Violência no Rio

Violência no Rio desvaloriza imóveis em bairro sob disputa entre milicianos e traficantes

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Leo Martins/Agência O Globo

    Na Praça Seca, proprietários veem imóveis desvalorizar por conta da violência

    Na Praça Seca, proprietários veem imóveis desvalorizar por conta da violência

Um levantamento do Sindicato da Habitação (Secovi) do Rio mostra que os episódios frequentes de violência na cidade levaram à desvalorização de imóveis na região da Praça Seca, na zona oeste.

O bairro sofre desde o final do ano passado com a guerra entre traficantes e milicianos e tem registrado confrontos quase que diários.

Na semana passada, passageiros do BRT (Bus Rapid Transit) tiveram que se jogar no chão no ônibus para se proteger dos tiros que cruzavam a principal via do bairro: a rua Cândido Benício.

O bairro chegou a registrar 20% de valorização no valor dos imóveis em 2012 e, hoje, acumula quedas significativas. Nos últimos três anos, o valor do metro quadrado caiu 9%, ou seja, saiu de R$ 4.190, em março de 2015, para R$ 3.807 neste ano. 

Para o vice-presidente do Secovi Rio, Leonardo Schneider, a desvalorização no bairro está totalmente ligada ao problema de segurança. "A crise econômica e o desemprego, sem dúvida, são um agente complicador, mas, na Praça Seca, as pessoas não conseguem entrar e sair de casa com segurança. Isso acarreta uma saída de moradores e consequentemente o aumento no número de imóveis vagos", explicou.

Leo Martins/Agência O Globo
Imóvel para alugar na rua Cândido Benício, nas proximidades da Praça Seca

Quem planeja fugir da insegurança esbarra em um problema: a dificuldade para vender ou alugar o imóvel.

É o caso da empresária Sami Coler, que, desde 2010, mora na Praça Seca. Há dois anos tenta vender o apartamento da família e não consegue. "Comprei apostando que seria um investimento. Agora quero sair e não consigo vender. Passa ano, entra ano e o valor só cai", conta ela.

"Um corretor chegou a me dizer que não venderia nunca pelo preço de R$ 320 mil. É um apartamento de dois quartos, reformado, com móveis planejados, em um prédio com piscina, academia, salão gourmet e espaço infantil. Ele me disse que a corretora não conseguia vender nem por R$ 300 mil hoje em dia. Fiquei revoltada."

Alugar não serve como saída. Apenas no mês passado foi registrada queda de 8,3% no valor do aluguel.

"As pessoas já procuravam oferecendo valores de aluguel lá em baixo. No início, resisti. Mas, depois de seis meses com apartamento vazio, resolvi alugar por R$ 400 a menos. Melhor do que ficar com o imóvel vazio", disse o comerciante Rogério Souza, 53.

Leo Martins/Agência O Globo
Praça Seca teve queda no valor de imóveis por conta de episódios de violência

Menos vendas e mais desemprego

Além de afetar diretamente proprietários e locatários, imobiliárias da região sofrem. A reportagem conversou com dois diretores de imobiliárias, mas nenhum deles quis se identificar, com medo de prejudicar ainda mais os negócios.

OTT- RJ
Tiroteio no Rio faz passageiros de ônibus se protegerem dentro do veículo
Um diretor disse que o número de vendas caiu de 50 para 2 no último ano. Com isso, ele precisou demitir funcionários. Em 2017, a empresa contava com 20 profissionais. Hoje, dois se revezam nos turnos da manhã e da tarde.

"Os tiroteios são diários. Ninguém quer viver em um bairro assim", avalia o diretor.

Na segunda imobiliária, houve redução nas vendas de 70 para 3. Foram 15 funcionários dispensados somente neste ano.

A Praça Seca, na zona oeste, fica a 20 km da Barra da Tijuca, onde foi a sede de grande parte dos jogos da Olimpíada de 2016.

O confronto na região se acirrou no fim do ano passado com a disputa entre milicianos e traficantes nas comunidades da Chacrinha e do Bateau Mouche, separadas pela rua Cândido Benício.

José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
Em março, policiais fazem patrulhamento após um intenso confronto com criminosos do Bateau Mouche

O tráfico domina a parte alta do Bateau Mouche e quer aumentar seus domínios. Já os milicianos, baseados na Chacrinha, exigem taxas de moradores da parte baixa da comunidade e tentam recuperar o Bateau Mouche.

Os tiroteios são frequentes no local, que já registrou 17 horas de troca de tiros.

José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
Carro atingido por tiroteio na favela Bateau Mouche, na Praça Seca, em março

A região em números 

De acordo com dados divulgados pelo ISP (Instituto de Segurança Pública), a região da Praça Seca registrou, nos dois primeiros meses deste ano, 332 ocorrências de roubo (registradas em delegacia). O número corresponde a mais de cinco roubos por dia na região.

Roubos a pedestre passaram de 161 em novembro/dezembro para 182 em janeiro/fevereiro.

No final do ano passado, não havia sido registrado auto de resistência, confronto em decorrência de abordagem policial. Em 2018, já são três casos.

Cresceu o número dos homicídios dolosos (com intenção de matar): foram dez, em janeiro e fevereiro, contra apenas uma ocorrência registrada em dezembro e novembro de 2017.

Entre as vítimas fatais do confronto na Praça Seca está uma adolescente de 15 anos. Evelyn da Silva Coelho foi atingida na cabeça durante um confronto no Morro dos Menezes em fevereiro. Ela chegou a passar por cirurgia, mas não resistiu.

No mesmo dia, uma criança de sete anos foi baleada dentro de casa, na comunidade do Bateau Mouche. Luis Miguel Oliveira foi atingido de raspão no ombro durante um tiroteio na região e levado para o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, na zona norte. A casa foi atingida por três disparos.

A mãe criticou a situação atual: "Meu Deus, que guerra é essa? Só sofrem os inocentes. Meu filho foi baleado dentro de casa. Que desespero, meu Deus!", escreveu.

De acordo com informações do aplicativo Fogo Cruzado, que monitora episódios de violência no estado, ocorreram 98 tiroteios na região da Praça Seca em 2018. Nove pessoas morreram e 12 ficaram feridas nos três primeiros meses deste ano.

Leo Martins/Agência O Globo

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