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10 meses

Jovem que perdeu mãe e avós para covid diz: 'Que as mortes conscientizem'

Tiago Amorim, 20 anos, perdeu três familiares em poucos dias - Acervo pessoal
Tiago Amorim, 20 anos, perdeu três familiares em poucos dias Imagem: Acervo pessoal

Daniel César

Colaboração para o UOL, em Pereira Barreto (SP)

23/03/2021 17h00

A vida de Tiago Amorim, 20 anos, mudou para sempre. O jovem morador de Araçatuba (SP), cidade a 530 km de São Paulo, acabou de perder os avós e a mãe para o novo coronavírus e tenta mandar um recado de conscientização sobre a gravidade que o país está vivendo.

"Esperamos que as mortes conscientizem as pessoas", diz ele ao UOL menos de 24 horas depois de ter enterrado a mãe. O ritual, aliás, foi repetido dias antes, já que ele havia enterrado a avó apenas dois dias depois de ter recebido a notícia da morte do avô.

Tiago mora num apartamento que dividia com a mãe, Karine Zancheta, 45; com o avô Roberto Zancheta, 70; e com a avó Aurea Viana Zancheta, 68. Agora, só restam ele, o irmão mais velho — Mateus, 22 — e um tio.

O jovem conta que pretende continuar vivendo ali. "A gente vai continuar morando aqui. Temos família e amigos que estão nos ajudando muito neste momento. A cidade toda se envolveu porque minha mãe e meus avós eram muito queridos", relata.

À reportagem, ele conta que também foi diagnosticado com a covid-19 ao mesmo tempo que a família, e todos permaneceram juntos no isolamento domiciliar. "Todo mundo bem, meu avô não estava sentindo praticamente nada", garante, ao lembrar que a coisa começou a mudar. "Lá pelo 10º dia, minha mãe teve uma piora. Vômito. Ela teve muita fraqueza, não tinha paladar, olfato", descreve.

"No 12º dia ela passou muito mal e teve muita febre e já não conseguia nem andar. Depois ela passou muito mal, já não conseguia falar e chamamos a ambulância. Ela já foi levada pra Santa Casa", acrescenta, indo além.

"Depois ela teve 80% do pulmão comprometido e depois foi pra UTI e foi intubada Ela vinha melhorando, mas sexta (19) já tinha tirado um pouco da sedação. No sábado (20) ligaram para o meu irmão avisando que ela tinha tido três paradas", conta, lamentando pela morte surpreendente da mãe, já que ele esperava que ela se recuperaria diante da evolução apresentada.

Os avós

Tiago também fala como foi o caso dos avós e lembra que tudo foi muito rápido. "Eles já estavam tratando do pós-covid porque tiveram alta", diz o jovem, que explica que dona Aurea mudou o comportamento rapidamente. "No domingo, minha avó piorou muito e levamos para o hospital e o pulmão dela estava com 50% comprometido", lembra.

"Eu fiquei com ela cuidando dela. No último dia de isolamento, ela foi internada. Depois ela foi para UTI com a saturação baixa e já foi intubada", conta Tiago.

O avô Roberto teve uma piora igualmente rápida. "Logo depois meu avô foi piorando tbm e levamos ele pro hospital e ele teve 75% do pulmão comprometido. E já foi direto para a UTI."

Sobre a morte da avó, Tiago diz que "eles iam tirar a sedação para tirar o tubo, mas ela não acordou e tinha tido um sangramento intracraniano". "Ela teve morte cerebral. Os órgãos pararam e ela não agüentou", acrescentou.

Já seu Roberto morreu por conta de problemas de pressão, em complicações da covid-19. "No caso do meu avô, ele não aguentou a hemodiálise, a pressão dele tava muito baixa e não resistiu e teve parada cardiorrespiratória", explica.

O legado da família

Emocionado, Tiago faz questão de falar que, embora muito triste, tanto ele quanto o irmão aprenderam muito com a família. "Deixaram um legado. Passamos muitos momentos com eles. E conhecemos muita gente que fala o quanto eles ajudaram a todos na cidade", avalia.

Ele explica ainda que seu Roberto fazia palestras para menores infratores e ajudou muitos jovens. "Meu avô tinha um projeto na Fundação Casa e ajudou muitos adolescentes lá, que hoje constituíram família", conta, emocionado. Tentando evitar que o caso seja apenas um momento de trauma, Tiago é enfático. "Eles deixam muito mais vida do que morte", resume o jovem, que viu a vida mudar completamente em menos de uma semana, lembrando a situação do país. "A gente não deseja isso pra ninguém e está tentando conscientizar as pessoas", torce.

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