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Alunas relatam casos de assédio de professores no RJ: "Me senti humilhada"

Alunos protestam contra assédio de professores nas unidades do colegío Pensi, no Rio de Janeiro - Arquivo Pessoal
Alunos protestam contra assédio de professores nas unidades do colegío Pensi, no Rio de Janeiro Imagem: Arquivo Pessoal

Rafael Pezzo

Colaboração para o UOL

20/08/2018 17h47Atualizada em 21/08/2018 13h09

Desde a última quinta-feira (17), alunas de diversas unidades da rede de colégios Pensi, no Rio de Janeiro, usaram a hashtag #AssedioÉHábitoNoPensi para denunciar casos de assédio sexual cometidos por inspetores, professores e até diretores da instituição.

Ao UOL, estudantes afirmaram que decidiram publicar as denúncias no Twitter depois do afastamento de uma professora de sociologia e da demissão de outra educadora de biologia que conversou com a reportagem**. Segundo as alunas, as duas as ajudavam a identificar e a combater os casos de assédio, machismo e homofobia cometidos pelos funcionários da escola.

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Vítima de machismo dentro da escola, a educadora demitida confirmou que, quando procurada pelas alunas, esclarecia possíveis casos de assédio por parte dos outros professores. “Eu mesma vivi um casamento abusivo e, a partir dessa minha experiência, as orientava sobre modos que homens usam para controlar as mulheres.”

Estimulada por amigas, Juliana*, de 19 anos, é uma das alunas que relatou o assédio no Twitter. “Em 2015, quando tinha entre 14 e 15 anos, um professor mandava mensagens maldosas e tentava me acariciar toda vez que eu passava. Quando eu faltava, ele perguntava de mim para os meus colegas de classe. Minhas amigas sempre me alertavam, mas eu achava besteira, achava que era algo normal, sem maldade”, relembrou ao UOL a estudante da unidade Madureira.

“Eu comecei a me ligar sobre o assédio quando ele mandou uma mensagem em uma rede social me chamando para sair. No convite, ele pediu que eu não contasse para ninguém sobre o encontro, nem aos meus amigos, muito menos aos meus pais”, continuou.

Ainda de acordo com a estudante, o convite para sair foi o caso mais grave, mas não o único. “Também comentavam em fotos minhas frases como: ‘Nossa, você é muito linda pra usar uma blusa dessas. Usa uma melhor’ ou: ‘você está chorando muito. Não quer chorar no meu colo?’”, relatou.

Incomodada, Juliana* contou ao pai sobre a situação, que logo procurou a direção da escola. A administração garantiu que seriam tomadas providências e o professor seria demitido. “Mas quando eu voltei para a aula, descobri que a história havia sido passada de outro jeito. Corriam boatos que, na verdade, eu dava em cima do professor. Isso me destruiu, fiquei muito abalada. Tive que deixar a escola e até repeti o 1º ano do ensino médio”, completa.

Professor aborda aluna por meio de rede social - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Professor usou rede social para se aproximar da vítima
Imagem: Arquivo Pessoal

Cerca de três anos depois, Juliana* decidiu, junto com a família, voltar a estudar no colégio. Quando retornou, descobriu que o professor que a abusara, na verdade, havia sido enviado para outra unidade da rede do Pensi. “Também soube que, no tempo que fiquei fora, os abusos continuaram. Professores seguiam indelicados com alunas e, quando elas denunciavam, os casos eram acobertados pela direção”, declarou.

Ex-aluna da unidade do Pensi em Recreio, Luisa Maria da Silva Leitão, de 19 anos, também recebeu mensagens inconvenientes em uma rede social. “Depois que publiquei uma foto de biquíni, um professor de matemática me mandou mensagem me chamando de ‘gatinha’ e falou: ‘agora consigo ver como o uniforme é feio’.”

“Antes tínhamos medo até de falarmos sobre esses casos entre nós mesmas, mas agora estamos todas unidas e estou muito feliz por isso”, acrescentou Luisa. “Eu espero que esse tipo de coisa não aconteça mais, principalmente porque esse professor que me mandou mensagem dava aulas também para o ensino fundamental.”

Antônia*, de 19 anos e ex-estudante do cursinho pré-vestibular da unidade do Pensi em Teresópolis, foi alvo de comentário impróprio na sala de aula. “Logo no meu primeiro dia, um professor de história fez uma observação sobre a calça branca que usava no dia. Estava chovendo e ele disse que, se me encontrasse na rua, iria sujar a peça de lama. E não parou por aí. Quando cheguei em casa, ele tinha me achado em uma rede social e continuou perguntando sobre a minha calça. Ele insistia em tentar puxar assunto comigo por mensagem. Não tive outra opção e o bloqueei”, detalhou.

Ex-estudante da unidade do Pensi Vila da Penha II, Mariana*, 19, relatou que sofreu assédios no ensino médio. “No primeiro ano, um professor de matemática me abraçava por trás, me segurava pela cintura, respirava perto do meu pescoço e se recusava a me soltar. Eu revelei que era homossexual na escola e esperava que assim ele me esqueceria, veria que não estaria interessada. Mas mesmo assim, ele me puxava de canto, longe dos outros alunos, e isso me assustava. Eu tentava correr, mas ele ria e continuava”, relembra.

Esta mesma aluna também conta que sofreu algo parecido no segundo ano, desta vez por um professor de história. "Até então, eu o admirava muito, mas depois passei a perceber que o comportamento dele não era apropriado. Ele fazia referências sexuais durante a aula, mas só com meninas e olhando diretamente para algumas delas. Não era uma brincadeira normal, como as feitas por outros professores", relata.

“Eu comecei a denunciar o comportamento dele a partir da Pesquisa de Opinião dos Alunos (POA), mas não deu em nada. Pior, ele começou a fazer comigo também. Sempre que possível, me humilhava na frente de todos, pedia para eu levantar da cadeira e me abraçava.”

Outra grande decepção aconteceu quando ela tentou denunciar este comportamento. “Quando fui à direção e disse que não me sentia confortável, riram de mim e trataram minha ideia como ridícula.”

“Me senti humilhada. Nesta idade, a gente admira demais os professores, queremos impressioná-los, mas quando eles fazem esse tipo de coisa, você percebe profundamente como isso está errado”, explica Mariana*. “Ainda hoje eu fico achando que estou exagerando, que isso é coisa da minha cabeça. Eu me culpo muito, penso que não deveria ter reclamado.”

Apesar de acontecerem em diferentes unidades da rede Pensi, as abordagens dos professores seguiam alguns padrões. Por exemplo, além de comentários inapropriados e/ou de cunho sexual durante a explanação das aulas, em diversos relatos à reportagem, alunas contaram que docentes se aproveitavam de momentos de dúvidas para se aproximarem das estudantes, com carinhos, massagens, abraços e toques.

Outros professores se aproximam das alunas com discursos feministas, falando sobre empoderamento feminino e liberdade sexual. A partir de então, começam a se relacionar com diversas garotas, que não percebem manipulações. Alguns professores também abordam as garotas a partir das redes sociais, com comentários em fotos e até trocas de mensagens.

A professora que foi demitida pelo colégio explicou que "agora, as alunas se sentem sozinhas e desprotegidas e não têm mais a quem recorrer. Eu e a outra professora as ajudávamos, mas sem fazer escândalo, ensinando a se impor. Mas elas sabem que eu também fui vítima do machismo. Portanto, a mobilização nas redes sociais foi a maneira que elas encontraram de lutar contra algo que as machuca”.

Ela, no entanto, esclarece que não foi por conta deste auxílio às alunas que foi demitida. “Sou uma professora que prioriza o conteúdo, ao contrário de outros professores de cursinho que preferem fazer brincadeiras e músicas em sala de aula para decorar fórmulas”, explica. “Também pego muito no pé de aluno, não deixo dormir na minha aula e também não permito que estudantes ouçam música ou conversem enquanto eu falo, e isso incomoda muito.”

Acima disso, ela afirma que, por ser mulher, sofreu perseguição entre a direção da escola. “Eu nunca permiti que se referissem a mim como ‘menina’, sempre discuti para que me chamassem de ‘mulher’ ou ‘professora’”, explica. “Sempre tentavam me diminuir e eu precisava ficar provando minhas capacidades, minhas formações para me impor.”

Nesta segunda-feira (20), alunos das unidades do Pensi de Madureira, Barra da Tijuca e Recreio fizeram manifestações em frente às escolas. Os estudantes carregavam cartazes e peças de roupas vermelhas. Também foram registradas movimentações entre os estudantes dos colégiocs QI, ZeroHum, Intellect e Sion.

Em nota, a rede Pensi afirmou que repudia qualquer tipo de assédio e discriminação. A instituição esclareceu ainda que está apurando internamente as denúncias e que ações estão sendo tomadas. A direção da rede confirmou que uma professora foi afastada por problemas de saúde e que a outra foi desligada por não estar mais rendendo o esperado e por notas ruins nas Pesquisas de Opinião dos Alunos (POA).

À reportagem, a educadora que foi demitida contestou tal argumento. Apesar de reconhecer ter notas baixas em turmas da unidade Madureira, ela diz ter apresentado resultados acima da média entre os alunos da unidade Teresópolis. “Minha saída é conveniente para eles porque sou vista como a professora que fala e incita demais, a rebelde, mas isso não é verdade. Escola não é lugar para usarem as meninas da maneira que fazem”, argumentou.

O professor de história envolvido no caso preferiu não se manifestar. Os outros profissionais acusados não responderam às tentativas de contato da reportagem.

*Nomes fictícios usados pela reportagem para relatar casos de alunas que preferiram ficar no anonimato.
**A primeira versão deste texto informou o nome da professora demitida. A seu pedido, posteriormente o nome foi omitido pela reportagem. 

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