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Caso Kathlen: PMs são vaiados e chamados de assassinos em reconstituição

Caso Kathlen: PM usa toca em reprodução simulada da morte no Lins - Daniele Dutra/UOL
Caso Kathlen: PM usa toca em reprodução simulada da morte no Lins Imagem: Daniele Dutra/UOL

Daniele Dutra

Colaboração para o UOL, no Rio

14/07/2021 14h48Atualizada em 14/07/2021 17h07

Moradores do Complexo do Lins, na zona norte do Rio, e amigos de Kathlen Romeu vaiaram e chamaram de "assassinos" dois policiais militares que participaram na tarde de hoje da reconstituição da morte da jovem de 24 anos. Grávida de quatro meses, Kathlen foi atingida por um tiro de fuzil no tórax durante uma ação policial em 8 de junho.

Além desses dois PMs —que usaram tocas—, outros cinco policiais e a avó de Kathlen, Sayonara de Fátima, participaram da reprodução assistida, que durou cerca de duas e 30 minutos e foi acompanhada por 50 policiais civis. "De quem é essa culpa? Não importa de quem essa bala saiu. [...] A culpa é desse estado genocida", disse a mãe de Kathlen, Jaqueline Oliveira.

Com base em relatos de testemunhas, a família diz que o disparo que matou a designer de interiores partiu de PMs que atuavam na comunidade. O local onde a jovem foi morta tem no muro a inscrição "Deus é Fiel" e ao menos dois buracos causados por disparos.

Testemunha chave para esclarecer o ocorrido, a avó de Kathlen estava com a jovem quando ela foi morta. "Só de olhar pro local onde aconteceu, já fico me sentindo mal", disse Sayonara.

Familiares e amigos de Kathlen exibiram faixas de protesto. Uma delas responsabiliza o governador do Rio, Cláudio Castro, e critica a política de segurança pública.

"De quem é essa culpa? Não importa de quem essa bala saiu. Minha culpa é que não é. Da minha filha menos ainda. De quem é essa conta que permite que policiais façam ronda uma, duas horas da tarde? Independente se eles tivessem sido recebidos a tiros, o que não aconteceu, todo mundo sabe. [...] A culpa é desse estado genocida, sanguinário, doente e hoje eu vivo por ódio, porque eles nunca vão reparar nada na minha vida", disse a mãe de Kathlen.

'Preciso que seja feita a justiça', diz mãe

Em 8 de junho, Kathlen Romeu foi visitar a avó na comunidade do Barro Branco. As duas estavam a caminho da clínica de estética da tia de Kathlen para levar o almoço.

No caminho, ouviram disparos e, na mesma hora, se jogaram no chão. A avó, que tentou proteger a neta grávida, viu que ela havia sido baleada.

Dois policiais militares —que a família aponta serem os responsáveis pelos disparos— chegaram a levar Kathlen para o hospital, mas ela morreu.

A versão dos policiais militares da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) Lins é de que eles foram atacados a tiros por criminosos na localidade conhecida como Beco da 14. Segundo nota da Secretaria de Estado de Polícia Militar à época da morte de Kathlen, houve confronto —o que testemunhas negam— e a jovem foi socorrida após os disparos cessarem.

Hoje, a assessoria de imprensa da PM informou que a investigação interna sobre o caso continua em andamento. "As armas utilizadas pela equipe foram apresentadas às autoridades investigativas e os policiais militares estão afastados do serviço nas ruas", diz a corporação, por meio de nota.

"Nada vai trazer ela de volta, mas eu preciso que seja feita a justiça, no sentido mais amplo da palavra, ao nome da minha filha", diz a mãe da vítima.

Eu ainda tenho que levantar da cama e marchar, eu não posso parar, porque tem que ser feita a justiça pela Kathlen de Oliveira Romeu. Eu continuo sendo mãe e continuo tendo uma missão pela minha filha. Cuidando dela até o último dia da minha vida. Mesmo que seja somente o nome dela

Jaqueline Oliveira, mãe de Kathlen

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