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Novos aliados do PCC contra o CV, Pandas surgem em prisão superlotada de RO

Divulgação/Rede Amazônica
Entrada do presídio estadual Edvan Mariano Rosendo, o Urso Panda, em Porto Velho Imagem: Divulgação/Rede Amazônica

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

03/12/2018 04h00

Maior grupo criminoso do país, o PCC (Primeiro Comando da Capital) continua a servir de modelo para outras gangues surgidas dentro do sistema prisional brasileiro. A mais nova facção identificada pelas autoridades chama-se PCP (Primeiro Comando do Panda), nascida em uma das principais prisões de Rondônia: a Penitenciária Estadual Edvan Mariano Rosendo, mais conhecida como Urso Panda, localizada em Porto Velho.

Conforme já revelou o UOL, Rondônia é um dos nove estados brasileiros onde o PCC disputa diretamente com o Comando Vermelho o controle das rotas e do comércio de tráfico de drogas e armas, além da influência nos presídios.

De acordo com o sistema Geopresidios do Conselho Nacional de Justiça, exatos 772 presos cumprem pena no presídio Urso Panda --114% acima da capacidade da unidade.

Aliados da facção paulista na luta contra os rivais do Rio de Janeiro, "os pandas" estão em atividade há pelo menos dois anos. No momento, ela é a 15ª facção associada ao PCC. As outras estão listadas abaixo, conforme estudos acadêmicos e levantamento de órgãos públicos como a Abin (Agência Brasileira de Inteligência):

  • Bonde dos 13 e Comando Classe A (da região Norte);
  • Bonde dos Malucos, Mercado do Povo Atitude, Guardiões do Estado e EUA (Nordeste);
  • Amigos dos Amigos, Terceiro Comando Puro e Primeiro Comando de Vitória (Sudeste);
  • Os Manos, Abertos, Unidos pela Paz, Os Tauros e Os Brasas (Sul). 

Pelo menos 207 integrantes do PCP  já foram identificados nas 14 unidades prisionais de Porto Velho, informa o MP (Ministério Público) de Rondônia. Porém, sabe-se que a facção já começa a fazer "batismos" de novos presos em cidades do interior rondoniense. 

Sua existência também foi detectada pela Polícia Federal, pelo Depen (Departamento Penitenciário Nacional) e por órgãos de segurança pública do estado da região Norte, apurou a reportagem. 

"Independentemente da guerra deflagrada, os dados demonstram que 25% dos presos das unidades localizadas na capital Porto Velho são filiados a uma das organizações criminosas acima citadas e estão envolvidos em boa parte dos crimes de natureza grave, tais como homicídios, latrocínios, roubos e tráfico de drogas", afirmou o promotor de Justiça Cláudio Wolff Harger. Ele chefia o Gaeco (Grupo de Combate ao Crime Organizado) do MP local.

 "Essa guerra por espaço gera o aumento da criminalidade, principalmente quando as organizações estão em guerra uma com as outras", acrescenta.

Mortes nas prisões

Assim como outros estados do país, Rondônia separa presos de acordo com as facções às quais eles pertencem. O método é criticado por especialistas em segurança pública - Flávio Werneck, vice-presidente da Federação Nacional de Policiais Federais, por exemplo, afirma que esse método facilita o recrutamento de presos para as gangues.

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL
Em resposta ao UOL, a Sesdec (Secretaria da Segurança, Defesa e Cidadania de Rondônia) admite que a medida "facilita o recrutamento, mas não é preponderante".

"No Estado de Rondônia quem não quer vestir a camisa de facção tem seu espaço no sistema prisional. De regra, só se batiza quem realmente tem interesse em ser um faccionado", afirma a Sesdec, por email.

De acordo com dados obtidos pelo UOL, por meio da Lei de Acesso à Informação, exatos 78 presos morreram nas prisões rondonienses entre os anos de 2014 e 2017. Deste total 14 foram assassinados (18%) e dez cometeram suicídios (13%). Chama atenção também para o números de óbitos classificados como "causa indeterminada": 22 registros (28%), o que pode indicar uma maior quantidade de mortes violentas.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a taxa de homicídios no estado em 2017 foi de 28,1 por 100 mil habitantes --índices acima de 10 homicídios por 100 mil habitantes são considerados epidêmicos, segundo a Organização Mundial de Saúde.

O presídio Urso Panda, onde nasceu o Primeiro Comando do Panda, tem sido palco de atos violentos cometidos por presos.

Em dezembro do ano passado, as autoridades encontraram chuchos (facões improvisados) e drogas nas celas após um motim. No último dia 22 de maio, um grupo de presidiários espancou até a morte o detento Francisco Ribeiro de Souza Junior durante o banho de sol. Não ficou esclarecida se ação foi cometida pelos Pandas.

O governo de Rondônia nega que as facções estejam por trás das ações e diz ser "inaceitável" negociar com facção criminosa. Também procurada pela reportagem, a Polícia Civil do estado não respondeu aos questionamentos enviados.

"Em Rondônia não houve confronto entre faccionados no sistema prisional em 2017 e 2018, apenas inícios de rebeliões por demandas diversas que foram controladas imediatamente pelo estado", afirma a Sesdec.

Além das unidades estaduais, Porto Velho também sedia um dos cinco presídios federais existentes no país. Em outubro, a PF deflagrou na capital uma operação para prender membros do PCC que estariam planejando ataques em seis cidades do país.

Até o presente momento, os Pandas de Porto Velho não foram alvos de qualquer operação policial de grande porte.