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Polícia aponta vingança no assassinato de líder de golpe de R$ 200 milhões

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Márcio Rodrigo Santos, apontado como líder da D9 Clube de Empreendedores Imagem: Reprodução/Facebook

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

30/11/2018 04h00

Exatos 515 km separam a cidade gaúcha de Sapiranga do município de Balneário Camboriú, no litoral norte de Santa Catarina. No dia 12 de setembro, o autointitulado marqueteiro Márcio Rodrigo dos Santos percorreu essa distância trafegando pela rodovia BR-101 em seu carro de luxo.

Ao chegar na cidade catarinense, encontrou-se com sua namorada e, horas depois, deixou-a em casa. "Vou encontrar investidores", disse, no começo da noite. Foi a última que ela o viu. Na madrugada do dia seguinte, seu corpo carbonizado foi retirado por bombeiros de um Audi A4 em chamas. Tinha 37 anos.

Segundo a polícia, a recente ficha criminal de Márcio Rodrigo explica o desfecho de sua vida. Em 2017, ele havia sido denunciado pelo MP (Ministério Público) do Rio Grande do Sul como um dos líderes de um esquema de pirâmide financeira que resultou num prejuízo de R$ 200 milhões a milhares de pessoas no Brasil e no exterior: o golpe da D9 Clube de Empreendedores.

Chegou a ser preso, foi posto em liberdade, e continuou a atuar em negócios nebulosos que prometiam lucros exorbitantes, mas causavam prejuízos a quem acreditava em suas promessas, apurou o UOL com pessoas que o conheciam. "Fazia tempo que ele lidava com esse tipo de fraude, de marketing multinível. Ele não parou depois que deixou a prisão", disse uma pessoa próxima a Márcio Rodrigo. Ela pediu para não ser identificada.

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Durante os três meses que antecederam sua morte, o marqueteiro trocou mensagens de celular com dois homens. Ambos foram lesados pelo esquema da D9, para o qual foram atraídos pelo líder gaúcho da pirâmide financeira. Um deles era conhecido de Sapiranga, sua cidade natal. 

Ao comparecer ao encontro com os "investidores", Márcio Rodrigo acabou sendo vítima de um assassinato por vingança, de acordo com a investigação conduzida pela Polícia Civil catarinense.

"Pelo menos dois homens participaram do crime. Tudo indica que a ação foi executada em razão dos prejuízos financeiros que esses dois suspeitos tiveram com o golpe da pirâmide financeira aplicado pela vítima", diz o delegado Vicente Soares, chefe do Departamento de Investigações Criminais de Balneário Camboriú.

Soares conseguiu acesso a mensagens do celular de Márcio Rodrigo que indicam as tratativas com os suspeitos por sua morte.

Imagens da câmera de segurança de estabelecimentos comerciais da cidade mostram o carro usado pelos dois suspeitos para se encontrar com o marqueteiro.

Morador da cidade gaúcha de Torres, o primeiro suspeito foi preso no dia 16 de outubro, mais de um mês após o homicídio; outro, que residia na vizinha Passo de Torres, foi detido no último dia 20 de novembro. Ambos estão encarcerados no presídio de Canhanduba, em Itajaí (SC). A polícia não divulgou seus nomes.

Foi um crime premeditado. Um deles disse que a culpa era do outro, mas não houve uma confissão formal de nenhum dos dois. Há suspeitas de que há mais gente envolvida no homicídio e a investigação continua aberta

Vicente Soares, chefe do DIC de Balneário Camboriú (SC)

Restam dúvidas sobre como aconteceu o assassinato de Márcio Rodrigo. O laudo cadavérico concluiu que ele já estava morto quando seu corpo foi queimado. Porém, a causa da morte ainda não foi estabelecida. Sabe-se apenas que ele não foi ferido por armas de fogo, conforme constatou a perícia.

Até mesmo a identificação não é dada como confirmada. O delegado afirma estar "quase 100% certo" de que o corpo encontrado é mesmo o do líder gaúcho do esquema da D9. Porém, aguarda o resultado dos exames de DNA. Até lá, o cadáver continua retido no Instituto Médico-Legal de Balneário Camboriú.

O Golpe da D9

A D9 Clube de Empreendedores é uma empresa de fachada forjada pelo "empreendedor digital" Danilo Santana para executar um esquema de pirâmide financeira. Natural de Itabuna (BA), Santana vive em Dubai, cidade mais rica dos Emirados Árabes Unidos, onde ele é alvo de um processo de extradição para o Brasil.

As denúncias dos MPs da Bahia e do Rio Grande do Sul contra Danilo Santana concluíram que o golpe aplicado por ele e seus comparsas é típico de uma pirâmide financeira. As acusações são de crimes contra economia popular, associação criminosa, estelionato e lavagem de dinheiro.

Havia uma outra inovação no golpe da D9: os pagamentos eram feitos em bitcoinsuma moeda virtual cuja emissão não é controlada pelo Banco Central (mais detalhes da pirâmide da D9 no infográfico abaixo).

"Só que nenhuma aposta era realmente feita e nenhum curso era ministrado. O esquema consiste em mera especulação financeira através dos investimentos das vítimas", afirma o promotor de Justiça Sergio Cunha, responsável pela denúncia contra Santana, Márcio Rodrigo e o grupo gaúcho da D9 junto à 1ª Vara Criminal de Sapiranga.

Morto era líder do golpe no RS

Márcio Rodrigo dos Santos era um dos líderes da D9 no Rio Grande do Sul.

A empresária Maria Rosinete fazia parte de um grupo investidores gaúchos encabeçado por ele. Perdeu R$ 20 mil.

"Rodrigo Santos apresentava motos, Camaros durante as palestras. Era uma ostentação enorme", afirma Maria Rosinete.

"Eu percebi que tinha caído num golpe quando chequei as placas dos carros que os líderes dirigiam e descobri que era tudo financiado e que as prestações não estavam sendo pagas", disse a moradora de Porto Alegre.

Em abril, os advogados afirmaram ao UOL que Márcio Rodrigo era mais uma das vitimas do esquema montado por Danilo Santana e que apenas cumpria ordens.

Ação penal à espera de extradição

A ação penal que tramita na 1ª Vara Criminal de Sapiranga encontra-se parada à espera da decisão sobre a extradição de Danilo Santana.

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Acusado de comandar um golpe de R$ 200 milhões, Danilo Santana vive em Dubai Imagem: Reprodução/Facebook

"Nós enviamos duas levas de documentos traduzidos para o árabe, conforme pediram as autoridades dos Emirados. Estamos no aguardo de uma resposta. Caso contrário, haja uma resposta negativa ou uma demora, nós pediremos à Justiça o desmembramento do processo. Assim, a ação penal continua em relação a outros acusados, e abre-se uma outra apenas contra Santana", explicou o promotor Sérgio Cunha.

A respeito da situação jurídica de Márcio Rodrigo Santos, considerado assassinado pela polícia catarinense, o promotor afirmou que não recebeu nenhuma informação oficial sobre a morte e que, portanto, ele continua como réu na ação penal.

"Apenas quando for enviado à Justiça de Sapiranga o atestado de óbito de Márcio Rodrigo dos Santos ele deixará de ser réu no processo."