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"Pedimos educação, vem Caveirão": para jovens de favelas, intervenção não leva à segurança

20.fev.2018 - Forças Armadas fazem ação na favela Kelson"s, na zona norte do Rio - Márcio Alves/Agência O Globo
20.fev.2018 - Forças Armadas fazem ação na favela Kelson's, na zona norte do Rio Imagem: Márcio Alves/Agência O Globo

Lola Ferreira

Colaboração para o UOL, no Rio

23/02/2018 04h00

Investimentos em educação e programas sociais que possam afastar a juventude de favelas do Rio de Janeiro do tráfico de drogas são mais efetivos no combate à violência do que a intervenção federal na segurança do Estado. A opinião é de jovens lideranças da Cidade de Deus, Complexo do Alemão, Complexo do Maré e de Mesquita, na Baixada Fluminense, localidades que somam cerca de 500 mil habitantes, ouvidos pelo UOL.

Entre eles, é consenso: a solução para os problemas de segurança no Rio passa longe da intervenção federal.

Para Noemy Farneze, 21, moradora da Cidade de Deus, qualquer medida que gire em torno de aumentar o policiamento ostensivo gera apreensão e medo.

“É um sentimento opressor, que nos faz regredir milhares de anos de conquistas dos nossos direitos e principalmente em quesito de igualdade. Embora não tenhamos nada a temer, há uma sensação de violação dos nossos direitos quando mandados de busca coletiva são emitidos, permitindo a entrada dos militares nas residências”, diz a jovem que é responsável pelo "CDD na Web", veículo eletrônico de comunicação para moradores da comunidade.

Estudante de enfermagem, Noemy diz acreditar que a educação é o caminho fundamental para solucionar os problemas de violência urbana no Rio de Janeiro.

Não há relacionamento entre a comunidade e as forças de segurança. Não há comunicação entre nós. A gente pede educação, vem caveirão. A gente pede saúde, vem caveirão. Acredito que a oportunidade através de educação é um fator primordial e essencial para a evolução.

Noemy Farneze, moradora da Cidade de Deus

Repressão policial e preconceito

Morador de Mesquita, Caio César, 23, concorda que a educação é um caminho, mas não o único. Ele aponta que a falta de investimentos na área resulta em jovens sem perspectiva de um futuro diferente daquele que bate à porta, mas que a guerra às drogas é a principal causa do cenário do Rio hoje.

O ponto principal na luta contra a violência é a urgente descriminalização das drogas, onde o Estado passa a ver o problema não mais como questão de segurança, mas de saúde pública.

Caio César, morador de Mesquita

Caio é professor de geografia em um pré-vestibular comunitário, e também leva para escolas públicas de favelas da região debates sobre encarceramento e a figura do homem negro. Para ele, os efeitos da intervenção federal são secundários na Baixada Fluminense em comparação às comunidades da capital, mas também podem ser sentidos.

“A consequência que recai sobre nós, já observada em outras ocasiões --como na época das UPPs-- é a grande migração dos traficantes dos morros da cidade do Rio de Janeiro para as cidades da Baixada Fluminense, fazendo com que a violência seja aumentada e, consequentemente, a repressão policial também.”

Noemy Farneze, 21, moradora da Cidade de Deus - Reprodução - Reprodução
Para Noemy Farneze, moradora da CDD, a educação é o caminho contra a violência
Imagem: Reprodução

A repressão policial, para ele, é um problema ainda maior para homens e mulheres negras. “Nós crescemos vendo e ouvindo histórias de pessoas próximas, amigos, parentes que sofreram agressões graves ou até foram mortos em abordagens policiais injustas. Então é uma preocupação infelizmente natural que já nos é ensinada em casa mesmo”, diz Caio, que é a favor da ampla divulgação de recomendações sobre como se portar diante de uma abordagem policial.

Nesta semana, um vídeo feito por três jovens negros com orientações desse tipo viralizou nas redes sociais. Para David Gomes, 26, morador do Alemão, a explicação dada nas imagens não é novidade para moradores de periferia.

“Esse movimento é resultado de uma sociedade extremamente racista, um racismo que às vezes é sutil, mas que é bem escancarado quando se trata da relação das forças repressivas do Estado com a população negra”, destaca o estudante de história.

Já a moradora da Maré Lidiane Malanquini, 29, afirma que esse tipo de prática é uma forma de normalizar as ações das forças de segurança. “Temos que voltar atrás e afirmar que não são normais, que isso não pode acontecer e que tais ações significam violação de direitos. Temos que tentar reverter essa ação”, afirma.

Pacto de segurança e investimento em jovens da favela

Lidiane, que coordena o eixo de segurança pública e acesso à justiça da ONG Redes da Maré, avalia que a intervenção federal é um entendimento raso do que é a segurança pública no Rio de Janeiro hoje.

“O que eu vejo é uma confusão. Então, diante do problema da segurança, elegemos alguém para resolvê-lo. Talvez o caminho seja voltar ao pacto do que é segurança pública, revisitar o que é este pacto. Qual é o papel das esferas? Como elas podem dialogar?”, afirma ela.

David aponta o combate ao tráfico de armas, a descriminalização das drogas, a investigação sobre a possível relação de políticos com o tráfico de drogas e a desmilitarização da polícia como elementos essenciais para a mudança na segurança pública. Além destes, ele destaca outro ponto fundamental.

O investimento massivo em programas sociais para a juventude nas favelas, com a finalidade de acabar com o exército de mão de obra barata da qual o tráfico dispõe. Todas essas medidas são de médio e longo prazo, mas muito mais efetivas se aplicadas em conjunto que uma intervenção militar

David Gomes, morador do Alemão

Para o estudante, os moradores do Alemão não suportam mais se relacionar com forças de repressão.

“O que queremos é nos relacionar com professores de um CIEP, com médicos de hospitais públicos bem estruturados, com mestres de artes marciais, com técnicos de escolinhas de futebol, com maestros de orquestras sinfônicas, enfim, com o resto do Estado que a maioria de nós nunca teve acesso”, finaliza.

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