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Balas usadas na maior chacina de SP são do mesmo lote sob investigação no caso Marielle

Perito apreende itens ao lado de carro onde vereadora foi assassinada - Leo Correa/AP Photo
Perito apreende itens ao lado de carro onde vereadora foi assassinada Imagem: Leo Correa/AP Photo

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

16/03/2018 14h04Atualizada em 16/03/2018 17h28

Munições usadas na maior chacina de São Paulo são do mesmo lote de balas que teriam sido utilizadas no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes na última quarta (14), no Rio de Janeiro. Segundo os autos do processo, balas usadas no crime de agosto de 2015, quando 23 pessoas foram mortas a tiros, são do lote UZZ-18, extraviado da Polícia Federal. A corporação informou nesta sexta-feira (16) que investiga se as munições desse lote foram usadas para matar Marielle e Anderson.

Segundo informações da TV Globo, balas calibre 9 mm encontradas ao lado dos corpos na região central do Rio são do lote UZZ-18, vendido à PF de Brasília em 2006. Uma fonte ligada à investigação confirmou o fato ao UOL.

Marielle foi atingida quatro vezes na cabeça, em homicídio doloso (com intenção de matar), na noite de quarta-feira (14).

"De fato, esse lote foi vendido para a PF de Brasília, se não me engano, entre o fim de 2006 e o início de 2007", afirmou um delegado paulista, que pediu para não ser identificado sob o argumento de que o caso da Grande São Paulo foi "um pesadelo" em sua vida.

O promotor Marcelo de Oliveira, que atuou no júri da maior chacina de SP, afirmou que, durante os depoimentos das testemunhas, um capitão reformado do Exército chegou a mencionar que um sargento foi demitido porque tinha extraviado munição para o Rio.

Atual corregedor da PM (Polícia Militar) de SP, o coronel Marcelino Fernandes informou que, apesar da constatação do mesmo lote, isso não significa que forças de segurança foram as autoras da morte de Marielle e de seu motorista, Anderson Gomes.

"O que você tem de lote extraviado... É apenas um indício de que pode ser de forças regulares. Eu já tive situação em que o executor atirou com o revólver 38. Na sequência, ele deixou no local do crime cápsulas de .40, da PM, mas ele não esperava que isso estava sendo gravado por uma câmera de uma loja de tintas", exemplificou. 

Marielle e Anderson foram mortos com por munição calibre 9 mm, que não pode ser vendida à população. A munição só pode ser adquirida legalmente por colecionadores, atiradores esportivos e forças de segurança, mas é vendida com poucas restrições no Paraguai e entra no Brasil ilegalmente. 

Em nota, a PF informou que, além da investigação conduzida pela Polícia Civil pelo crime de homicídio, foi instaurado inquérito no âmbito da PF para apurar a origem das munições e as circunstâncias envolvendo as cápsulas encontradas no local do crime.

"A Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro e a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro reiteram o seu compromisso de trabalhar em conjunto para a elucidação de todos os fatos envolvendo os homicídios da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes, ocorrido na noite da última quarta-feira, no Rio de Janeiro", informou.

A maior chacina de SP

Ao todo, 23 pessoas foram mortas nos dias 8 e 13 de agosto de 2015 nas cidades de Osasco, Barueri, Itapevi e Carapicuíba, na Grande São Paulo. Segundo a Promotoria e a Polícia Civil, os crimes ocorreram por retaliação às mortes de um policial militar e de um guarda municipal.

De acordo com relatório do TJM (Tribunal de Justiça Militar), os acusados integravam uma milícia paramilitar. No dia 8 de agosto daquele ano, seis pessoas foram mortas a tiros. Cinco dias mais tarde, outras 17 foram assassinadas, na mesma região.

Ao todo, oito pessoas foram indiciadas por suspeita de envolvimento nos crimes: sete PMs e um guarda civil. Em setembro do ano passado, foram condenados a penas que, juntas, ultrapassam 600 anos de prisão os policiais militares Fabrício Eleutério e Thiago Henklain, além do guarda municipal Sérgio Manhanhã.

Em março de 2018, outro PM, Victor Cristilder, foi condenado a mais de 119 anos de prisão. A defesa dos quatro condenados sempre alegou que seus clientes eram inocentes, tanto na participação efetiva nos assassinatos como na estratégia/facilitação dos crimes.

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