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Conversas na Crise - Depois do Futuro

Ciclo de debates promovido pelo idEA e pelo UOL


Professor citado em dossiê antifascista relata vazamento de dados privados

Janaina Garcia

Colaboração para o UOL

26/08/2020 18h14

A invasão de privacidade com a posterior divulgação de dados sigilosos foi cogitada hoje por um dos 579 nomes citados no dossiê confeccionado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A ação do governo, revelada em julho pelo colunista do UOL Rubens Valente, e alvo de manifestação contrária por parte do STF (Supremo Tribunal Federal), na semana passada, mirou três professores universitários e servidores federais e estaduais de segurança identificados como integrantes do "movimento antifascismo".

Quem afirma é um desses professores, o antropólogo, cientista político e escritor Luiz Eduardo Soares. Ele foi o convidado da semana do ciclo de debates "Conversas na Crise - Depois do Futuro", promovido pelo IdEA (Instituto de Estudos Avançados) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em parceria com o UOL e mediação do jornalista Paulo Markun.

Na entrevista, da qual também participaram os jornalistas Flávio Costa, do UOL, e Gilberto Nascimento, Soares admitiu pela primeira vez a hipótese de ter tido a privacidade invadida, no ambiente virtual, para a divulgação de dados privados como senhas e logins de acesso as contas, além da clonagem de número telefônico ou perfil no WhatsApp.

"A história não está bem contada ainda. Mas nessa tarde quando o jornalista Rubens Valente trouxe pelo UOL essa notícia, pouquíssimo tempo depois passei a receber avisos de amigos, e minha enteada recebeu uma mensagem da mãe perguntando 'Oi, filha, tá bem?'. Ela achou estranho, o número era desconhecido, e o nome [da mãe] estava escrito errado", conta. Segundo o antropólogo, a enteada fotografou o número que aparecia como se fosse da própria mãe e ligou de volta, mas o contato já estava, aparentemente, inativo.

Ele diz não ter sido o único da lista investigada em sigilo pelo Ministério da Justiça a ter observado movimentação do tipo. "No mesmo momento, um colega meu que também estava na lista teve seu telefone clonado. Mas como tem muito golpe na praça, pensei: 'Não vamos entrar numa teoria conspiratória'."

A existência da lista foi revelada por Valente no último dia 24 de julho, uma sexta-feira. "Na segunda [seguinte], antes das 8h, uma colega da minha esposa nos liga e diz que, ao ligar o computador, aparecem todos os logins e senhas de contas dela [da mulher de Soares] e minha, em uma comunidade onde minha mulher faz trabalho contra a violência doméstica. Aí, a coisa começou a ficar esquisita. Por mais que eu aposte em circunstâncias gratuitas e aleatórias, essa última foi pesada", classificou.

A confirmação de que o Ministério da Justiça realizou um relatório de inteligência por meio da Seopi (Secretaria de Operações Integradas) acabou sendo feita duas semanas depois que o UOL revelou a existência do documento —durante uma sessão virtual, fechada ao público, da CCAI (Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência) do Congresso Nacional.

Indagado se acreditava em movimentações intencionalmente invasoras, a fim de difundir dados privados de integrantes da lista, Luiz Eduardo Soares avaliou:

Não posso afirmar [categoricamente], mas estou compartilhando fatos. É uma hipótese e ela não pode ser excluída, dado o contexto geral. Mas elas se repetiram tanto que ficamos preocupados.

"Polícia era bolsonarista antes de Bolsonaro"

Crítico contumaz do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), no qual afirma ver elementos de inspiração fascista —especialmente pela ode ao belicismo e à existência de um suposto inimigo a ser combatido, na figura da esquerda ideológica—, Soares afirmou durante sua participação no debate que o presidente, na figura de alguém "proveniente dos porões da ditadura", não apenas representa o regime ditatorial oficialmente encerrado no país há 35 anos, em suas formulações, como também "provém do ambiente mais nefasto e degradado que é o da tortura, da arbitrariedade e da violência".

"Esse ambiente dos porões", destacou, era composto por "personagens que vinham das polícias". Não à toa, definiu o antropólogo, a classe policial, à exceção de grupos minoritários, como o dos policiais antifascistas investigados sigilosamente pelo Ministério da Justiça, apoia o presidente que é ex-capitão do Exército e foca o discurso em uma visão de segurança pública refratária aos direitos humanos.

"Isso não é pouca coisa. Acho que temos aí uma rede que se formou e que penetrou a democracia", citou, destacando que, na transição democrática, acordos a "preços muito altos" foram feitos a fim de que o regime fosse finalizado. "Mas os militares reservaram uma área estratégica na negociação da Constituinte, que foi a segurança pública. E esse universo cultural e organizacional é absolutamente refratário à democracia."

Sobre as polícias, nesse contexto, ele é taxativo: "Elas eram bolsonaristas antes de Bolsonaro. Ele encarna esse espírito, esse comportamento, essa cultura corporativa que vem lá de trás", destaca, para definir, enfim, Bolsonaro como a personificação de um "sebastianismo grosseiro que se forjava nesse universo muito significativo que é o policial".

O antropólogo foi secretário nacional de Segurança Pública no primeiro governo Lula (2003-2006) e é coautor do livro "Elite da Tropa".