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Por dívida trabalhista, bloco afro Ilê Ayiê pode ter sede penhorada na BA

Músicos na sede do Ilê Aiyê, em Salvador - Fafá Araújo
Músicos na sede do Ilê Aiyê, em Salvador Imagem: Fafá Araújo

Alexandre Santos

Colaboração para o UOL, em Salvador

07/01/2021 04h00

Sob risco de perder sua sede, o bloco afro Ilê Aiyê corre contra o tempo para tentar quitar uma dívida trabalhista que, em cifras corrigidas, pode chegar a R$ 470 mil.

Já em fase de execução, o processo foi movido por Adelson Evangelista Santos, que cantou no grupo entre 1988 e 2010.

A penhora do espaço foi determinada em abril do ano passado pelo TRT-5 (Tribunal Regional do Trabalho) na Bahia. Desde então, o caso ficou parado porque a Justiça aderiu às atividades remotas em razão da pandemia de covid-19.

Com a possível retomada dos trabalhos presenciais nos próximos meses, a agremiação teme ver o imóvel ser leiloado, uma vez que, nesse meio-tempo, não conseguiu juntar dinheiro suficiente para saldar a dívida. A indenização foi fixada em R$ 400 mil, mas, para a defesa de Evangelista, o valor corrigido chega a R$ 470 mil.

Atividades culturais

Erguida em 2003 em uma área de 5.000 metros quadrados, a sede, chamada de Senzala do Barro Preto, fica no emblemático bairro da Liberdade, que concentra a maior população negra de Salvador.

Ali, além dos tradicionais ensaios e eventos como a Noite da Beleza Negra, ocasião em que é eleita a Deusa do Ébano, o Ilê desenvolve projetos de cunho sociocultural. Não há uma data definida para que ocorra o leilão.

Dentre as principais ações voltadas para o público carente do seu entorno, a Senzala abriga a Escola Mãe Hilda e a Escola de Percussão, Canto e Dança Band'erê, que, juntas, atendem a mais de 200 crianças e adolescentes da região.

"Ilê pagava R$ 30 por show", diz advogado

O UOL tentou ouvir o músico, mas ele preferiu não se pronunciar.

Nos autos, Evangelista diz que não possuía vínculo trabalhista com o Ilê e que recebia pequenos cachês por shows. Ele afirma no processo que, além de cantar no grupo, acumulou a função de instrutor musical da banda Band'erê entre 2000 e 2003, com jornada das 8h às 12h e das 14h às 17h, de segunda a sexta-feira.

Responsável por representar Adelson Evangelista Santos, o advogado Lucas Andrade Krejci afirmou ao UOL que o valor repassado por apresentação era baixo, e o pagamento, irregular. Por isso, Evangelista ajuizou a ação trabalhista em 2011.

"Tanto ele [Evangelista] quanto outros cantores recebiam R$ 30, R$ 40 por show. Quando eles iam para o exterior, o governo que os convidava, por exemplo, pagava 2.000 euros a cada cantor. O presidente do Ilê [Antonio Carlos dos Santos, o Vovô] pegava esse dinheiro na mão deles e dava R$ 50. Também não ganhavam nada para dar aulas na escola. A vida inteira eram promessas de que eles teriam cachês melhores, mas nunca tiveram. Quando se rebelaram e disseram que, dessa forma não tinha mais condições, Vovô colocou todo mundo para fora", relatou.

ilê - Fafá Araújo - Fafá Araújo
Antonio Carlos dos Santos, o Vovô, presidente do Ilê Aiyê
Imagem: Fafá Araújo

Ao UOL, Vovô, 67, disse que a versão do advogado do ex-funcionário é "mentirosa".

Ainda assim, o Ilê reconhece a decisão judicial, mas afirma não contar com qualquer tipo de receita para arcar com a quantia, que classifica como "exorbitante e fora da realidade".

Hudson Araújo Resedá, defensor do Ilê, afirma que a decisão já foi transitada em julgado e resta apenas buscar na Justiça um último acordo com a defesa de Evangelista. O objetivo é ao menos conseguir que a dívida seja parcelada.

O bloco afro já conseguiu pagar a Evangelista R$ 200 mil do total. Destes, R$ 100 mil são decorrentes de valores bloqueados judicialmente das contas bancárias do bloco.

"Precisamos agora de pouco mais de R$ 150 mil. Vamos conseguir, a gente vai sair dessa, se Deus quiser", diz Vovô, fundador do bloco em 1974. Agora, ele está "buscando contatos" tanto com o setor público quanto privado para levantar o restante.

Sem perspectiva de que haja Carnaval neste ano, conforme decisão da prefeitura, o bloco não contará com o dinheiro da venda de fantasias, sua principal fonte de renda.

O Ilê já chegou a propor, em uma das audiências de conciliação, que parte da Senzala do Barro Preto fosse repassada ao ex-funcionário como pagamento da dívida. A proposta não foi aceita. Segundo Vovô, o imóvel está avaliado em R$ 5 milhões.

Vaquinha e live frustradas

Diante da alegada dificuldade financeira, o Ilê chegou a promover campanhas para atrair doações. Em julho de 2020, por exemplo, iniciou uma vaquinha virtual e transmitiu uma live por meio do YouTube.

Na ocasião, Daniela Mercury, Margareth Menezes e Regina Casé reforçaram o pedido de ajuda. As três gravaram depoimentos sobre a importância das ações sociais, culturais e educacionais do Ilê. Ambas as iniciativas, porém, não foram suficientes.

A receita do Ilê hoje é praticamente nenhuma. Em julho, foi feita uma live para manter os gastos mensais. A parte técnica, artística e tudo o mais custou quase R$ 40 mil, e a arrecadação ficou abaixo de R$ 35 mil. Acabou causando um prejuízo, não houve o engajamento que imaginávamos.
Hudson Araújo Resedá, advogado que representa o Ilê

Parcelamento da dívida

Segundo o defensor, a sede "não foi ainda a leilão em razão da pandemia, porque os prazos foram suspensos". "Quando o atendimento presencial vier acontecer, lá para março ou abril, o juiz vai designar audiência. O processo já está em fase terminal", afirmou.

Segundo o advogado de Evangelista, todas as propostas feitas até agora pelo Ilê foram rechaçadas por seu cliente.

"O bloco propôs um valor muito irrisório, R$ 100 e poucos mil, salvo engano. Agora, fizeram outra proposta de pagamento, no valor de R$ 100 mil, e parcelando o resto em 20 vezes. O reclamante não aceitou, porque estão enrolando há muito tempo para pagar", afirma.

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