da violência de uma forma séria."

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