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'Segurança barrou o vírus', diz criador de festa em Campos do Jordão (SP)

03.06.2021 - Aglomeração nas ruas de Campos do Jordão (SP) no primeiro dia do feriado estendido de Corpus Christi - Reprodução/Twitter
03.06.2021 - Aglomeração nas ruas de Campos do Jordão (SP) no primeiro dia do feriado estendido de Corpus Christi Imagem: Reprodução/Twitter

Felipe De Paula

Da Revista Esquinas

12/06/2021 04h00

"A covid não era mencionada em nenhum momento porque o segurança barrou o vírus na porta'', brinca o organizador de eventos clandestinos Danilo*, estudante do último ano do ensino médio, sobre uma festa planejada por ele no feriado de Corpus Christi, em Campos do Jordão (SP).

Só no período do feriado, a prefeitura da cidade notificou 81 estabelecimentos por violarem as medidas preventivas contra a covid-19. Festas particulares também foram desmobilizadas pela polícia, contabilizando 16 aglomerações com mais de 200 pessoas cada uma.

Os responsáveis foram conduzidos para a delegacia por descumprirem o Artigo 268 do Código Penal, que trata de infringir determinações do poder público para propagação de doença contagiosa.

Sobre a logística do evento, o jovem de 18 anos explica que "era para ser algo controlado". "Criamos um grupo no WhatsApp com pessoas conhecidas que estavam na cidade. Depois do início da festa, perdi o controle e muitas pessoas começaram a chegar", diz. Danilo afirma que não tem receio de contrair a doença, alegando que, na sua idade, "o vírus não traz consequências severas''.

O coronavírus não escolhe idade e pessoas cada vez mais jovens têm sido internadas no atual momento da pandemia.

Segundo ele, os preços para entrar na festa variavam. Com nome na lista, era necessário uma garrafa de bebida alcoólica ou R$ 50. Sem nome, o valor poderia chegar a até R$ 500. O estudante conta que chegou a arrecadar R$ 7.000, mas, devido às despesas, acabou ficando com R$ 2.500.

Fiscalização

Na noite de sexta-feira 4 de junho, uma equipe da Polícia Civil flagrou um evento clandestino com cerca de 300 pessoas em uma casa de alto padrão no bairro Vila Inglesa. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de Campos do Jordão, um DJ e um segurança foram detidos e vão responder por infringir medidas sanitárias.

Sobre o medo de ações fiscalizadoras da polícia, Danilo disse que fez o possível para não atrair a presença dos agentes: "Tentamos deixar o som em um volume que não incomodasse tanto os vizinhos".

A Prefeitura de Campos do Jordão disse, em nota, que 430 pessoas que estiveram na cidade nos últimos dias estão em isolamento domiciliar. Dentre elas, 206 com covid confirmada e 226 à espera dos resultados de exames. O município tem suas estatísticas de saúde contabilizadas juntamente com as de Taubaté, que fica a menos de 50 km de Campos.

Segundo o InfoTracker, plataforma que monitora os dados da doença no Brasil, as aglomerações nos últimos sete dias contribuíram para tornar Taubaté a quarta cidade do estado com maior aumento no número de leitos de UTI (Unidades de Terapia Intensiva) ocupados. Fica atrás apenas de Bauru, de São João da Boa Vista e da região oeste da Grande São Paulo.

Durante o feriado prolongado, diversas publicações com imagens de pessoas aglomerando sem máscara e desrespeitando o distanciamento social no Calçadão do Capivari, região turística de Campos do Jordão, viralizaram nas redes sociais. Para Danilo, a exposição da festa na internet "preocupa muito, porém não está ao meu alcance controlar isso''.

O infectologista do Hospital Emílio Ribas da Baixada Santista Murilo Santarsiere diz que, após sucessivos dias de aglomeração, as consequências não são apenas para a cidade de Campos do Jordão, mas sim para toda a região.

"Como a maior parte das pessoas que estavam no município durante o feriado não são residentes, e sim turistas, o vírus será espalhado para inúmeros locais''. Santarsiere salienta o fato de que, em ambientes turísticos, "as pessoas são menos rigorosas com o distanciamento, higiene das mãos e uso de máscaras".

Segundo a prefeitura, a expectativa para o feriado era que 70 mil turistas passassem pela cidade. Com o intuito de amenizar as aglomerações, foram impostas barreiras físicas no acesso ao centro e a proibição do "take away" (retirada) de bebidas após as 21h.

Para o especialista, essas estratégias não são suficientes para conter uma propagação em massa do vírus: "As medidas sanitárias adotadas pela prefeitura não são consideradas rigorosas, são básicas''. Ele ressalta que a ausência de ações mais rígidas contribui para a "postergação da pandemia no Brasil, o que resulta em cada vez mais mortes".

Novas medidas restritivas

Após o feriado, a prefeitura decidiu endurecer as medidas para evitar o excesso de visitantes. A partir de 11 de junho, bares e restaurantes devem funcionar com 30% de sua capacidade e devem fechar às 18h. O comércio em geral terá de fechar às 20h e os hotéis devem reduzir o número de hóspedes para 60% da capacidade.

A medida atinge principalmente o Dia dos Namorados, uma das principais datas para o turismo local. As ações são mais duras do que as do Plano São Paulo, que prevê o funcionamento de restaurantes e do comércio geral até as 21h para atendimento presencial.

Em rede social, o prefeito Marcelo Padovan (PSDB) afirma ter se reunido com empresários do comércio e hotelaria para discutir e acordar medidas preventivas: "As empresas ligadas ao turismo são de suma importância para colaborar no combate à pandemia e na restauração da imagem de nossa querida cidade".

* A pedido do entrevistado, seu nome foi ocultado para preservar sua identidade.

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