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Lua vermelha pode ter dias contados com chegada de frente fria ao Brasil

Apesar de frio não ser sinônimo de melhor qualidade do ar, umidade trazida por atual frente climática deve reduzir vermelhidão da Lua - Antônio Machado/Futura Press/Estadão Conteúdo
Apesar de frio não ser sinônimo de melhor qualidade do ar, umidade trazida por atual frente climática deve reduzir vermelhidão da Lua Imagem: Antônio Machado/Futura Press/Estadão Conteúdo

Pietra Carvalho

Do UOL, em São Paulo

27/08/2021 21h17Atualizada em 28/08/2021 11h47

A Lua avermelhada vista no céu de algumas regiões do Brasil pode estar com os dias contados graças à chegada de uma frente fria em estados do Sudeste e Centro-Oeste, regiões afetadas pela intensa poluição atmosférica na última semana. Isso deve acontecer se as previsões de chuva e variação de umidade se concretizarem nos próximos dias.

A informação foi confirmada ao UOL por Marcia Yamasoe, professora associada do Departamento de Ciências Atmosféricas da USP (Universidade de São Paulo). Ela destaca que o tempo encoberto em cidades como a capital paulista já muda o cenário por atrapalhar a visibilidade do céu. Além disso, o aumento da umidade e a ocorrência de chuva devem "lavar" a atmosfera, removendo as partículas de poluição que provocam a mudança na coloração do satélite natural.

A cor vermelha da Lua, assim como o nascer e o pôr do Sol mais avermelhados, são resultados da maneira que a luz se comporta na atmosfera terrestre, intensificada pela presença de partículas de poeira no ar.

Thiago Signorini Gonçalves, doutor em astrofísica e professor adjunto da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), explicou ao UOL que a atmosfera sempre atua sobre a luz de alguma maneira e, no caso do fenômeno observado nos céus do Brasil, a luz vermelha é a menos espalhada pela atmosfera em contato com a poeira, enquanto luzes de outras cores não chegam à Lua.

"Exatamente isso que acontece, por exemplo, no pôr do Sol. Quando a gente olha o Sol ao meio-dia ele está atravessando muito menos a atmosfera, está bem acima da gente. Já quando estamos vendo o Sol no pôr do sol, quando ele está próximo do horizonte, ele está atravessando uma camada muito maior de atmosfera, de poeira. Então toda a luz azul que vem do Sol acaba sendo mais espalhada e só sobra luz vermelha, por isso que o sol adquire aquela cor mais avermelhada, mais alaranjada", detalha o professor.

"Lua de Sangue" não tem relação com fenômeno atual

Signorini destaca que a Lua avermelhada já é um fenômeno comum em grandes centros brasileiros, como São Paulo, pela presença constante de poluição, mas que as queimadas registradas nos últimos dias no Sudeste e Centro-Oeste têm relação direta com a coloração ainda mais intensa.

O professor também deixa claro que o fenômeno observado esta semana não tem relação com marcos astronômicos, como um possível eclipse, e sim com as condições de baixa umidade relativa do ar e acúmulo de poeira na atmosfera.

"A Lua de Sangue, que é um nome popular para os eclipses lunares, ocorre em média duas vezes por ano e a gente sabe exatamente quando vai acontecer. Se tem alguém, por exemplo, que diz que a Lua avermelhada é por causa de eclipses, isso não é verdade, o último foi em maio deste ano. Além disso, nunca aconteceria um eclipse em duas noites consecutivas. Então, você ver Luas avermelhadas em duas noites seguidas já mostra que isso está, sim, acontecendo sobretudo pelo aumento de partículas de poluição na atmosfera", explica o acadêmico.

Apesar de ser menos frequente, Thiago diz que a coloração laranja da Lua durante um eclipse também é provocada pela maneira que a luz se comporta na atmosfera, apesar de a poluição tornar o fenômeno bem mais intenso.

"Quando o eclipse ocorre, a Terra está perfeitamente entre o Sol e a Lua. Tem ainda uma pequena parte da luz solar que atravessa a atmosfera e a Terra acaba agindo como uma lente, jogando essa luz para a Lua. Mas como essa luz está atravessando a atmosfera terrestre, de novo, a luz azulada que vem do sol é mais afetada e só a luz vermelha acaba chegando na superfície da Lua, por isso que ela parece vermelha durante um eclipse", afirma.

"Mas quando você tem qualquer tipo de poluição atmosférica esse fenômeno acaba sendo muito mais forte, porque são as partículas de poeira que estão presentes na atmosfera que fazem isso de uma maneira mais eficiente, então se você tem muita poeira na atmosfera você tem um efeito mais forte de avermelhamento de seja lá o que for: seja do Sol durante o pôr do sol ou da Lua quando ela estiver mais baixa no horizonte", conclui.

Lua pode assumir tom vermelho mesmo no frio

Quando o assunto é uma possível conexão entre temperatura e a Lua avermelhada, Signorini diz que a relação entre os dois fatores é mais "sutil".

Em vez de estar atrelado diretamente ao calor ou ao frio, o fenômeno é mais impactado pela umidade do ar, que pode ser alta também em épocas de calor. O professor lembra que frio não é sinônimo de melhor qualidade do ar, já que a chamada inversão térmica é muito comum em grandes centros urbanos durante o inverno.

Nesse processo, o ar frio, mais denso, fica preso próximo à superfície terrestre, impedido de circular por uma camada de ar quente que está acima dele. Além de causar queda de temperatura, a situação faz com que o ar fique com alta concentração de poluentes, já que eles também não conseguem se dissipar, usualmente criando uma camada de cor cinza no horizonte.

"Às vezes, acontece uma inversão térmica, e aí a sujeira fica presa ali naquela camada da atmosfera, então em um momento de inversão térmica você pode ter mais avermelhamento, mais dessas partículas de poeira na atmosfera. O principal eu diria que é a quantidade de ar que tem entre você e a Lua, principalmente quando ela está baixa no horizonte, e a quantidade de poluição que tem no caminho".

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