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PMs impediram socorro de vítima de ação no Morro dos Macacos, diz esposa

Valmir Pereira Cândido é um dos mortos após ação da PM no Morro dos Macacos - Arquivo Pessoal
Valmir Pereira Cândido é um dos mortos após ação da PM no Morro dos Macacos Imagem: Arquivo Pessoal

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

08/03/2021 09h32

Valmir Pereira Cândido, um dos cinco homens que morreram em uma ação no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na zona norte do Rio, no sábado (6), havia completado 42 anos no último dia 27. O montador de andaimes, que trabalhava para uma empresa terceirizada que presta serviço para refinaria de Duque de Caxias (Reduc/Petrobras) foi baleado em um bar na porta de casa e, segundo a família, moradores foram impedidos pela polícia de socorrê-lo.

"Passamos a manhã organizando a comemoração de 15 anos da minha filha. Chegamos em casa, mais tarde ele foi até o bar que fica na porta de casa com um amigo. Passaram 20 minutos e começaram os tiros", relatou a esposa de Valmir, Valéria Pereira, de 39 anos. "Eu comecei a ligar desesperada e ele não me atendia. Quando saí de casa, dei de cara com uma pessoa caída e os policiais em volta. As pessoas queriam socorrer, mas eles [PMs] davam tiro para o alto e diziam que ninguém ia levar ele."

Casado há 20 anos, o montador de andaime deixa, além da esposa, um filho de 20 anos e uma filha de 14. Diretor da torcida Flamacacos [uma organizada do Flamengo], ele organizava eventos para outros rubro-negros assistirem às partidas que não contavam com transmitidas pela TV aberta, com o aluguel de lona e telão.

Ao todo, cinco pessoas morreram na comunidade. Segundo moradores, pelo menos duas não tinham envolvimento com o tráfico de drogas.

Vídeo mostra vítimas na favela

Um vídeo que circula na internet, mostra os policiais colocando um dos homens baleados e ensanguentados dentro de um camburão. Uma das vítimas, de acordo com as testemunhas, é Valmir. No áudio gravado, é possível ouvir o desespero dos moradores que gritavam afirmando que a vítima era moradora da comunidade.

Próximo da viatura, é possível observar outro corpo estendido no chão. De acordo com denúncias, os policiais militares não preservaram o local da ocorrência para realização de perícia - procedimento que deve ser adotado em caso de morte.

Procurada, a PM informou que policiais da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) foram atacados a tiros por traficantes durante patrulhamento na localidade conhecida como Terreirinho. "Houve revide e, após cessar o confronto, uma busca foi feita na região, e a guarnição localizou cinco suspeitos feridos". As vítimas foram encaminhadas para o Hospital Federal do Andaraí, na região.

A versão da corporação foi negada por moradores. Segundo a comunidade, os policiais chegaram na localidade atirando.

Na ação, a PM informou que três armas de fogo foram encontradas com as vítimas: um fuzil e duas pistolas. Além disso, também foram recolhidas duas granadas e drogas, de acordo com a corporação.

Segunda ação mais violenta de 2021

A ação policial no Morro dos Macacos foi a segunda mais violenta em 2021, de acordo com o Laboratório de Dados sobre Violência Armada Fogo Cruzado. A mais violenta ocorreu em fevereiro, em uma operação no Morro da Caixa D'Água, em Quintino, zona norte da capital, que terminou com dez mortos e cinco feridos.

Apenas em 2021, essa foi a 13ª operação policial no Rio com um saldo de três ou mais civis mortos. Desde junho de 2020, está em vigor uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) restringindo a realização de operações policiais em favelas durante a pandemia de covid-19. De acordo com a decisão, as ações só são permitidas em circunstâncias excepcionais.

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