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Polícia e interventores apostam em sigilo para tentar elucidar morte de Marielle

Câmera gravou carro saindo atrás do veículo onde estava Marielle Franco - Reprodução/Globo News
Câmera gravou carro saindo atrás do veículo onde estava Marielle Franco Imagem: Reprodução/Globo News

Luís Adorno e Luis Kawaguti

Do UOL, em São Paulo e no Rio

21/03/2018 04h00

A polícia do Rio de Janeiro está apostando no sigilo das investigações para tentar elucidar o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes. Até agora, a maior parte das informações que se tornaram públicas não dão muitas pistas sobre quem cometeu o crime e qual foi sua motivação.

A falta de resultados uma semana após o crime pode sinalizar que a polícia não esteja tendo sucesso. Mas segundo analistas ouvidos pelo UOL, o mistério que ronda o caso não significa necessariamente que os policiais não estejam avançando. Para eles, contudo, o vazamento de técnicas de apuração e indícios é prejudicial, pois pode influenciar os próximos passos dos criminosos.

Desde a noite da última quarta-feira (14), quando o crime aconteceu, a Delegacia de Homicídios e a cúpula da intervenção federal não deram detalhes sobre a investigação.

Uma das informações vazadas sobre a investigação do caso é a de que Marielle foi vítima de uma emboscada e não de uma tentativa de roubo comum. Anderson morreu porque estava junto com ela. Uma assessora da vereadora ficou apenas ferida por estilhaços. 

Também foram reveladas imagens da perseguição de dois carros ao veículo da parlamentar e informações sobre o lote da munição utilizada no crime, além do relato da sobrevivente do ataque.

Rafael Alcadipani, professor de Gestão Pública na FGV (Fundação Getúlio Vargas) e que pesquisa as ações das polícias, afirmou que, em linhas gerais, as investigações de casos como esse devem se concentrar em três aspectos: imagens do crime gravadas por câmeras, comunicações por telefone celular e a possível motivação do assassinato.

Imagens

As imagens de câmeras de segurança divulgadas mostram dois carros seguindo o veículo onde estava a vereadora. Elas mostram que os bandidos esperaram Marielle sair de uma reunião política para segui-la e atacá-la em uma região mais vazia da região central do Rio.

Não se sabe, porém, se esses carros já foram localizados pela polícia e se a forma como foram obtidos geraram mais pistas. Investigadores relatam que os criminosos escolheram um "ponto cego" --local sem câmeras-- para cometer o crime.

Celular

Uma das possibilidades para se chegar aos autores do crime é rastrear telefonemas que eles tenham feito antes, na hora do crime ou depois da ação. Em tese, é possível identificar chamadas que tenham sido feitas na região do crime pelos bandidos, mas não se consegue saber o que eles falaram na hora da ação.

Outro fator que pode tornar a investigação mais complexa é o uso pelos criminosos de aplicativos como o Whatsapp, que usa mensagens criptografadas. Até agora não foram reveladas informações sobre essa linha de investigação.

Motivação

Sabe-se que Marielle fez denúncias em redes sociais contra supostos abusos de policiais do 41º Batalhão da Polícia Militar de Acari --seus colegas de partido dizem que ela não vinha recebendo ameaças.

A polícia investiga possíveis motivações principalmente ouvindo amigos e parentes da vítima, mas o conteúdo desses depoimentos está sob sigilo.

Na Divisão de Homicídios, policias sequer disseram à reportagem quantas pessoas já foram ouvidas até agora.

Vazamentos

Uma das informações vazadas da investigação revelaram que a munição de calibre 9 mm usada no assassinato pertencia a um lote desviado da Polícia Federal. Mas, o deputado federal Chico Alencar (PSOL), que discutiu o caso com a equipe de intervenção, disse que membros do Gabinete de Intervenção Federal teriam afirmado que, por se tratar de um lote com milhares de munições desviado há muitos anos, essa informação não estaria contribuindo muito com a investigação.

Alencar e outros cerca de 20 parlamentares se reuniram com a cúpula da intervenção na última segunda-feira (19) e discutiram o caso.

O relato do encontro de um suposto carro usado no crime ter sido achado em Minas Gerais não se provou verdadeiro e o relato da única sobrevivente do crime --que foi publicado pela imprensa-- dá conta que o crime teve características de emboscada, mas não dá pistas sobre motivação ou autores.

Especialistas criticam até mesmo esse tipo de vazamento.

"A investigação é sigilosa. Esses vazamentos, que podem incluir agentes do Estado, se você adiantar ou vazar que está interceptando telefone, por exemplo, o cara não fala mais no telefone", disse o presidente do Sindicato dos Delegados do Rio, Rafael Barcia.

"A gente tem que ter muito cuidado para não vazar nada porque atrapalha demais a investigação. Tenho muitos amigos na delegacia. Pelo que conversei com eles, há uma linha coerente de investigação que está dando diversas respostas positivas. Acredito que não vai demorar muito. Mas é preciso manter a calma durante a investigação", complementou o delegado.

Segundo ele, é preciso entender que toda a investigação tem seu tempo e não pode ser influenciada pela ansiedade das pessoas por novidades.

Deputados que estiveram na reunião com o interventor e fontes militares ouvidas pelo UOL afirmaram que essa mesma explicação foi dada aos parlamentares quando eles demonstraram ansiedade pelo esclarecimento do crime. A equipe do general Walter Braga Netto teria argumentado que a investigação de um outro crime de repercussão, o assassinato da juíza Patrícia Acioli, em 2011, demorou cerca de 60 dias para gerar resultados e, no fim, suspeitos foram condenados.

Um outro delegado, da Delegacia Geral do Rio, informou à reportagem, sob anonimato, também ser contra qualquer tipo de vazamento em qualquer investigação criminal.

"Há um limite. Essas técnicas de investigação, a partir do momento que tornam isso conhecido, acabam dando informações para quem comete crimes. Todo mundo tem interesse sobre isso, de ler sobre isso, mas você acaba instruindo o criminoso quando divulga essas técnicas", disse.

A reportagem do UOL procurou as assessorias de imprensa da Polícia Civil e da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro sobre a questão dos vazamentos, mas ainda não obteve retorno.

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Arthur Trindade é ex-militar, ex-secretário de Segurança Pública do DF, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor de sociologia da UnB (Universidade de Brasília). Para ele, "se a Polícia Civil do Rio não conseguir elucidar esse crime [da Marielle], ninguém vai conseguir".

"A PF vai desembarcar no aeroporto e fazer o quê? Investigação tem que conhecer a área, tem que ter os contatos. A gente tem que dar um crédito e um bom crédito para o trabalho deles [Polícia Civil]. Eles são competentes. Ponto", afirmou Trindade.

Para o especialista, o crime é de difícil investigação, porque aparentemente foi cometido por "profissionais". "Profissionais não só de matar, mas também de ocultar prova, misturar pistas. A PF [Polícia Federal] e MPF [Ministério Público Federal] podem participar, mas nenhum deles vai poder substituir a expertise que a Polícia Civil tem no Rio, para coletar provas, assumir linhas e filosofia de investigação", afirmou.

"Este caso está tendo muita repercussão na mídia e isso não é positivo. As técnicas têm de ser sigilosas", disse Alcadipani.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Pistas sobre o assassinato

O Disque Denúncia informa que já recebeu 40 denúncias sobre o caso e encaminhou tudo para a polícia. O anonimato é garantido.

Quem tiver qualquer informação a respeito da identificação e localização dos assassinos pode usar os seguintes canais para denunciar:

  • Whatsapp ou Telegram: (21) 98849-6099
  • Central de Atendimento do Disque Denúncia: (21) 2253-1177

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