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Presa por incêndio do Borba Gato nega ato: 'Estava cuidando da minha filha'

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

28/07/2021 17h46Atualizada em 28/07/2021 19h06

Géssica de Paula Silva Barbosa, presa hoje (28) sob acusação de participar do ato no último sábado que incendiou a estátua do bandeirante Borba Gato na zona sul de São Paulo, negou qualquer tipo de ligação com o ato. Em vídeo exclusivo obtido pelo UOL, ela disse à Polícia Civil que cuidava da filha de 3 anos em casa no momento do atentado.

Géssica é esposa de Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como Galo, que assumiu ter sido um dos autores do ataque. O casal, que foi hoje à tarde à sede do 11º Distrito Policial de Santo Amaro para prestar depoimento, acabou sendo preso temporariamente pelo crime de formação de quadrilha.

[No dia do ato] eu estava na minha casa, cuidando da minha filha e do meu irmão. Não sei por que fui detida. Estou indignada."
Géssica de Paula Silva Barbosa

Em um relato em vídeo de 53 segundos, gravado já no distrito policial, ela demonstrou preocupação com a filha, que ficou sob os cuidados da sogra.

"Estou aqui pra ser ouvida. Não sei como vou sair ou quando vou sair. O Sistema Judiciário está sendo falho por não apurar, por não ter provas [do seu envolvimento no incêndio à estátua]. Estou aqui e preciso de ajuda das pessoas", completou.

Estátua do Borba Gato em chamas, no último sábado - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Estátua do Borba Gato em chamas, no último sábado
Imagem: Reprodução/Twitter

A defesa de Géssica irá solicitar a conversão da prisão temporária em domiciliar, já que ela é responsável pelos cuidados da filha de 3 anos. "Prenderam uma mãe. E ela nem sequer estava presente no ato. A prisão é absolutamente sem sentido", disse o advogado Jacob Filho, que acompanhou o casal na delegacia.

Segundo ele, Géssica foi presa porque o telefone utilizado por Galo está no nome dela. Um outro rapaz, Danilo Silva de Oliveira, compareceu na delegacia alegando também ter participado do ato. Contudo, não há mandado de prisão contra ele.

"Favelado nunca teve voz ativa. Mas a gente quer ir para um debate que já existe", disse Oliveira, que afirma ter participado do ato e se apresentou para depor.

O TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) decretou a prisão temporária do casal pelo crime de formação de quadrilha. A Justiça também autorizou a quebra de sigilo telemático dos aparelhos telefônicos do casal para ter acesso a dados, contatos, mensagens, fotos, vídeos e e-mails que possam contribuir com a investigação do caso.

Ação com lambe-lambes

Não houve feridos no incêndio ocorrido na tarde de sábado à estátua em homenagem ao bandeirante Borba Gato, instalada na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, no distrito de Santo Amaro, em São Paulo.

Um coletivo intitulado Revolução Periférica, do qual 'Galo' é integrante, assumiu a autoria do ato no mesmo dia. No Instagram, os membros compartilharam uma ação em que colaram lambe-lambes com a questão "Você sabe quem foi Borba Gato?" em postes da capital. No fim de semana, um suspeito foi detido, mas liberado algumas horas depois.

Estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, também amanheceu coberta de tinta em 30 de setembro de 2016 - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, também amanheceu coberta de tinta em 30 de setembro de 2016
Imagem: Reprodução/Twitter

Inaugurada nos anos 1960 a estátua de Borba Gato gera polêmicas desde que foi instalada na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, no bairro de Santo Amaro.

O monumento homenageia Borba Gato, que fez parte do grupo de bandeirantes paulistas que exploraram territórios no interior do país, capturando e escravizando indígenas e negros entre os séculos 16 e 17, segundo obras como "Vida e Morte do Bandeirante", de Alcântara Machado, de 1929.

Em 2016, a estátua de Borba Gato foi atacada com um banho de tinta. A mesma intervenção também não perdoou o Monumento às Bandeiras, imponente obra de Victor Brecheret localizada no Parque do Ibirapuera, na capital paulista.

No ano passado, em meio aos protestos #BlackLivesMatter lançarem ao rio uma estátua de um traficante de escravos em Bristol, no Reino Unido, o debate em torno do monumento ganhou força nas redes sociais brasileiras por conta do histórico do bandeirante.

À época, a subprefeitura de Santo Amaro solicitou a instalação de gradis e vigia 24 horas pela Guarda Civil Metropolitana.

Entregadores Antifascistas

Morador do Jardim Guaruau, na zona Oeste da capital, Galo ganhou o apelido por conta de uma moto 7 Galo que usava para trabalhar como motoboy. Em março de 2020, começou a denunciar as condições de trabalho da categoria durante a pandemia, de onde surgiu o coletivo Entregadores Antifascistas, e a pedir a disponibilização de comida e kit higiene à categoria.

"Convidei os caras para ir até uma manifestação de domingo, para a gente observar e aprender junto como se constrói um ato junto com a galera do movimento negro para, quem sabe, um dia, a gente ter um ato grandão só nosso para falar das nossas pautas", declarou ao UOL em entrevista no ano passado.

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