Violência em São Paulo

Alckmin demite ex-capelão da PM condenado por desviar dinheiro de fiéis

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

  • Jorge Araujo/Folhapress

    19.jul.2012 - Enquanto tenente-coronel, padre Osvaldo Palópito celebrava missa na capela de Santo Expedito da Polícia Militar, na Luz, centro da capital paulista

    19.jul.2012 - Enquanto tenente-coronel, padre Osvaldo Palópito celebrava missa na capela de Santo Expedito da Polícia Militar, na Luz, centro da capital paulista

Em um dos seus últimos atos na segurança pública de São Paulo como governador, Geraldo Alckmin (PSDB) decretou a demissão do padre e coronel da reserva da PM (Polícia Militar) Osvaldo Palópito, condenado em outubro de 2016 a 26 anos de prisão por desviar cerca de R$ 2 milhões de fiéis que frequentavam a capela da corporação, na Luz, centro da capital paulista.

Enquanto tenente-coronel, Palópito era também capelão da PM de São Paulo. Padre da igreja católica, Palópito entrou para a PM por meio de concurso, sendo que outros padres também concorreram ao cargo. Aprovado, ganhou a patente de segundo-tenente e fez carreira na corporação.

A Justiça Militar o condenou pelos crimes de peculato (desvio de dinheiro público), falsidade ideológica, abandono de posto e exercício de comércio por oficial. O decreto de Alckmin foi publicado nesta quarta-feira (4) no Diário Oficial do Estado. Nele, o governador aponta que o "Conselho de Justificação julgou indigno para o oficialato".

Mesmo condenado, Palópito, que aguarda recurso em liberdade, continuava recebendo R$ 8.800 ao mês pelo cargo de coronel aposentado. Com a decisão decretada por Alckmin, que deixa o cargo esta semana para disputar a Presidência, o ex-capelão da PM vai deixar de receber os vencimentos.

O advogado liezer Pereira Martins afirmou à reportagem que o decreto do governador é inconstitucional ao caçar a aposentadoria do coronel da reserva.

"Isso é confisco. Essa pena foi aplicada em sede de ativismo social dos juízes leigos do Tribunal de Justiça Militar", afirmou o advogado, que disse estar entrado com recurso especial no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e com recurso extraordinário no STF (Supremo Tribunal Federal). "A Justiça Militar é incompetente para julgar esses desvios. A competência era da Justiça Comum", disse.

A decisão de instaurar o inquérito foi tomada pelo coronel Levy Anastácio Félix, então comandante da Corregedoria, que suspeitava que o então capelão tinha enriquecimento ilícito e de desvios de dinheiro a partir de 2009.

"Pode ter sido alguém que tinha a intenção de pegar meu lugar"

Segundo o MP (Ministério Público), naquele ano, Palópito abriu uma conta no Bradesco em nome de "Mitra do Ordinariado Militar do Brasil". A investigação descobriu que a conta, no entanto, não pertencia à instituição e era administrada pelo padre, sem ser submetida a qualquer tipo de controle da PM.

Nessa conta, eram feitos depósitos regulares de dinheiro recebido de doações de fiéis que frequentavam a igreja. Entre os frequentadores, estavam civis e policiais militares. Na campanha de 2012 à prefeitura, um dos candidatos, Celso Russomano, chegou a acompanhar uma missa no local.

De acordo com a denúncia da Promotoria, o dinheiro era movimentado por Palópito e por outras duas pessoas: Edson Moreira Costa, que atuava como contador, e Terezinha Silva Barbosa, que trabalhava na administração paroquial. Costa e Barbosa não foram réus no mesmo processo porque são civis e não respondem à Justiça Militar.

À época da condenação, a defesa do ex-capelão sustentava que Costa e Terezinha foram os únicos responsáveis pelos desvios. Segundo os advogados de Palópito, uma perícia provou que a assinatura dele foi adulterada. Para a defesa, o coronel da reserva não estava ciente dos desvios.

Ainda segundo a acusação, com o dinheiro desviado, Palópito teria comprado um estabelecimento comercial e uma cobertura em Bertioga, no litoral de São Paulo. O comércio está registrado no nome de uma amiga do ex-capelão. Pelas acusações, o padre ficou quatro meses preso no presídio militar Romão Gomes, zona norte da capital paulista.

Antes do caso vir à tona, Palópito chegou a gravar seis discos de canções religiosas e fazia shows. Após a revelação da história, o então comandante-geral da PM, coronel Ricardo Gambaroni, decidiu acabar com o cargo de capelão militar. Com isso, a vaga do padre Palópito foi transferida para o quadro de oficiais.

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