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Família apura sozinha morte de mulher, e marido é acusado de feminicídio

Igor Mello

Do UOL, no Rio

23/04/2019 17h20

Familiares de uma mulher que morreu durante o carnaval em Maricá, cidade litorânea a 60 Km do Rio, investigaram por conta própria o caso e levaram o próprio marido dela a ser acusado de feminicídio pela Polícia Civil.

Priscila de Souza Valverde, 31, foi supostamente atropelada na segunda-feira de carnaval e teve morte cerebral constatada dois dias depois, no Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo. Segundo a família da vítima, o atropelador foi o marido dela, Vinícius Silva Araújo de Oliveira, 33.

À época da morte, Vinícius afirmou aos parentes de Priscila que ela teria se jogado na frente do veículo em movimento, caído e batido a cabeça no chão.

Desconfiados da versão do marido, os familiares então voltaram ao local onde o suposto acidente havia ocorrido, no distrito de Itaipuaçu, e obtiveram imagens de uma câmera de segurança instalada no local.

O vídeo, ao qual o UOL teve acesso, mostra que Vinícius dirige o carro para frente e Priscila se atira no capô para impedi-lo. Ele então sai de ré, com ela em cima do carro, e o veículo some da imagem. Instantes depois, o carro aparece arrancando para frente, com a mulher pendurada sobre o capô. Priscila cai do veículo e fica estirada no chão, imóvel. Só então o marido para o carro. Não é possível ter certeza se o veículo chega a passar por cima da mulher.

Priscila de Souza Valverde, vítima de feminicídio em Maricá (RJ), em foto com a mãe - Reprodução/ Facebook
Priscila de Souza Valverde, vítima de feminicídio em Maricá (RJ), em foto com a mãe
Imagem: Reprodução/ Facebook
As imagens foram obtidas pelo tio de Priscila, Milton Valim, de 50 anos, após 3 horas de negociação com o proprietário do imóvel, que temia sofrer represálias. De posse do vídeo, a família procurou a Polícia Civil, que registrou o caso como feminicídio.

A Polícia concluiu as investigações e remeteu o caso para o Ministério Público, que decidirá se oferece denúncia por feminicídio. Vinícius nega ter assumido o risco de matar a mulher, com quem vivia havia 8 anos.

Priscila deixou dois filhos - um de 10 anos, de um relacionamento anterior, e um de 4, fruto do casamento com Vinícius. Ela era supervisora de uma loja de operadora de telefonia.

Briga durante bloco de carnaval

Segundo Milton Valim, Priscila e Vinícius passaram o carnaval com familiares em Maricá, em uma casa alugada por familiares dele. Além de parentes do marido, também estavam presentes os pais de Priscila. O casal brigou durante um bloco de carnaval e deixou o local. O marido teria decidido voltar para o Rio.

Vinícius confirma que os dois se desentenderam, e alega que Priscila estava "alterada" e teria o agredido quando chegaram à casa onde estavam em Maricá. Ele diz que não teve a intenção de ferir a mulher.

"Viemos pela rua [caminhando] com ela me xingando, falando um monte de coisa. Inclusive tacou pedra em mim. Quando ela me deu dois tapas nas costas foi quando saí correndo na frente, peguei o meu carro e saí", relatou o marido ao UOL.

"Quando estou saindo ela vem, na minha direção quando o carro já está em movimento. Ela pula em cima do capô. Com uma das mãos, ela segura no limpador do carro e com a outra mão ela bate com o celular no vidro. Em uma freada minha, ela cai para o lado esquerdo", disse ele. "No momento eu só estava querendo sair. Jamais imaginei que ela pudesse cair".

O tio da vítima afirma que o relacionamento dos dois era marcado por constantes brigas.

"Ele tinha muito ciúme dela, brigavam muito. Na festa de fim de ano do trabalho da Priscila uma das amigas dela viu ele pegando ela pelo braço, ameaçando ela de morte. Isso está no inquérito. Era um cara muito agressivo, tratava muito mal o filho dela", relatou.

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