Sem teto, com redes sociais: celular vira ferramenta de inclusão para moradores de rua

Juliana Carpanez

Do UOL, em São Paulo

  • Ricardo Matsukawa/UOL

    José guarda os chips do celular quebrado; plano é comprar um novo aparelho em breve

    José guarda os chips do celular quebrado; plano é comprar um novo aparelho em breve

Darlan, 33, não gosta do Facebook: prefere aplicativos de mensagem direta, como WhatsApp. É pelo celular que recebe ofertas para trabalhar em feiras e eventos, onde um dia de limpeza lhe rende até R$ 70. No aparelho, diz baixar músicas, ler notícias e acessar o Google: "Sou como um aluno buscando respostas". A tela também o guia para destinos desconhecidos em São Paulo, onde vive em um abrigo improvisado desde o incêndio que destruiu sua casa, no nono andar do edifício Wilton Paes de Almeida, no largo do Paissandu.

Bruno*, 30, "herdou" o aparelho de um colega do centro de acolhida onde dormia logo que chegou à cidade. Agora consegue falar com a mãe, que vive em outro estado, para quem manda fotos quando está mais arrumadinho: "Ela nem desconfia da minha situação". Faz tudo isso quando está conectado a redes Wi-Fi gratuitas em praças, bibliotecas, estações de metrô. 

O celular de José*, 27, quebrou há cerca de dois meses. Sem o aparelho, escassearam os chamados para fazer "bicos" como ajudante de pedreiro, pintor, eletricista e cabeleireiro --na barraca onde dorme, em uma rua na região da Bela Vista, uma pasta de plástico guarda os certificados de seus cursos profissionalizantes. "Agora é ter paciência para juntar dinheiro, conseguir outro telefone e encontrar a rapaziada de novo. Tenho os contatos aqui, tudo espalhado", conta, procurando os papeizinhos onde anotou números de seus conhecidos. 

Ricardo Matsukawa/UOL
Na barraca onde vive, José mostra números de telefone de seus conhecidos

Eles não têm moradia fixa, segurança, comida garantida, cuidados médicos nem atividades sociais. Mesmo sem o imprescindível, consideram hoje o celular --principalmente com acesso à internet-- uma necessidade básica, sem a qual suas vidas pioram consideravelmente. Nesse universo onde a falta de coisas é regra, os recursos dos telefones oferecem algum tipo de inclusão. Ainda que seja momentânea: pelo tempo que durar a bateria, o acesso à rede Wi-Fi ou o próprio aparelho, que geralmente já chega bem surrado às suas mãos.

"O celular muitas vezes faz com que pessoas em situação de rua rompam com o isolamento, a solidão. Também ajuda para contatos de emprego e para pedir socorro. Eles relatam por WhatsApp situações difíceis, como a espera por vaga em centros de acolhimento, ou gravam vídeos mostrando as agressões da polícia e a chegada do rapa [fiscalização das autoridades]", conta o padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo.

Muitos dispensam as mensagens de texto por não saberem escrever direito, preferindo as gravações de voz e os registros de imagens

Padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo

Quer pagar quanto?

Apesar de o celular ser cada vez mais comum entre moradores de rua --não há uma estimativa de quantos o usam--, o padre avalia que essa seja uma realidade somente para os mais jovens e para quem faz bicos, trabalhando ocasionalmente. O mesmo não acontece com pessoas sem perspectivas (desconectadas do mundo, aqui não no sentido tecnológico), além dos usuários de droga (para quem um aparelho pode servir como moeda de troca ao comprar crack, por exemplo). 

As maneiras de adquirir os telefones variam. "Se tem uma coisa que é fácil e barata de arrumar é um celular. Por R$ 100 você compra um aparelho que custa R$ 1.000 nas lojas", revelou um dos entrevistados, que vive nas ruas e não quis se identificar, referindo-se ao mercado de produtos roubados. Essa compra, no entanto, pode envolver um modelo bloqueado pelo dono original ou facilmente rastreável pela polícia --o código IMEI, uma espécie de RG de cada equipamento, permite o bloqueio e a identificação. 

José, aquele que está sem telefone há dois meses, diz que o risco não compensa. "Quem mora na rua toma enquadro da polícia todos os dias, não tem um dia que eles não [nos] param. Então eu preciso de um telefone 'quente', de loja. Se me pegam com um roubado, não vou ter dinheiro para a fiança e fico preso."

Darlan concorda: pagou R$ 350 pelo aparelho usado, um dos poucos objetos pessoais que salvou do incêndio, e conta que não teve problemas quando foi parado pela polícia. "Era de um colega meu, de confiança." 

Escalado para um bico de três dias, José planeja guardar os R$ 200 que vai ganhar, juntar mais dinheiro e, em breve, comprar outro aparelho. O modelo ainda não escolheu, mas pensa em algo "baratinho".

"Sendo um que funcione, com WhatsApp e Facebook, para mim está ótimo", afirma ele, que ainda tem os dois chips usados em seu antigo aparelho. "Fiquei tempo demais com o outro telefone. Aí cai, racha, dá problema no toque." 

Compartilhamento de senhas e de tomadas

Os planos de telefonia dos moradores de rua são sempre pré-pagos, favoritos entre os brasileiros. Em abril de 2018, segundo a Anatel, eram 144,2 milhões dessas linhas, contra 91,5 milhões das pós-pagas.

Quando podem, colocam crédito: "R$ 20 para falar e, às vezes, se não consigo Wi-Fi, pago R$ 1,99 para usar a internet por um dia", exemplifica Darlan. Quando não podem, vão de Wi-Fi grátis. Vindo das redes abertas, espalhadas pela cidade, ou daquelas fechadas e acessadas via aplicativos de compartilhamento de senhas.

Tem também a carga de bateria, um desafio evidente para pessoas sem acesso à rede elétrica. Resolver o problema passa pela boa vontade de donos de banca de jornal, de bares, de lojas e também dos centros de acolhida, que emprestam suas tomadas aos frequentadores. É comum o compartilhamento de carregadores e de conhecimento técnico, na hora de consertar os telefones.

"Eles descobrem mil truques. Ficam lá arrumando, mexem naqueles dois dentinhos de encaixe da bateria, ajeitam por dentro, abrem e fecham aquilo [aparelho] até funcionar", relata o padre Júlio Lancellotti. 

Mais utilidade para o celular

Professora de filosofia, Rosiene Silvério trabalha há 25 anos com moradores de rua --atualmente é voluntária do Cisarte (Centro de Inclusão pela Arte, Cultura, Trabalho e Educação), para onde foram encaminhados os moradores do edifício incendiado no Paissandu. Ela afirma ter testemunhado essa adoção da tecnologia, que considera positiva do ponto de vista de inclusão social, e defende que esses recursos sejam ainda mais bem aproveitados. 

Ricardo Matsukawa/UOL
Rosiene Silvério, do Cisarte, acha que telefones celulares poderiam ajudar ainda mais os moradores de rua

"Poderia haver uma evolução no sentido de permitir, por exemplo, que eles procurassem pelo celular vagas de lugares onde dormir. Inclusive considerando a região onde aquela pessoa está no momento. Algo assim seria muito bem-vindo, evitando até problemas fatais", disse Rosiene. Na semana em que a reportagem visitou o Cisarte para esta entrevista, dois moradores de rua haviam morrido, possivelmente em decorrência do frio em São Paulo.

Por enquanto, isso ainda não foi explorado. Entre os poucos aplicativos que consideram os moradores de rua, o foco está nas pessoas interessadas em encontrá-los e ajudá-los --exemplo disso são os internacionais Homeless Help e Ch@rity. As ferramentas não levam em conta, como propõe Rosiene, que muitos sem-teto hoje têm acesso à internet via celular e podem querer, eles mesmos, buscar essa ajuda. 

Não faltam, no entanto, aplicativos de mau gosto que colocam os moradores de rua no alvo da zoeira. Há filtro para dar um visual de mendigo às fotos, joguinho para deixá-lo mais apresentável ou simulador para "viver a vida de uma pessoa sem teto, perdida e solitária. [...] Lute por sua vida nas ruas da cidade com outros vagabundos", propõe um app para Android. Apenas um exemplo de quanto o caminho para a real inclusão ainda está distante. 

* Os nomes foram alterados para evitar a identificação dos entrevistados.

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