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Como a crise do corona afetou a Vila Mimosa, zona de prostituição no RJ

26.mar.2020 - Vila Mimosa tem ruas vazias e pouco movimento por conta do coronavírus - Caio Blois/UOL
26.mar.2020 - Vila Mimosa tem ruas vazias e pouco movimento por conta do coronavírus Imagem: Caio Blois/UOL

Caio Blois

Do UOL, no Rio

27/03/2020 04h00

A Vila Mimosa, conhecida zona de prostituição do Rio de Janeiro, passa por mais uma crise por causa do coronavírus. Nas suas ruas vazias e hostis, o baixo movimento escancara ainda mais a condição insalubre da região, onde poucas prostitutas e comerciantes penam durante a quarentena em meio a ratos, esgoto a céu aberto e muita pobreza.

Reduto de notívagos e garotas de programa, o maior dos submundos da exploração sexual na capital fluminense movimenta mais de R$ 1 milhão por mês. Lá, o aperto econômico após a pandemia tem assustado mais do que a própria covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus.

Dos 15 prostíbulos virados para a rua Sotero dos Reis, apenas três estavam abertos na noite de quarta-feira (25) quando a reportagem do UOL esteve na Vila Mimosa. Em vez das mais de 2.500 prostitutas que costumam encher as calçadas e boates, pouca gente aparecia por ali. Havia mais consumidores do comércio local do que mulheres vendendo sexo.

Os bares, estacionamentos, lanchonetes, salões de beleza, lojas, oficinas mecânicas, lavanderias, táxis e ambulantes estão indiretamente ligados à indústria do sexo, com a qual dividem a clientela desse sub-bairro, na divisa entre a Praça da Bandeira e São Cristóvão, na zona norte carioca. Na região, cerca de 70 casas —entre residências, estabelecimentos comerciais e boates— se dividem em quatro ruas, cujo comércio está praticamente todo fechado.

"Tem pouca gente por aqui. Só essas duas boates grandes abriram hoje --ontem, havia apenas uma. As mulheres não estão vindo para cá porque não há clientes e várias casas estão fechadas. O movimento está horrível. Não estou faturando nem 10% do que costumo em uma noite como essa", conta Benedito, 59, dono de um quiosque anexo à entrada de uma famosa galeria.

Ambulantes da Vila Mimosa registram queda nas vendas por causa do coronavírus - Caio Blois/UOL - Caio Blois/UOL
Ambulantes da Vila Mimosa registram queda nas vendas
Imagem: Caio Blois/UOL

O corredor em formato de ferradura, com duas entradas, aloca mais de 20 bares conhecidos como clubes de strip tease. Na prática, as mulheres se espalham pelas galerias chamando a atenção de clientes. Com o coronavírus, entretanto, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) fechou termas e boates, e o espaço amanheceu com tapumes na segunda (23).

Sem as mulheres trabalhando e com menos gente procurando programas, estamos com 99% menos movimento. Vamos fechar e reabrir só na segunda semana de abril

Francisco, 59, vendedor de churrasquinho

Na porta de uma casa (também fechada na noite de quarta), o ambulante diz não temer o coronavírus. "Estamos expostos a coisas piores por aqui."

Casas transformadas em boates de prostituição foram fechadas pela Prefeitura - Caio Blois/UOL - Caio Blois/UOL
Casas transformadas em boates de prostituição foram fechadas pela prefeitura
Imagem: Caio Blois/UOL

As condições insalubres da Vila Mimosa foram alvo da prefeitura durante a CPI dos Incêndios. Também conhecida pela péssima situação sanitária --famílias inteiras dividem o espaço com mulheres de programa--, a zona de prostituição chegou a ser interditada em dezembro, mas sem fiscalização, foi reaberta no dia seguinte.

Também reflexo da crise do corona, a Mosaico Night Club, maior e mais famosa boate da Vila Mimosa, fechou as portas na semana passada por tempo indeterminado. Uma luz no andar de cima, onde ficam os quartos, chamava a atenção. Era a suíte Catra, a mais cara da casa, em alusão ao músico morto em 2018, sócio e frequentador do local. Alguns minutos ali com uma garota de programa custam R$ 500.

Sozinha, a Mosaico tem faturamento bruto de "centenas de milhares de reais" ao mês, segundo exagera um segurança que estava no local.

Por coronavírus, a Mosaico, boate mais famosa da Vila Mimosa, fechou por tempo indeterminado - Caio Blois/UOL - Caio Blois/UOL
A Mosaico, boate mais famosa da Vila Mimosa, fechou por tempo indeterminado
Imagem: Caio Blois/UOL

"Só estou aqui porque sabia que estaria deserto"

Um raro de grupo de motoqueiros —a Vila Mimosa também abarca uma cena underground do rock carioca e moto-clubes— em um bar na esquina da rua Lopes de Souza com a Sotero dos Reis disse nunca ter visto a vila tão vazia. "Só esse bar está aberto. No dia que fechar, também, será o apocalipse", brinca Nascimento, que estranha o fechamento do estabelecimento ao lado.

"Não sabia nem que a Mosaico tinha porta. O governo precisa se mexer para não quebrar o país", afirma, sem esconder o medo do coronavírus. "Só estou aqui porque sabia que estaria deserto", conta o dono de uma Harley Davidson Shovel 841.

"Vai morrer mais gente de fome do que de coronavírus", diz um cliente do bar de um moto clube. Ao sair da cozinha, o dono, mantendo o personagem, expulsa a reportagem do local, que costuma estar repleto de motoqueiros e fãs de rock progressivo.

Antônio, dono de um depósito de bebidas que também funciona como mercearia, vendeu pouco desde o início da quarentena, e culpa o governo pela exposição de trabalhadores como ele nas ruas durante a pandemia do coronavírus. "Se eu ficar em casa, não faturo um centavo. O pouco que ganho aqui é melhor do que nada", diz.

"Em vez de ajudar os trabalhadores e as pessoas que dão emprego, o [Jair] Bolsonaro faz piada na televisão. Não tenho medo da doença, mas esperava algumas medidas para diminuir a crise. Já já vão saquear mercados", opina.

Passada a meia-noite, um food truck de cachorros-quentes era a única opção de alimentação na noite da Vila Mimosa. Ainda assim, estava vazio como o caixa. "A gente costuma fazer muito mais dinheiro. Eu trabalho por diária, então tenho que vir. Tem pouco mais de R$ 60 no caixa. Geralmente fechamos com dez vezes mais dinheiro, pelo menos. Está complicado", comenta Júnior, que cuida do pequeno comércio.

Foodtruck na Vila Mimosa fatura menos de 10% do normal por conta do coronavírus - Caio Blois/UOL - Caio Blois/UOL
Food truck na Vila Mimosa fatura menos por conta do coronavírus
Imagem: Caio Blois/UOL

No entorno, prostitutas 'desistem' da noite

As ruas do entorno da Vila Mimosa são praticamente uma extensão do que se vê por ali. Pontos de prostituição pelas ruas do bairro de São Cristóvão costumam ter mais de 50 mulheres em uma noite durante a semana. Na quarta passada, eram vistas apenas nove.

A transexual Laís, 24, costuma trabalhar por seis horas fazendo programas no local. Cobrando R$ 50 por uma relação sexual no carro, ela fatura ao menos R$ 300 por noite. Durante a quarentena, entretanto, estendeu seu regime de trabalho por mais duas horas. Por volta das 22h, entretanto, ainda não tinha saído do ponto.

"Cheguei às 19h. Costumo trabalhar menos, mas aumentei um pouco porque a pista está muito vazia. Não tem movimento nenhum. Passam poucos carros e não tenho clientes fixos. Talvez nem volte amanhã", conta.

O posto de gasolina em frente ao ponto, que funciona 24 horas, também notou a diminuição no movimento. E registra acentuada queda de faturamento. "De diferente só o álcool em gel", diz Helen, caixa da loja de conveniência.

"Pelo menos 70% a menos do que o normal", calcula o frentista Felipe, que comenta o baixo movimento na região da Vila Mimosa.

"As meninas são nossas conhecidas, passam por aqui sempre. Mas não estão vindo. Elas desistiram e também estão se precavendo do vírus. Passa pouca gente para sair com elas, não vale a pena o deslocamento de onde moram até aqui. Só ficaram as que moram por perto."

Nos dois pontos de táxi mais próximos da Vila Mimosa, apenas um taxista esperava na porta do Hospital Quinta D'Or. Cristiano não pegou nenhum passageiro na noite de quarta e decidiu voltar para a casa, assim como quatro de seus companheiros.

"Pode morrer mais gente de fome com a crise do que de coronavírus. O governo poderia tomar medidas para suavizar nossas dívidas, contas, algo de seguridade social. Eu compreendo os médicos e sei dos perigos, mas mais uma crise é algo que nos assusta muito. Estamos em média esperando 4 horas por passageiro", relata Cristiano.

Em Copacabana, pontos desertos

Na noite de quarta, apenas três mulheres se aventuravam como garotas de programa na avenida Atlântica. Da calçada que divide as duas mãos da via, só um policial observava o movimento.

"Está cada dia mais vazio. Não tem meninas, pessoas, passa pouca gente, geralmente correndo na orla ou andando com cachorro. Até os bandidos estão em casa com medo do vírus", afirmou.

Em Copacabana, pontos de prostituição estavam vazios por conta do coronavírus - Caio Blois/UOL - Caio Blois/UOL
Em Copacabana, pontos de prostituição estão vazios por conta do coronavírus
Imagem: Caio Blois/UOL

Na altura da avenida Prado Júnior, outro notório ponto de prostituição, a esquina geralmente movimentada não tinha nem sequer uma alma. Antes mesmo da meia-noite, a via à beira-mar estava deserta.

Morena, 23, afirmou trabalhar para manter a mentira. Casada, ela finge para a família ser enfermeira. Para manter a história, em tempos de crise, sai de casa como se fosse fazer um plantão. "Se eu fizer um programa, já está bom. Há muitos estrangeiros, pagam em moedas valiosas", conta a moradora de Duque de Caxias.

"A doença pode sarar. Se me descobrirem aqui, não sei o que será feito de mim", disse a moça.

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