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Conversas na Crise - Depois do Futuro

Ciclo de debates promovido pelo idEA e pelo UOL


Paulo Sérgio Pinheiro: Todo policial no Brasil tem que ser antifascista

Luana Massuella

Colaboração para o UOL

14/10/2020 18h55

"O dossiê me preocupa em relação aos defensores dos direitos humanos", disse hoje Paulo Sérgio Pinheiro, cientista político e presidente da Comissão Internacional de Inquérito da ONU (Organização das Nações Unidas) para a Síria (Genebra, Suíça). O comentário do cientista político se refere à ação sigilosa do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), em que o Ministério da Justiça produziu um dossiê antifascista mirando servidores federais e estaduais, além de três professores universitários, incluindo Paulo Sérgio Pinheiro.

A declaração dele foi dada durante o ciclo "Conversas na Crise - Depois do Futuro", organizado pelo Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em parceria com o UOL. A entrevista foi conduzida pelo jornalista Paulo Markun e contou com a participação de Carlos Vogt, presidente do Conselho Científico e Cultural do IdEA; Marcelo Oliveira, repórter do UOL; e Ricardo Carvalho, também jornalista.

Paulo Sérgio Pinheiro disse que sua avaliação sobre o dossiê é a "pior possível". "É uma coisa absolutamente inútil. Ao invés de ficar gastando dinheiro do contribuinte, eles deviam fazer pesquisa no Google. Tudo que fiz nos últimos 40 anos dá para achar no Google, está tudo público", disse. Ele afirmou ainda que sua preocupação é em relação aos defensores de direitos humanos, dos líderes indigenistas, dos caciques que estão sendo mortos e também em relação aos policiais civis e militares que fizeram movimentos antifascismo.

Todo funcionário policial militar ou civil no Brasil tem que ser antifascista, porque você é a favor da Constituição. Se você é fascista, você é contra a Constituição. Você está cometendo um crime.

Sobre o encontro secreto entre militares chilenos e brasileiros para tratar de inteligência e monitorar os protestos que aconteciam no Chile no ano passado, o cientista político comparou a ação com a Operação Condor, coordenada pelos Estados Unidos para desestabilizar países da América Latina durante a Guerra Fria.

Dá arrepios, porque isso é uma recriação da Operação Condor, que justamente unia as polícias do Uruguai, Argentina, Chile e Brasil. Havia uma cooperação estreita com a Ditadura.

Segundo ele, é "prática da pior qualidade, e se não houver uma reação, isso vai continuar".

Autoritarismo e forças armadas

O cientista político disse ainda que há o "ensaio de um retorno ao autoritarismo, montado numa certa mobilização de extrema-direita" e que, segundo ele, é este o motivo de a democracia brasileira não estar consolidada. Pinheiro também falou sobre a homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, feita pelo vice-presidente Hamilton Mourão a uma TV alemã na semana passada.

"Eu me sinto mal porque o exército brasileiro, ao invés de resgatar o legado da Ditadura Militar, deveria resgatar o legado de seus antecessores que lutaram contra o nazi fascismo", disse. "É lamentável que esse governo ouse celebrar a tortura", disse. Segundo o cientista, o vice-presidente desonra as forças armadas com o elogio.

Frente ampla

Paulo Sérgio Pinheiro falou também sobre a importância de construir uma frente ampla para combater o autoritarismo. "Não devemos subestimar os chefes de governo, e as elites continuam apoiando os ensaios de caminhada ao aforismo", disse.

É preciso ir além. A gente tem que ir além do Facebook, e do WhatsApp, ir além de tudo isso, e reunir de novo os laços com o 'fazer política'.

Segundo ele, quem deve conduzir essa união seriam os partidos políticos. "Temos que achar um denominador comum para enfrentar, senão a situação atual vai prevalecer", afirmou. Ele ainda falou sobre a importância de estimular que os partidos de oposição conversem: "Hoje a gente nem conversa, hoje a gente se trata como inimigos.".

Eleições americanas

Segundo o cientista político, mesmo com a possibilidade de eleição de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, o brasileiro não deve esperar "grandes mudanças", mas que a pasta do Meio Ambiente deve sentir os efeitos. Para ele, Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, deve "tirar o cavalinho da chuva porque vem troco".

"A única menção que Biden fez no debate foi ao Brasil e às queimadas da Amazônia", disse, se referindo à fala do candidato durante o debate com Donald Trump, em que prometeu US$ 20 bilhões para combater a devastação da Amazônia.

Além disso, caso Biden seja eleito, Paulo Sérgio Pinheiro também prevê uma volta ao Conselho dos Direitos Humanos. O governo Trump retirou os Estados Unidos do Conselho de Direitos Humanos da ONU em 2018.