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Com verba atrasada, obras de R$ 840 milhões se arrastam na periferia de SP

O bairro Jardim Monte Verde, no Grajaú, virou um canteiro de obras inacabadas e de descarte de lixo irregular - Cleber Souza/UOL
O bairro Jardim Monte Verde, no Grajaú, virou um canteiro de obras inacabadas e de descarte de lixo irregular
Imagem: Cleber Souza/UOL

Cleber Souza

Do UOL, em São Paulo

07/10/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Expansão da linha 9-esmeralda já custou R$ 445 milhões
  • Urbanização de bairro no Grajaú gastou R$ 395 milhões
  • Parados, projetos deixam população vivendo em canteiro de obras
  • Governo e prefeitura culpa falta de repasses federais

Obras de urbanização e mobilidade nos bairros do Grajaú e Jardim Varginha, extremo sul de São Paulo, são motivos de transtornos para moradores da região. Algumas construções nem sequer foram iniciadas. Outras estão inacabadas.

A expansão da linha 9-esmeralda, da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), que já custou R$ 445 milhões, e a urbanização do Jardim Monte Verde, no Grajaú, no valor de R$ 395 milhões, se arrastam há anos por falta de verbas.

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL
Já a construção da Ponte Graúna-Gaivotas, que ainda não saiu do papel, prevê um investimento de R$ 5 milhões.

De responsabilidade da prefeitura, na gestão de Bruno Covas (PSDB), e do governo de São Paulo, na de João Doria (PSDB), as obras visam melhorias na região, mas moradores criticam a demora na execução. Sem a entrega dos projetos, moradores gastam até duas horas para se deslocarem até seus destinos.

O UOL observou na região que, além dos problemas com as obras, também faltam asfalto, iluminação, manutenção de córregos e poda de árvores.

Os dois bairros possuem, juntos, cerca de 600 mil habitantes. Têm escolas públicas em áreas com infraestruturas inadequadas e com muitos comércios aos arredores. Todos afetados pela interrupção das obras.

Morando no Grajaú há 27 anos, William Henrique Santos, 35, técnico em suporte de tecnologia, relata sofrer com o descaso.

"Os transtornos vão desde buracos em avenidas, que impactam no trânsito, até a falta de saneamento básico. É claro o abandono do nosso distrito", disse.

Para o técnico, as obras são apenas promessas em anos de eleições e que nunca são concretizadas. "Não tem cabimento, obras em que são investidos milhões de reais, não terem a perspectiva de quando e se ficarão prontas", completou Santos.

As críticas não são apenas de Santos e se refletiram nas urnas. Bruno Covas, que tentará a reeleição no próximo ano, perdeu no Grajaú e na vizinha Parelheiros em 2016, quando era vice na chapa de Doria.

Após quatro meses do anúncio de retomada das obras, a estrutura da estação Varginha continua abandonada - Arquivo pessoal
Após quatro meses do anúncio de retomada das obras, a estrutura da estação Varginha continua abandonada
Imagem: Arquivo pessoal
Linha 9-esmeralda atrasada e abandonada

O governo de São Paulo anunciou em 15 de maio a retomada das obras de expansão da linha 9-esmeralda, que liga Grajaú à cidade de Osasco, na região metropolitana. Quatro meses depois, o que se encontra no local é a estrutura da futura estação abandonada. Doria disse que vai entregar as duas estações dessa expansão, Varginha e Mendes-Vila Natal, até 2021.

Para que os moradores se desloquem até o centro da capital, é preciso pegar um ônibus que sai do terminal Varginha até o terminal Grajaú e de lá fazer baldeação para a estação Grajaú. Com a obra paralisada, os usuários gastam em média uma hora para fazer esse percurso.

O professor de educação física Rodolfo Paes, 38, mora no Parque das Árvores há 26 anos. Ele faz um trajeto até o seu trabalho passando pelo terreno que abrigará a futura estação Varginha e o novo terminal de ônibus. Afirma que vê todos os dias um número pequeno de homens trabalhando no local.

"O trecho entre Mendes-Vila Natal e Varginha está parado, com exceção de alguns homens trabalhando. Mas o número de funcionários não chega a dez", afirmou o professor.

"É inadmissível. Iniciaram uma obra e depois simplesmente abandonaram alegando falta de recursos. Essa expansão era para estar pronta desde o início de 2016. Já são quase quatro anos de atraso e, certamente, o custo inicial da obra irá subir consideravelmente. É uma irresponsabilidade", diz Paes.

Para o professor, a conclusão das obras reduziria o tempo de deslocamento dos moradores do Jardim Varginha até outros bairros da cidade.

Em nota, a STM (Secretaria de Transportes Metropolitanos) disse que as obras do primeiro lote de expansão da linha 9-esmeralda, que engloba a implantação da Estação Mendes-Vila Natal, foram retomadas no fim do ano passado.

Já a implantação da Estação Varginha teve o contrato assinado. Agora a CPTM aguarda a emissão da OS (Ordem de Serviço).

A STM também afirma que o governo federal demorou para liberar recursos financeiros, no valor de R$ 500 milhões, previstos no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da Mobilidade desde 2014, por isso as obras estão atrasadas.

Após colocarem guias e calçadas, obras no Jardim Monte Verde foram paralisadas e o mato tomou conta do local - Cleber Souza/UOL
Após colocarem guias e calçadas, obras no Jardim Monte Verde foram paralisadas e o mato tomou conta do local
Imagem: Cleber Souza/UOL
A vida num canteiro de obras

No Jardim Monte Verde, no Grajaú, cerca de 5.000 famílias convivem com abandono de obras, além da falta de manutenção e de zeladoria no bairro. A urbanização se arrasta desde 2010, ano em que guias e calçadas foram colocadas. Ainda faltam asfalto e iluminação nas ruas Luísa Carioba, Quatro, União e Nova Cultura.

O bairro possui escolas da rede estadual que funcionam em três turnos, manhã, tarde e noite. A dificuldade de acesso às escolas é um dos principais problemas, sem contar o descarte de lixo e a falta de manutenção de córregos.

A dona de casa Zelinda Aparecida da Silva, 37, diz que, desde que foi morar no Jardim Monte Verde, há 12 anos, existe essa promessa de melhorias no bairro.

"Completamente abandonado. O bairro tem duas escolas estaduais funcionando em condições precárias. A única rua principal, que é a rua Quatro e dá acesso às duas escolas, não tem asfalto. É cheia de buracos e piora em dias de chuvas", completou a moradora.

Procurada pelo UOL, a prefeitura diz em nota que a continuidade das obras de infraestrutura urbana estava prevista em contrato na Sehab (Secretaria Municipal de Habitação), mas culpa a falta de repasses federais para a finalização dos serviços.

"Os trabalhos começaram a ser executados, mas tiveram de ser paralisados após o governo federal rescindir, unilateralmente, o convênio, via PAC. O suporte financeiro dos trabalhos seria usado para a continuidade das intervenções", afirma a prefeitura.

Ainda não há prazo para a retomada das obras.

Projeto de construção da ponte ainda não saiu do papel - Divulgação/Edital de construção da Ponte Graúna-Gaivotas
Projeto de construção da ponte ainda não saiu do papel
Imagem: Divulgação/Edital de construção da Ponte Graúna-Gaivotas
Construção da Ponte Graúna-Gaivotas

Anunciada em 28 de agosto de 2018 por Covas, a construção da Ponte Graúna-Gaivotas ainda está em definição de projeto. Segundo a prefeitura, só será possível estimar um prazo de início das obras após o segundo semestre de 2020, tempo previsto para esta etapa.

Esperada pelos moradores da zona sul desde 2008, quando começou a ser negociada, a ponte ligará o Jardim Gaivotas e o Cantinho do Céu ao Jardim Graúna, bairros separados pela represa Billings.

Também diminuirá o fluxo na principal via do bairro Grajaú, a avenida Dona Belmira Marin, com aproximadamente 7 km de extensão.

A pedagoga Dayane Ferreira, 27, mora na região há 25 anos. Ela conta que ouve falar do projeto de construção da ponte há pelo menos uma década e que perde até duas horas por dia no trânsito da Belmira Marin.

"A última notícia que soube foi que o projeto tem previsão de início em 2020. Imagino que após 2026 apenas a obra estará liberada. Isso se não for como a obra de expansão da avenida Belmira Marin, que demorou anos, e a de expansão da linha 9-esmeralda, que está parada há muito tempo", disse.

Para Ferreira, a construção da ponte beneficiaria os bairros do extremo sul que possuem um grande número de pessoas. Reduziria também o tempo de deslocamento entre a região e o centro.

"Acredito que valorizará os bairros e dará alternativa de entrada e saída, nos libertando da sensação de prisão e dependência de uma única via", completou.

A prefeitura diz que, por meio de nota, que, "após muitos anos de demanda da população, a atual gestão contratou os estudos e projetos necessários para viabilizar a construção da ponte". "O contrato contempla o licenciamento ambiental e os projetos básicos e executivos necessários para a futura realização da obra. O número de desapropriações está em fase de estudo."

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