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Covid-19: Sem recurso para celular ou TV, mais pobres sofrem sem informação

Evelyn, Josué, e seu filho Guilherme: sem internet, sem celular, sem informação - Arquivo pessoal
Evelyn, Josué, e seu filho Guilherme: sem internet, sem celular, sem informação Imagem: Arquivo pessoal

Cleber Souza

Do UOL, em São Paulo

27/04/2020 04h06

Sem aparelho smartphone ou internet para solicitar benefícios durante a pandemia, e tampouco ter acesso a informações sobre a covid-19, a diarista Evelyn Cristina, 24, busca a ajuda de voluntários e vizinhos da comunidade de Heliópolis, na zona sul, onde mora em um cômodo com seu esposo, Josué Antunes, 35, e seu filho Guilherme Henrique, 5.

"Eu dependo desses R$ 600 [auxílio emergencial]. Estamos desempregados. Não temos condições de ter celular e nem internet em casa. Sem telefone, empregos não chamam, ainda mais agora com essa crise. Ou comemos e cuidamos do nosso filho, ou passamos fome se gastarmos com um celular", disse Evelyn ao UOL.

Dados da Anatel indicam que no Brasil 17% dos habitantes não têm acesso a qualquer tipo de tecnologia móvel. O país terminou fevereiro de 2020 com 227,1 milhões de celulares ativos.

"É situação desesperadora, tenho medo de sair na rua por tudo, por causa do vírus. Ainda bem que a comunidade aqui é unida, um ajuda o outro, assim ficamos sabendo de todas informações necessárias", disse Evelyn

A covid-19 chegou às comunidades mais carentes de São Paulo e, com ele, os problemas comuns no cotidiano da população estão sendo expostos. As dificuldades vão desde a falta de acesso à informação até a falta de um hospital público.

A Vila Brasilândia, zona norte da capital paulista, é a comunidade com o maior número de mortes suspeitas e confirmadas por coronavírus, 55 óbitos até o momento, segundo boletim semanal da prefeitura de São Paulo. Lá, moradores têm dificuldades para conseguir informações exatas de como se precaver sobre o coronavírus e de como acessar o site da Caixa Econômica Federal, por exemplo.

Fila para pegar cesta básica na comunidade de Marsilac - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Fila para pegar cesta básica na comunidade de Marsilac
Imagem: Arquivo pessoal

Trabalhador de ferro velho, morador de uma casa pequena de dois cômodos, Sandro Evangelista, 45, tem dificuldades com leitura e pouco acesso à tecnologia. Ele precisou ir atrás de ajuda para solicitar o auxílio emergencial. Por conta do coronavírus, o catador está "parado" em casa, e ainda aguarda aprovação do benefício.

"Vivo na incerteza agora. Estou sem trabalhar, sem saber como vai ser. Falta mais informações para o pobre. O que ficamos sabendo aqui pela comunidade a gente faz, tentando nos cuidar. Mas não há transparência. Informação real não chega na periferia", disse Sandro.

Sem TV, internet e demora no socorro de ambulância

Saber o que fazer se alguém passar mal por causa da covid-19 é uma dúvida na comunidade de Marsilac, extremo sul da capital.

Até o momento, a região tem apenas três casos de óbitos confirmados e suspeitos pelo vírus, de acordo com dados da SMS (Secretaria Municipal de Saúde), mas não há hospital para prestar socorro à população local.

O hospital mais próximo é o de Parelheiros, com percurso de carro de até 40 minutos. Para um chamado de ambulância, a chegada a Marsilac demora três horas, segundo moradores ouvidos pelo UOL. Sinal de internet e de TV são precários. Água limpa também está em falta no local.

"Nós mesmos prestamos socorro, demoramos até 40 minutos para chegar até lá, porque as ruas aqui não são pavimentadas", disse a moradora Luzaine Mendes, 42, desempregada.

Longe de todos centros comerciais da cidade, os moradores dependem de doações por causa do desemprego. Com dificuldade de acesso à informação, a população depende de UBSs (Unidades Básicas de Saúde) para obter notícias sobre o coronavírus na comunidade.

"Quem mora aqui não consegue emprego nem em outra época, imagina agora com esse vírus aí? Uns têm TV e conseguem saber sobre o corona, outros dependem da presença de agentes de saúde. A gente fica sem saber 100% sobre tudo que acontece. E as crianças e jovens que vão precisar fazer aula online, como vão fazer sem TV, internet, um celular?", questionou Luzaine.

Segundo o Ibope, cerca de 97% dos domicílios do país — aproximadamente 71 milhões de imóveis residenciais — possuem pelo menos um aparelho de televisão.

Uma pesquisa realizada pelo Cetic (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), referentes a informações do ano de 2018, mostra que cerca de 46,5 milhões de domicílios têm acesso a internet no Brasil, ou seja, 67% de todas as casas no país têm acesso a rede.

A pesquisa do Cetic também indica que o celular é o mais usado para acesso à internet no Brasil, com 97% dos usuários, seguido pelo computador, com 43%, e as smart TVs, com 30%.

Lideranças comunitárias amenizam ausência do Estado

Líderes comunitários vêm buscando apoios para reforçar suas comunidades no combate ao novo coronavírus. Trabalham na entrega de cestas básicas até o auxílio para cadastros em sites.

Em Brasilândia, o presidente da Associação Girassol Brasil, Rosevaldo Santos Sales, diz que abriu às portas da sede da instituição para atender as pessoas com dificuldades de acesso à informação em suas casas.

"O nosso trabalho aqui vem sendo de conscientização e divulgação de qualquer informação que possa ajuda a população durante essa crise. Isso é extremamente importante. Não dá para depender somente do governo. Nós estamos doando cestas básicas, indo atrás de empresas que possam nos ajudar", disse Rosevaldo.

Roberto Degrande, que atua na SOS Marsilac como assessor de imprensa, diz que a associação vem desempenhando ações sociais e divulgações para manter a população orientada sobre os acontecimentos na comunidade.

"Tem comunidades bem distantes da gente. Marsilac é muito grande. Em alguns lugares até o acesso é difícil. Se for parar para pensar, a comunidade aqui é distante e esquecida ao mesmo tempo", disse o assessor.

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