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Amigo de Ronaldo, "doleiro dos doleiros" driblou polícia e cansou de fugir

Dario Messer, o "doleiro dos doleiros" foi preso pela PF no apartamento em que se escondia, nos Jardins, em São Paulo.  - Reprodução
Dario Messer, o 'doleiro dos doleiros' foi preso pela PF no apartamento em que se escondia, nos Jardins, em São Paulo. Imagem: Reprodução

Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, em Curitiba

03/08/2019 04h01

Dario Messer estava cansado antes de ser preso. Quem mantinha contato com o chamado "doleiro dos doleiros" disse que, há tempos, ele sentia-se farto de ter que se esconder de policiais e da Justiça para poder se deslocar entre o Brasil e o Paraguai, países nos quais mantinha seus negócios e onde era considerado foragido desde maio do ano passado.

Messer é acusado pela Lava Jato de liderar um esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado US$ 1,65 bilhão, usando contas de 3.000 empresas em 52 países.

A defesa de Messer alega que ele é inocente. Diz que as investigações de 2009 já o apontavam como suspeito de lavar dinheiro, mas que ele acabou inocentado na Justiça. O advogado Átila Machado já pediu que seu pedido de prisão seja reconsiderado. Até agora, isso não aconteceu.

O MPF e a PF tratam a prisão de Messer como um marco na história do combate à lavagem de dinheiro. Atrás das grades, há chance de que ele finalmente decida-se por colaborar com a Justiça.

Seus serviços teriam beneficiado inúmeros políticos e empresários corruptos. Ele sinalizava estar disposto a citar todos em uma delação premiada em troca de benefícios para que pudesse se entregar e acertar suas contas com a Justiça.

MPF vai investigar quem são os clientes de Dario Messer

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Um telefonema, entretanto, mudou tudo.

Policiais federais reconheceram numa ligação da namorada de Messer a voz do doleiro. A linha dela vinha sendo monitorada desde que os investigadores obtiveram informações de que Messer estaria vivendo num apartamento junto da amante, no bairro dos Jardins, em São Paulo.

A voz de Messer na chamada interceptada serviu como confirmação do seu paradeiro.

Às 16h40 da última quarta-feira, Messer foi preso na casa da namorada. No local, também foram apreendidos R$ 56 mil em dinheiro, além de joias.

O doleiro foi levado para o Rio de Janeiro de avião. Na sede da Superintendência da PF na capital carioca, ele dormiu dentro de uma cela pela primeira vez na sua vida. No dia seguinte, foi transferido para o Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, onde aguarda seu julgamento.

Banco fora da lei

A Lava Jato no Rio de Janeiro denunciou Messer pelos crimes de formação de quadrilha, organização criminosa, lavagem de ativos, evasão de divisas, corrupção passiva e operação de instituição financeira não autorizada. O doleiro foi um dos 62 investigados na operação Câmbio, Desligo --a maior já realizada pela Lava Jato.

Segundo o MPF (Ministério Público Federal), Messer chefiou uma rede de doleiros que ajudou centenas de corruptos e sonegadores a enviar dinheiro para o exterior sem declarar suas transações às autoridades. Possibilitou também que essas mesmas pessoas recebessem no Brasil recursos não declarados que eram mantidos fora do país.

Tudo isso teria sido viabilizado por uma espécie de "banco paralelo" operado por Messer e seus funcionários. Esse "banco" contava com ao menos dois sistemas informatizados de controle de operações.

A carteira de clientes do "banco" de Messer incluía, por exemplo, antigos fregueses de seu pai, o polonês Mordko Messer, já falecido. Messer pai teve agências de câmbio no Rio de Janeiro e ficou conhecido como o primeiro doleiro do Brasil.

Foi Mordko quem acolheu no Rio o ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes quando ele deixou o país vizinho acusado de evasão fiscal, nos anos 1990. Cartes já declarou que considera Dario Messer um "irmão de alma".

Os dois criaram juntos uma casa de câmbio no Paraguai, a qual virou o Banco Amambay anos depois. A instituição manteve negócios com o Banco Paulista, investigado na Lava Jato por lavar dinheiro da Odebrecht.

Dário Messer, o maior doleiro em atividade no Brasil  - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Messer era conhecido por celebridades e fazia festas em seu apartamento no Rio.
Imagem: Reprodução/Facebook

Mensalão, Banestado, CPI no Paraguai

Cartes, entretanto, não é o único político com qual Dario Messer mantinha relações. O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, preso e condenado na Lava Jato, teria usado os serviços do doleiro para mandar para o exterior o dinheiro da propina que recebia por suas negociatas .

O doleiro também teria prestado serviços aos operadores do Mensalão, escândalo investigado entre 2005 e 2006.

Toninho Barcelona, um dos investigados no caso, chegou a dizer em depoimento no Congresso Nacional que Messer era o principal doleiro do PT (Partido dos Trabalhadores).

Ele também teria atuado no caso Banestado, o banco estatal do Paraná que foi tema de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Congresso em 2003.

Teria até lavado dinheiro nos anos 1980 para o então patrono da escola de samba Salgueiro, Waldomiro Paes Garcia, o Miro.

"Estrela" de CPI paraguaia

As conexões de Messer eram tão extensas que o doleiro, sozinho, virou tema de uma CPI no Senado do Paraguai.

A CPI durou de maio de 2018 a abril deste ano. Seu relatório informa que Messer manteve contas de diferentes bancos do país para lavar dinheiro e contou com falhas de fiscalização do governo para operar por lá.

Messer é cidadão paraguaio e mantinha no país parte de sua fortuna. O doleiro tem fazendas e empresas no Paraguai. Seu patrimônio lá está avaliado em US$ 100 milhões, cerca de R$ 380 milhões.

Festa e famosos

Já no Brasil, Dario Messer mantinha uma coleção de obras de artes e imóveis. Ele viveu por anos num apartamento triplex em frente a praia do Leblon, no Rio. De lá, é possível avistar as Ilhas Cagarras. Por conta disso, de acordo com investigações da Lava Jato, Cagarras era um codinome usado por Messer em suas transações.

Era no triplex do Leblon que Messer recebia visitantes ilustres. O doleiro era amigo do ex-jogador de futebol Ronaldo, por exemplo. Era lá também que ele sediava festas, como a de despedida de solteiro de seu filho, Dan Messer, realizada ainda em 2018, pouco antes da deflagração da Câmbio, Desligo.

Dan fechou um acordo de colaboração premiada com a Lava Jato do Rio de Janeiro neste ano. O acordo já foi homologado pela Justiça e envolve, além dele, outros membros da família Messer.

Todos eles se comprometeram a devolver à Justiça brasileira cerca de R$ 370 milhões. Em troca, terão seus processos suspensos.

Dario Messer deu seu aval ao acordo de delação premiada fechado por seus familiares. Isso aumentou as expectativas sobre uma possível delação pessoal do doleiro e chegou a afastar advogados contrários ao acordo.

Para alguns dos seus defensores, havia chances de Messer escapar da prisão mesmo diante das graves acusações contra ele.

Fuga e drible na polícia

Messer nunca havia sido preso. Em 2009, a Justiça Federal chegou a decretar a prisão do doleiro na operação Sexta-Feira Treze, que também investigou sua participação em esquemas de lavagem de dinheiro. Ele, contudo, não foi detido, pois estava fora do país. Quando voltou, seu pedido de prisão já havia sido anulado.

Em maio de 2018, quando teve sua prisão novamente decretada, desta vez pelo juiz federal Marcelo Bretas, Messer também não foi encontrado.

Segundo investigações, em 2014, quando a Lava Jato começou, ele passou a ficar mais tempo no Paraguai do que no Brasil.

No Paraguai, aliás, Messer chegou a ir até um cartório para assinar uma procuração quando já era considerado foragido por lá. O fato gerou uma crise no país e o então ministro do Interior, Juan Ernesto Villamayor, teve que vir a público dizer que um "policial não deve ser amigo de um criminoso".

Investigações no Brasil apontam que Messer circulava por São Paulo há cerca de quatro meses. De barba, cabelo pintado e com uma identidade falsa, o doleiro se passava por um médico e dizia se chamar Marcelo.