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1 ano após morte: "Muitos Marcos Vinícius morrem a cada dia", diz mãe

Wilton Junior/Estadão Conteúdo
10.mai.2019 - Bruna da Silva, mãe de Marcos Vinícius, com a camisa que ele usava quando foi baleado na Maré: "Aquela blusa suja de sangue virou um marco na minha vida" Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

2019-06-20T04:00:00

20/06/2019 04h00

Um ano após a operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro que terminou com a morte do estudante Marcos Vinícius da Silva, 14, a família dele diz não ter respostas sobre o inquérito que investiga o caso. O menino foi baleado a caminho da escola no dia 20 de junho do ano passado em ação que contou com o apoio das Forças Armadas no Complexo da Maré, na zona norte carioca, durante período em que a segurança pública fluminense estava sob intervenção federal. Ao todo, sete pessoas morreram.

A família responsabiliza um policial civil pela morte do menino, que estava com uniforme da escola. João Tancredo, advogado da família, define como "absurdo" um laudo produzido na investigação que indica que o tiro partiu de traficantes. Ele se diz descrente sobre a possibilidade de identificar o autor do disparo --o advogado cita que testemunhas viram policiais atirando-- porque os agentes estariam usando toucas ninjas segundo relatos.

Procurada por mais de uma semana pela reportagem, a Polícia Civil não se manifestou sobre o caso. À época, a instituição informou que empenhava todos os esforços para esclarecer a morte do estudante.

Passado um ano, a mãe de Marcos, Bruna da Silva, deixou o trabalho de doméstica para se dedicar integralmente a causas de direitos humanos. Após 11 meses atuando como militante, ela passou a integrar em maio o quadro de mobilizadores da "Redes da Maré" --organização não-governamental que atua na garantia de direitos na comunidade, dividida em 16 favelas onde vivem 137 mil pessoas.

A bolsa que recebe da ONG é menor do que a remuneração que ganhava como empregada doméstica, mas, segundo ela, a vida da família passou a ter um novo sentido.

Veja a seguir trechos do depoimento da mãe de Marcos Vinícius ao UOL.

"Meu filho me deu voz e ninguém vai abafar"

"Eu nasci e fui criada na Maré. Conheci meu marido aqui. Formei uma família com ele. Nem no meu pior pesadelo imaginei que tirariam a vida de um filho meu aqui dentro.

Não perdi meu filho para a criminalidade. Perdi meu filho para a polícia. O mais triste é que a morte dele não deixou ainda uma lição para o Estado. A rotina de truculência não muda aqui na Maré. Só piora.

Eu passei a viver com mais medo. Medo de perder a minha filha, a única que me deixaram.

Arquivo Pessoal
O estudante Marcos Vinícius da Silva Imagem: Arquivo Pessoal

Recentemente, passou um helicóptero da polícia por aqui dando tiro para baixo. Eram 14h30. Minha filha precisou se abrigar e se proteger. Pode ter operação em qualquer ponto da Maré que, agora, ela não sai nem para ir à escola. E se matam a única filha que me restou? A verdade é que nós mesmos somos o alvo!

Por isso precisamos todos nos engajar. Precisamos cobrar câmeras nas viaturas, em capacetes para policiais. Precisamos de algo que realmente nos proteja de alguma forma. Por isso estou aqui agora e vou lutar. É uma luta pela memória do meu filho. Uma luta para quem fica. Esse dia a dia precisa mudar."

"São muitos Marcos Vinícius morrendo a cada dia"

Eu estou há um ano sem resposta. Meu filho é a primeira pessoa que acordo pensando e a última que penso antes de dormir. Ele me deixou uma luta e agora vou até o fim. São muitos Marcos Vinícius morrendo a cada dia.

A morte dele fez com que eu me encontrasse na militância. Aquela Bruna de antes não deixou legado. Não vou ficar de braços cruzados. Tocar a vida sem ele ficou muito difícil, mas essa história não vai ficar assim não, nem que eu me acabe de falar e gritar.

Eu passei do luto para a luta! E é isso que eu venho fazendo. Marcos me deixou um legado. Aquela blusa suja de sangue virou um marco na minha vida [Bruna se refere à camisa da rede municipal de ensino que o filho usava no dia da operação]."

"Número de mortes não para de subir"

Eu sei que é um caminho difícil de mudar, principalmente a partir deste ano que temos um presidente que condecora e um governador que incentiva. Olha o número de mortes! Não para de subir! É como se a polícia tivesse incentivo para matar, mas vamos seguir em frente.

A gente convive com abuso de autoridade, casa invadida, pertences roubados pela polícia e deboche. Eles entram sem mandado, sem documento, sem nada. E fica por isso mesmo. Tem dias que até dormir é difícil."

"Ele me salva até hoje"

"Ele era um menino que gostava de bola, bola de gude, brincava de pião, andava de bicicleta. Era divertido. Um menino elétrico. Cheio de amigos. Hoje eu vejo com clareza como as amizades dele eram boas. Esses meninos passam aqui em casa, me abraçam, me beijam, me dão carinho e isso me aproxima do meu filho. Sinto que ele está bem.

Ele me faz muita falta. Sinto falta até da perturbação dele. Dele e da irmã juntos. Ele fazia minha vida agitada, ocupada, um carrossel. Ele era minha salvação. Na verdade, ele me salva até hoje.

Ainda guardo umas blusas dele. Esse ano, a irmã queria sair fantasiada de Marcos no Carnaval. Com os blusões dele. Não deixei. Eles são muito parecidos. Ela é a cara dele. Imagina meu psicológico como ia ficar abalado olhando para ela. Ela entendeu que não podia.

Os dois eram muitos amigos. Brincavam de luta. Fizeram jiu-jitsu e karatê em projetos aqui na Maré, mas tirei quando as notas na escola começaram a baixar. Queríamos que ele tivesse estudo. Falava que estudo era a única coisa que carregávamos na vida."

PAULO CARNEIRO/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
21.jun.2018 - Bruna da Silva mostra uniforme sujo de sangue e material escolar de Marcos Vinícius na porta do IML no centro do Rio Imagem: PAULO CARNEIRO/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Policiais impediram passagem de ambulância, diz Bruna

"Eu estava em casa, ia me arrumar para trabalhar. Na época, trabalhava em uma casa em Copacabana. Eu liguei para o meu celular, que ele tinha mania de carregar com ele, e um amigo da escola me disse que o Marcos tinha tomado um tiro.

Ele tentou ir para a escola e por causa do tiroteio tentou voltar para casa quando deu de cara com o caveirão [blindado da Polícia Civil] e foi baleado. Fui direto para a UPA [Unidade de Pronto Atendimento]. Ele precisava ser transferido para um hospital, mas a ambulância demorou uma hora para chegar. O motorista me contou que os policiais impediram a ambulância de circular na região.

Os policiais falaram que não tinha gente baleada e que, se tivesse, era bandido. Meu filho era uma criança que tentou ir para a escola. Foi morto de uniforme e com mochila nas costas.

Depois o motorista conseguiu chegar para transferir meu filho. Rolou uma ligação entre superiores, foi o que ele me disse."

Família pede indenização ao estado

Há exatamente um ano após a morte do adolescente, a polícia não concluiu o inquérito sobre a operação, segundo informações do advogado João Tancredo. Procurada, por mais de uma semana, a Polícia Civil do Rio não se pronunciou sobre o caso tampouco sobre as críticas do defensor.

A defesa sinalizou preocupação com a investigação realizada pela Polícia Civil sobre sua própria equipe.

"A Polícia Civil fez um laudo corporativo, pois quem está envolvido no crime são policiais da Core [Coordenadoria de Recursos Especiais], ou seja, da própria Polícia Civil. O laudo diz que a vítima foi atingida nas costas por traficantes que estavam atrás do Marcos Vinícius, em uma rua paralela à linha Vermelha, mas o Marcos, na verdade, estava de frente para via. O laudo é um absurdo."

O advogado explicou que será difícil responsabilizar o autor do disparo no processo criminal.

"O criminal é contra o policial que atirou no Marcos. Esse processo a gente acredita que não vai dar em nada porque os policiais estavam com touca ninja e não tem como identificá-los. Eles não tinham identificação na farda e, no processo criminal, você tem que apontar os autores do disparo. As testemunhas viram os policiais descendo do blindado, se posicionando perto de um muro e atirando, um deles contra o Marcos, mas não temos como identificar esse policial."

O processo cível, que analisará a indenização à família, aguarda a marcação da primeira audiência em que testemunhas serão ouvidas. O advogado diz acreditar que o processo todo demore ainda cinco anos até que o estado seja condenado a indenizar a família de Marcos Vinícius. Na ação, a defesa espera que a família (pai, mãe, irmã e avó) receba R$ 2,5 milhões.

"Isso é o juiz que vai decidir, mas a gente pondera o quanto essas famílias ficam destruídas. São famílias pobres que continuam morando no mesmo lugar e são obrigadas a conviver com as lembranças do espaço. Elas vivem diariamente aquela ausência o que provoca danos emocionais", afirmou Tancredo.

Reprodução
22.jun.2018 - Marcas de tiros no chão da Maré que teriam sido disparadas por helicóptero em operação Imagem: Reprodução

Relembre o caso

A operação da Polícia Civil na Maré ocorreu em 20 de junho de 2018. O tiroteio começou após a chegada de equipes especializadas da Polícia Civil do Rio na comunidade.

O objetivo da operação era cumprir 23 mandados de prisão e "checar informações de inteligência".

A operação estaria relacionada ao assassinato do policial Ellery Ramos de Lemos, chefe dos investigadores da Dcod (Delegacia de Combate às Drogas). Ele foi morto a tiros em Acari, outra favela da zona norte do Rio, no mesmo mês. Os policiais estariam em busca dos criminosos que teriam buscado refúgio na Maré. Ninguém foi preso.

Durante a operação, Marcos foi baleado nas costas. O tiro perfurou a lombar e atingiu o abdômen. O menino foi levado para uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e, depois, transferido em estado grave para o Hospital Getúlio Vargas, também na zona norte, onde foi operado. O adolescente não resistiu.

Moradores denunciaram que um helicóptero da polícia realizou disparos em voos rasantes na comunidade. O laudo da polícia indica que Marcos foi atingido por um tiro disparado na horizontal, ou seja, do chão, como afirmaram as testemunhas.

O velório do estudante ocorreu no Palácio da Cidade, no bairro de Botafogo, sede da prefeitura do Rio, na zona sul. Marcos foi enterrado no Cemitério São João Batista, no mesmo bairro. O funeral foi pago pelo estado.

*Edição: Silvia Ribeiro

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