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Polícia indiciará religiosa que diz ser absurdo post sobre 'preto e gay'

Karla Cordeiro, líder religiosa da Igreja Sara Nossa Terra, em Nova Friburgo, durante transmissão a crianças e jovens em que disse para parar "de querer ficar postando coisas de gente preta, de gay" - Reprodução
Karla Cordeiro, líder religiosa da Igreja Sara Nossa Terra, em Nova Friburgo, durante transmissão a crianças e jovens em que disse para parar 'de querer ficar postando coisas de gente preta, de gay' Imagem: Reprodução

Alerrandre Barros

Colaboração para o UOL, de Nova Friburgo (RJ)

03/08/2021 11h47

A Polícia Civil abriu nesta segunda-feira (2) inquérito para investigar a conduta de uma líder religiosa da Igreja Sara Nossa Terra, em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, por suposta pregação racista e homofóbica. Segundo o delegado responsável, ela será indiciada.

Durante um culto, no último sábado (31), transmitido também pelas redes sociais, Karla Cordeiro disse que é um absurdo cristãos levantarem bandeiras políticas ou relacionadas a pessoas pretas ou LGBTQIA+.

É um absurdo pessoas cristãs levantando bandeiras políticas, bandeiras de pessoas pretas, bandeiras de LGBTQIA+ sei lá quantos símbolos tem isso aí. É uma vergonha!
Karla Cordeiro, líder da Igreja Sara Nossa Terra

E continuou: "É uma vergonha falar, mas chega de mentiras, não vou mais viver de mentiras. A nossa bandeira é Jeová Nissi, é Jesus Cristo. Ele é a nossa bandeira. Para de querer ficar postando coisas de gente preta, de gay. Para! Posta a palavra de Deus que transforma vidas. Vira crente! Se transforma, se converta!".

Em outro trecho, a religiosa afirmou: "As pessoas estão mais preocupadas com preconceitos do que com perseguições. As bandeiras que vocês têm levantado têm gerado morte nas pessoas. É mais importante defender o direito de um gay, de um preto, de um político do que você defender a palavra de Deus?".

A pregação aconteceu durante um culto do grupo Arena Jovem, que reúne adolescentes e jovens da igreja, e foi transmitida pelo YouTube. Um jovem negro, membro da Sara Nossa Terra, assistia à pregação pela internet e se sentiu ofendido. Ele mostrou as falas para a irmã, que, inconformada, encaminhou o vídeo para amigos. A partir daí, o trecho repercutiu nas redes sociais.

"Meu irmão frequenta a igreja, tem 17 anos, é negro e ficou ofendido com o que assistiu. Ele não acredita que aquilo se passou num lugar que costuma ser seguro pra ele", disse ao UOL Luana Barbosa, que chegou a escrever para Karla por uma rede social, mas não obteve resposta.

O teor da pregação gerou críticas, inclusive, de outras lideranças religiosas do município, como o pastor Gerson Acker, da Igreja Luterana de Nova Friburgo. "Isso é discurso de ódio. Palavra de Deus acolhe e fala de amor", comentou ele em uma rede social.

Diante da repercussão, a Igreja Sara Nossa Terra deletou o vídeo do culto das redes sociais, mas o trecho em que a religiosa faz as críticas continuou circulando e chegou à polícia. Nesta segunda-feira (2), Henrique Pessoa, delegado titular da 151ª DP, afirmou que instaurou um inquérito para investigar o caso.

O vídeo tem teor claramente racista e homofóbico, o que configura transgressão típica na forma do artigo 20 da lei 7716/89, com pena prevista de 3 a 5 anos, e com circunstâncias qualificadoras, porque foi divulgado em mídias sociais. Já foi instaurado inquérito policial pelo crime de intolerância racial e homofóbica, de acordo com a recente previsão do STF
Henrique Pessoa, delegado titular da 151ª DP

Pessoa acrescentou que a religiosa será ouvida nos próximos dias, assim como outras pessoas envolvidas no caso. Mas já adiantou que, como o crime já está configurado, ela será indiciada e o inquérito encaminhado para o Ministério Público do estado. "Isso é lamentável. Esse discurso preconceituoso e discriminatório. Como isso ainda pode existir?", comentou o delegado.

Procurada pelo UOL, a Igreja Sara Nossa Terra de Nova Friburgo disse que não irá se manifestar.

Em nota publicada em uma rede social, no mesmo dia, Karla Cordeiro pediu desculpas pelos termos que usou durante o culto no último sábado. "Fui infeliz nas palavras escolhidas e quero afirmar que não possuo nenhum tipo de preconceito contra pessoas de outras raças, inclusive meu pastor é negro, nem contra pessoas com orientações sexuais diferentes da minha, pois sou próximas de várias pessoas que fazem parte do movimento LGBTQIA+", diz trecho da nota.

"A intenção era de afirmar a necessidade de focarmos em Jesus Cristo e reproduzirmos seus ensinamentos, amando os necessitados e os carentes, principalmente as pessoas que estão sofrendo tanto na pandemia. Fui descuidada na forma como falei e estou aqui pedindo desculpas. Ressalto que as palavras que utilizei não expressam as opiniões do meu pastor, nem da minha igreja", concluiu.

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