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Barão de Cocais: quem toca a sirene e o plano de ação se barragem romper

Luciana Quierati/UOL
Imagem: Luciana Quierati/UOL

Luciana Quierati

Do UOL, em Barão de Cocais (MG)

27/05/2019 04h00Atualizada em 27/05/2019 09h57

Quando o encarregado do Cecom (Centro de Controle de Emergências e Comunicação) da Vale apertar o botão que aciona as sirenes da barragem de Barão de Cocais (MG), um batalhão de gente vai pôr à prova cada mínima ação que vem sendo planejada desde 8 de fevereiro, dia em que a estrutura da mina do Gongo Soco teve sua estabilidade posta em xeque.

A primeira hora mais doze minutos serão cruciais, porque é nesse tempo que as equipes da megaoperação conjunta de emergência terão para evacuar 6.054 moradores da chamada ZSS (zona de segurança secundária), antes que a onda de rejeitos chegue à primeira casa da cidade, a cerca de 18 km da barragem.

A barragem pode não se romper. A mineradora reforça a todo momento que não há elementos técnicos que indiquem que a estrutura será afetada pela queda do talude norte da cava da mina de Gongo Soco - o que pode acontecer a qualquer momento. Mesmo que não ocorra, as ações de prevenção precisam estar alinhadas. E a Defesa Civil trabalha, por precaução, com o pior cenário.

Equipe no posto de comando da Defesa Civil acompanha talude e barragem de Gongo Soco em tempo real, a partir de imagens enviadas pelo centro de controle da Vale - Luciana Quierati/UOL
Equipe no posto de comando da Defesa Civil acompanha talude e barragem de Gongo Soco em tempo real, a partir de imagens enviadas pelo centro de controle da Vale
Imagem: Luciana Quierati/UOL

O pior cenário é o rompimento da barragem em um dia de chuva decamilenar, ou seja, daquelas que só ocorrem uma vez a cada 10.000 anos. Em uma situação assim, o solo estaria encharcado e o rio São João, que passa a poucos metros da barragem, cheio. A lama, então, que naturalmente seguiria o leito do rio, se espalharia por áreas verdes e poderia invadir as moradias localizadas nas áreas mais baixas - uma pequena porção da cidade.

Como a região não está em um mês de chuvas, as autoridades entendem que, em caso de um eventual rompimento da barragem, as consequências deverão ser menores que o que está previsto na operação de evacuação, pautada no chamado PAEBM (Plano de Ação de Emergência para Barragens), que é uma exigência do governo federal.

Confira detalhes da operação que pode ser desencadeada se o rompimento ocorrer e o como as equipes já estão trabalhando:

Do monitoramento às sirenes

Desde que a Vale verificou o movimento acelerado do talude norte, a cava da mina vem sendo monitorada 24h por dia por um grupo de geotécnicos que se divide entre a sala de controle em Gongo Soco, o Centro de Monitoramento Geotécnico (CMG) localizado na mina de Águas Claras, em Nova Lima (MG), e uma instalação da empresa no exterior. Eles se apoiam em seis equipamentos capazes de detectar movimentações milimétricas da estrutura, e assim saber se a barragem será afetada e também se romperá.

Quando a parte comprometida do talude se romper - a parede norte tem 10 milhões de metros cúbicos de material rochoso, sendo que 3 milhões de m3 devem cair dentro da cava, que está alagada desde que a mina foi desativada em 2016 --, os esforços se concentrarão em verificar se o impacto chegará à barragem.

Um dos sete carros que soarão a mensagem de alerta em caso de rompimento da barragem - Luciana Quierati / UOL
Um dos sete carros que soarão a mensagem de alerta em caso de rompimento da barragem
Imagem: Luciana Quierati / UOL

O coordenador do PAEBM, que é um funcionário de confiança da Vale, acompanha os trabalhos dos geotécnicos e ajudará a avaliar e classificar a gravidade se houver uma situação de emergência. Caso a barragem seja abalada e comece a se romper, ele imediatamente informará ao responsável pela mineradora, que assinará um documento chamado "declaração de início de emergência" - é o start para a operação de evacuação entrar em funcionamento.

Automaticamente, a equipe do Cecom toma conhecimento da situação e aciona as quatro sirenes da zona de autossalvamento, que compreende os 10 primeiros quilômetros por onde a lama deve passar. Esse acionamento deverá ser feito por questão de protocolo, uma vez que os moradores dali já foram retirados em fevereiro, porque, do contrário, não teriam tempo suficiente para fugir.

A Defesa Civil é informada por telefone. Em efeito cascata, os gestores do Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, prefeitura, Polícias Rodoviárias estadual e federal, entre uma série de órgãos e entidades, são avisados e, por meio deles, as respectivas equipes sob seus comandos. Conforme explica o capitão Júnior Silvano Alves, da Defesa Civil, a comunicação é feita via rádio, em frequência exclusiva, disponibilizada pela Vale - a empresa é chamada a todo momento pelos comandantes da operação de "empreendedor", como é denominada no PAEBM.

"Atenção: esta é uma situação de emergência"

Mapa de Barão de Cocais com os pontos de encontro e a quantidade de pessoas que devem ser recebidas em cada um no caso de rompimento da barragem Sul Superior - Luciana Quierati/UOL
Mapa de Barão de Cocais com os pontos de encontro e a quantidade de pessoas que devem ser recebidas em cada um no caso de rompimento da barragem Sul Superior
Imagem: Luciana Quierati/UOL

Sete motoristas e seus acompanhantes entrarão, cada dupla, em um Renault Duster na cor cinza. Os carros também são custeados pela Vale, e neles se lê em letra de forma "veículo de emergência", e seguirão pelas ruas da cidade com quatro alto-falantes ligados: "Atenção! Esta é uma situação de emergência". Pendurado dentro de um plástico no painel, está o pendrive com a gravação do alerta. Na hora do ocorrido, é só acoplar no rádio. Mas se o pendrive falhar, existe um microfone, e o acompanhante do motorista terá de ler mensagem, impressa em um papel e afixada no quebra-sol.

Cada motorista tem seu itinerário, treinado à exaustão nas últimas semanas. Sua função é avisar os moradores de que é hora de seguir as placas de rota de fuga penduradas nos postes até um dos sete pontos de encontro pré-estabelecidos. É hora também de preparar os moradores acamados que serão buscados por ambulâncias - já existe um veículo designado para cada um dos cerca de 30 moradores nessa situação. Dois simulados foram feitos, e cada morador já sabe (ou ao menos deveria saber) para onde deve ir. O principal ponto de encontro deve receber 2.150 pessoas.

Em cada um desses locais, os moradores vão encontrar membros da Defesa Civil, bombeiros e funcionários da Vale e da prefeitura. A pessoa informará seu nome -- que já deverá constar de um cadastro que as assistentes sociais do município já estão terminando de realizar casa a casa -- e será encaminhada, em ônibus ou vans, para um hotel.

Como a rede hoteleira de Barão de Cocais já está toda ocupada, seja com moradores da área de autossalvamento que foram retirados em fevereiro, seja jornalistas, funcionários da Vale e bombeiros vindos de outras cidades, os moradores evacuados deverão ser acomodados em hotéis fora, como em Itabira, a 60 km, e Belo Horizonte, a 100 km.

Depois dessa primeira etapa, atendendo à população de Barão de Cocais, as ações serão intensificadas em Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo, aonde a lama também poderia chegar entre três e oito horas após o rompimento, respectivamente.

Bombeiros de sobreaviso

Nesse primeiro momento, de evacuação, com a lama ainda se encaminhando para a zona urbana de Barão de Cocais, os bombeiros vão atuar auxiliando os moradores a se dirigirem para os pontos de encontro e atendendo alguém que porventura venha a passar mal. A corporação informou ontem pela manhã chegaram reforços de Itabira e Belo Horizonte, que se juntaram aos 27 bombeiros que estavam de prontidão até ontem. Todas as equipes de cidades próximas estão de sobreaviso desde a semana retrasada.

Segundo o tenente Leonardo Dias Schirm, comandante da Companhia de Prevenção de Ipatinga e que está em Barão, em caso de rompimento, serão acionados homens que estiverem de folga -- por ora, equipes que fazem buscas a vítimas em Brumadinho, a 144 km de distância, permanecerão por lá.

Ainda segundo o tenente, foram trazidos de helicóptero equipamentos de salvamento de outros grupamentos, que ficarão à disposição em caso de a emergência vir a se concretizar.

'Centro nervoso'

"Aqui fora é tranquilo, mas ali dentro, moça, é um centro nervoso", diz o integrante da Defesa Civil que recepciona a reportagem do UOL na entrada do posto de comando do órgão, montado em uma unidade da Universidade Aberta do Brasil em Barão de Cocais. O prédio fica em um bairro ainda cheio de lotes vazios, afastado 2,5 km do centro da cidade, do outro lado da MG-129, que liga Barão de Cocais a Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana destruído pelo rompimento da barragem do Fundão em 2015.

O 'centro nervoso' é a sala onde a Defesa Civil acompanha as imagens em tempo real do talude e da barragem enviadas pelo centro de monitoramento da Vale e onde resolve todas as questões burocráticas. Se tem que mandar ofício para a Copasa (empresa de saneamento de MG) pedindo para que providencie água potável para a população, é dali que sai o documento. Se tem que abrir um acesso ou bloquear outro, é dali que parte a solicitação.

Numa das paredes, estão afixados os números dos celulares dos comandantes e gestores dos bombeiros, polícias militar, civil e rodoviária, do prefeito da cidade, do coordenador do plano de emergência da Vale (aquele que avisa que a barragem está se rompendo), da Cemig (companhia de energia elétrica do estado) etc. Em outra, há o mapa com os pontos de encontro, e em outra, o mapa da mina de Gongo Soco e a mancha de inundação até a cidade de São Gonçalo do Rio Abaixo.

Também estão bem visíveis a localização dos helipontos (cinco já estão em atividade e outros dois sendo negociados) e a dos hospitais de sobreaviso e leitos preparados: um em Barão de Cocais (o único da cidade), um em Santa Bárbara, outro em Itabira e mais um em Belo Horizonte.

Bem próxima da sala da Defesa Civil, está a sala do Corpo de Bombeiros. Há outra ainda onde todos os dias, às 10h, é realizada uma reunião com representantes de todos os grupos envolvidos na operação para avaliar as ações do dia anterior e resolver as pendências que surgiram nas últimas 24 horas. Essas reuniões acontecem desde 8 de fevereiro. No início, com a operação partindo do zero, eram duas reuniões diárias.

Mesmo que a barragem de Gongo Soco não se rompa agora, com a queda do talude, ao menos boa parte de todo esse aparato e organização vai continuar funcionando em Barão de Cocais, porque a barragem está em nível de alerta máximo para rompimento desde 22 de março. "Enquanto estivermos em nível 3, esse será o nosso trabalho", diz o major Eduardo Lopes, superintendente da gestão de risco da Defesa Civil estadual.

Helicóptero sobrevoa área sob risco em Barão de Cocais

UOL Notícias
Errata: o texto foi atualizado
Moradores deverão sair da ZSS (Zona de segurança secundária) e não da ZSA (zona secundária de autossalvamento), como o texto informava anteriormente. E o rio São João, não o Santa Bárbara, passa a poucos metros da barragem

Cotidiano