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Golpe de estagiário da Defensoria cobrava parentes de presos em Nova Iguaçu

Roni Mathias cobrava por serviço oferecido de graça pelo poder público - Reprodução da internet
Roni Mathias cobrava por serviço oferecido de graça pelo poder público Imagem: Reprodução da internet

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

11/02/2020 04h02Atualizada em 13/02/2020 13h58

Resumo da notícia

  • Estagiário recebeu pelo menos R$ 3.500 de parentes de presos
  • Ele exigia pagamentos a parentes de detentos e prometia soluções
  • Roni foi condenado a quatro anos e seis meses por corrupção passiva

O UOL obteve detalhes exclusivos sobre o caso do estagiário da Defensoria Pública do Rio de Janeiro que desafiou o Judiciário ao exigir pagamentos indevidos por assistência jurídica a parentes de presos. Segundo a denúncia do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro), ele trocava mensagens pelo WhatsApp com as vítimas e combinava receber até na faculdade onde estudava direito em Nova Iguaçu (RJ), na Baixada Fluminense.

Entre dezembro de 2015 e março de 2016, Roni Alvaro Bento Mathias recebeu pelo menos R$ 3.500 de oito vítimas, com a falsa promessa de agilizar processos ou até colocar os detentos em liberdade. O serviço é gratuito, e oferecido pelo Estado a pessoas sem condições financeiras para contratar um advogado.Condenado a quatro anos e seis meses pelo crime de corrupção passiva em continuidade delitiva, em regime semiaberto, ele acabou sendo detido em um mandado de prisão cumprido pela Polícia Civil no último sábado, enquanto estava em uma praia no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste carioca. O advogado José Messias da Silva Rodrigues, que representa Roni, disse que os parentes de presos fizeram os pagamentos de maneira espontânea "por ficarem gratificados pelo bom atendimento".

De acordo com a denúncia apresentada pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro), Roni tirava proveito do desespero das pessoas assistidas para cobrar já no primeiro atendimento. Para convencê-las, chegava a argumentar que, para contratar um advogado, elas precisariam pagar pelo menos R$ 10.000.Em seguida, marcava uma nova conversa, sempre às sextas-feiras, dia da semana onde o funcionamento era dedicado a serviços internos da Defensoria. Com isso, conseguia agir sem ser observado por outros funcionários do órgão.

Para exigir o pagamento impunemente, também alertava as vítimas, falando que não deveriam falar diretamente com a defensora Raquel Ayres, que na época acumulava a atuação em processos na 1ª e 2ª Vara Criminal de Nova Iguaçu.

Ele agia na mesma sala onde ficava a defensora

O crime costumava ser cometido no mesmo ambiente onde estava a defensora. Em entrevista ao UOL, ela relembra de uma vez em que conversou com o estagiário em meio a um atendimento, sem saber que ele estava exigindo dinheiro indevidamente.

"Eu não tinha um gabinete. Então, os estagiários atendiam na mesma sala em que eu ficava. Uma vez, me aproximei e percebi que ele ficou tenso. Mas achei que era por ser estagiário novo. Jamais iria imaginar que ele tinha ficado nervoso por estar praticando um delito bem na minha frente".

Farsa descoberta

Quando se candidatou para a vaga, Roni causou boa impressão pela desenvoltura para falar com o público. Mas a sua forma de agir começou a despertar suspeitas na Defensoria.

O caso só veio à tona porque uma das vítimas, a mãe de um rapaz acusado de envolvimento com o tráfico de drogas, desconfiou das atitudes de Roni. Depois de cobrar R$ 1.000 com a promessa de colocar o rapaz em liberdade, o estagiário passou a evitá-la.

Em um novo atendimento na sala destinada aos atendimentos da Defensoria, ele voltou a exigir dinheiro. Foi quando a vítima começou a chorar compulsivamente, porque não teria como pagar pelo atendimento e passou a desconfiar ter caído em um golpe. Uma outra estagiária chegou a levar um copo d'água, para acalmá-la.

Ela, então, tomou coragem e decidiu procurar a defensora, contrariando as orientações de Roni.

Aí, ela me contou tudo. Isso me causou imensa indignação, porque ele estava tripudiando da desgraça alheia. As pessoas chegam arrasadas e fragilizadas, com o estado emocional abalado. E ele se aproveitava disso

Raquel Ayres, defensora pública

A partir de então, Raquel Ayres exonerou Roni da Defensoria e abriu uma investigação por conta própria. Entre abril e maio de 2016, ouviu todas as pessoas que tiveram contato com ele. Em seguida, remeteu o caso ao MP-RJ, que denunciou o caso à Justiça em setembro daquele ano.

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Suspeitas de outras farsas

Depois da descoberta do caso, surgiram outras histórias envolvendo Roni, que se apresentou na Defensoria como ex-enfermeiro de um hospital de Nova Iguaçu. Mas, na verdade, ex-colegas descobriram que ele só tinha trabalhado na recepção do local.

Em fotos nas redes sociais, se exibia, posando com um jaleco onde estava escrito: "Doutor Roni", para se apresentar como médico. O perfil dele foi apagado.

Segundo pessoas próximas, abandonou a faculdade de direito e precisou sair às pressas de Nova Iguaçu meses depois da farsa descoberta, porque teria se envolvido em uma confusão em área dominada pela milícia.

Para a defensora, a prisão colocou um ponto final na história do estagiário que usou o nome da instituição para exigir pagamentos de pessoas de baixa renda. "A condenação dele é a manutenção da integridade do meu nome e do nome da Defensoria Pública".

Errata: o texto foi atualizado
Roni Alvaro Bento Mathias era estagiário da Defensoria Pública, e não do Ministério Público, como informava o título da matéria anteriormente. O texto foi corrigido.

Cotidiano